Daniel Teixeira/ ESTADÃO
Daniel Teixeira/ ESTADÃO

coluna

Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

Campanha do Itaú ataca agentes autônomos e provoca reação forte da XP

Anúncio questiona atuação desses profissionais, base do avanço da XP; peça destaca a remuneração desses profissionais, feita por comissionamento

Fernanda Guimarães e André Vieira, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2020 | 17h01
Atualizado 24 de junho de 2020 | 22h16

Uma campanha publicitária levada ao ar pelo Itaú Unibanco provocou uma forte reação das corretoras e, especialmente, da XP – na qual o próprio Itaú tem uma participação de 46%. Na campanha, lançada em horário nobre na TV Globo, o Itaú bateu de frente no “coração” e em um dos pilares do negócio da XP: os agentes autônomos. Questionou a remuneração desses profissionais, feita por meio do comissionamento, o que traria o incentivo de que esse agente indique ao seu cliente um produto com a melhor remuneração para ele, e não necessariamente para o cliente. Na XP estão acoplados hoje mais de 6 mil AAIs – os agentes autônomos de investimento.

Na peça publicitária do Itaú, o ator Marcos Veras diz que a moda de 2019 era ter uma corretora e um assessor de investimentos. Ele sugere que os profissionais autônomos induzem o cliente a investir em produtos sem saber dos riscos, os fazendo se sentir “reis de Wall Street”.

O comercial, criado pela DPZ&T, produção da 02 Filmes e direção de Fernando Meirelles, reforça que os especialistas do Itaú Personnalité – o braço de renda mais alta do banco – são isentos.

Há algumas semanas, o alto-escalão da XP já sabia sobre a propaganda que vinha sendo elaborada pelo Itaú. Mas o tom de seu principal acionista os pegou de surpresa, conforme fontes próxima à XP.

Nesta quarta, o fundador e presidente da companhia, Guilherme Benchimol, subiu o tom em publicação em sua conta no Linkedin. “Tenho uma certeza: se tem algo que o banco não é, nem nunca foi, é ser feito para você”, em clara alusão ao famoso slogan do Itaú.

“A campanha do Itaú só reforça que estamos no caminho certo. Para o maior banco do País, com mais de 90 anos de tradição, ir a público e ofender uma profissão tão fundamental para o desenvolvimento financeiro dos brasileiros, é porque realmente percebeu que não consegue mais competir colocando o cliente em primeiro lugar”. O mesmo comunicado foi compartilhado pela sua conta do

Instagram

Os agentes autônomos também se voltaram contra a propaganda, que se tornou o assunto mais comentado no Twitter no Brasil. A Associação Brasileira dos Agentes Autônomos de Investimentos (ABAAI) publicou uma nota repudiando o posicionamento do Itaú em relação à categoria.

“A ABAAI defende a transparência nas informações aos seus investidores e respeita todas as atividades profissionais que se relacionam com eles, sejam estes assessores, consultores, planejadores ou especialistas do Itaú Personnalité, que não necessita ser pejorativo com nenhuma delas, para demonstrar seus valores e suas capacitações”, disse a associação, em comunicado.

Resposta

O incômodo dos AAIs fez o Itaú se pronunciar. Em nota, disse que a campanha do Itaú Personnalité “tem como objetivo ressaltar seus atributos positivos, como a plataforma aberta de produtos financeiros e o modelo de incentivos que tem como foco uma visão de longo prazo, além dos resultados e satisfação para o cliente”. Ressaltou, ainda, acreditar que ética independe de modelo e há bons profissionais em todas as configurações, seja um agente autônomo ou um gerente de banco.

Também por meio de sua conta no Linkedin, o diretor-executivo de Wealth Management do Itaú Unibanco, Carlos Constantini, disse que, por se tratar de um mercado muito disputado, “era de se esperar” uma forte reação à campanha. “Não há nenhum problema em sermos criticados, pois entendemos que diálogo é fundamental, sobretudo em uma sociedade aberta e plural como a que vivemos hoje. Um ponto importante a esclarecer é que, em momento algum, nossa campanha questiona ou desmerece os agentes autônomos de corretoras independentes. Ao contrário, sabemos da sua importância e expertise em um mercado complexo e em franca expansão. Temos trazido muitos deles para integrar o nosso time aqui no banco”, disse.

Quando comprou uma participação da XP em 2016, o Itaú pagou R$ 6,3 bilhões por 49,9% da corretora, avaliando-a, assim, em R$ 12 bilhões. Hoje a XP possui um valor de mercado de R$ 130 bilhões, se tornando, em termos financeiros, um dos melhores investimentos da história do Itaú.

Após o IPO, a participação do Itaú foi um pouco diluída e está hoje em cerca de 46%. Na B3, o valor de mercado do Itaú é de um pouco mais de R$ 240 bilhões.

Se a XP foi um bom investimento para o Itaú, o negócio acaba de colocar Benchimol na lista dos 20 brasileiros mais ricos, de acordo com a revista norte-americana Forbes.

Pelo contrato fechado na época, o Itaú pode, a partir de 2022, aumentar sua participação na XP, operação que precisará, se concretizada, receber novamente o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Nos bastidores, comenta-se que, dada a concentração que vem se observando nos últimos anos nesse mercado, o órgão antitruste deve barrar um aumento da participação do Itaú.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.