Campeão de juros

Ao manter a Selic em 14,25% ao ano, o Brasil detém os juros básicos nominais mais elevados entre os maiores mercados emergentes

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2016 | 19h42

Ao manter a Selic em 14,25% ao ano, o Brasil detém os juros básicos nominais mais elevados entre os maiores mercados emergentes e uma taxa real cada vez mais salgada, levando-se em conta que a projeção de inflação para 2017 caiu de 6% no início de abril para 5,30%, conforme a mais recente pesquisa Focus, do Banco Central. Na Rússia, os juros básicos estão em 10,5%, enquanto que na Colômbia e na Turquia, a taxa é de 7,5%. E, na África do Sul, de 7%.

Todavia, os analistas dizem que as condições globais estão as mais propícias em quase dois anos para os bancos centrais emergentes embarcarem, no curto prazo, num ciclo de forte afrouxamento monetário, à exceção do México (que briga contra a desvalorização do peso) e da Colômbia (que está em firme combate à inflação).

Primeiro, espera-se que os BCs de países desenvolvidos, em particular o da Inglaterra, o do Japão e o da zona do euro, adotem estímulos, via injeção de recursos ou corte de juros. Mais ainda: que o Federal Reserve (Fed) demore mais tempo para elevar os juros americanos e que o aperto monetário seja mais gradual do que o inicialmente imaginado. No início do ano, apostava-se em quatro altas de juros pelo Fed neste ano. Agora, o cenário mais agressivo é de uma única elevação, se muito. Ou seja, a postura monetária acomodatícia - leia-se juro negativo ou próximo de zero - nos países ricos vai perdurar por muito mais tempo, levando os investidores internacionais a migrarem seus recursos em busca de taxas de retorno mais vantajosas, beneficiando os países com juros elevados, mesmo que em patamares mais baixos do que os atuais.

Segundo, a inflação na maioria dos países emergentes está bem mais comportada do que há um ou dois anos. Na semana passada, a Malásia, por exemplo, cortou os juros básicos pela primeira vez desde 2009 ao revisar para baixo a sua projeção de inflação para este ano. No Peru, o índice de preços ao consumidor caiu para 3,34% em junho, depois de ter começado 2016 em 4,61%. Na Rússia, a inflação anual desacelerou de 9,8%, em janeiro deste ano, para 7,5% em junho. E no Brasil, o IPCA acumulado em 12 meses caiu de 10,71% em janeiro para 8,84% em junho.

Câmbio. Terceiro, com a perda de fôlego na valorização do dólar frente às principais moedas internacionais, boa parte dos países emergentes vem conseguindo reduzir o déficit em conta corrente nos últimos meses, o que dá mais espaços para os bancos centrais cortarem os juros básicos sem correrem o risco de uma pressão adicional sobre suas moedas. No início deste ano, os analistas consultados pela Focus projetavam o déficit de conta corrente do Brasil de US$ 38 bilhões em 2016. Nesta semana, essa projeção caiu para um déficit de US$ 15 bilhões.

Por fim, sem uma tendência de dólar forte e com a relativa melhora e estabilização nos preços de várias commodities, em particular do petróleo, os países emergentes que não começarem a cortar os juros básicos na segunda metade deste ano serão exceção e não a regra. Desde o início de 2016, 33 bancos centrais ao redor do globo já reduziram os juros básicos, enquanto apenas 17 subiram as taxas. Mesmo o México e a Colômbia, exceções no ciclo monetário nos mercados emergentes, não devem promover mais do que duas elevações adicionais dos juros.

No Brasil, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, estreou mudando o formato do comunicado que acompanha a decisão do Copom, tornando-o parecido, no tamanho e no conteúdo, com o que é divulgado pelo Fed americano após as decisões de política monetária. No balanço de riscos apresentado ontem, o BC dá um recado claro: vai esperar para ver uma convergência da inflação para a meta de 4,5% até o fim do ano que vem. Se o ajuste fiscal vier logo e as expectativas inflacionárias cederem mais, Goldfajn terá espaço para cortar a Selic agressivamente a fim de estimular uma recuperação mais rápida da economia brasileira. 

 

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