Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Campo avança em práticas ecológicas

Agropecuária investe em sustentabilidade não só por causa da agenda climática, mas para se manter viável e ganhar competitividade

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2018 | 04h00

Recentemente, a União Europeia firmou importantes acordos de comércio com o Japão e o Canadá e, neles, as cláusulas ambientais foram determinantes. No próprio acordo UE-Mercosul, há quase duas décadas em negociação entre os blocos, há texto específico sobre “comércio e mudanças climáticas”, no capítulo Comércio e Desenvolvimento Sustentável, em que as partes reafirmam a importância de efetivamente implementar o Acordo de Paris, informou ao Estado o Ministério das Relações Exteriores.

Isso significa que cada vez mais o Brasil não vai ter escapatória, a não ser respeitar exigências ambientais, caso pretenda continuar a ser um dos principais players do comércio global – no que diz respeito à UE, trata-se do segundo principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, atrás só da China.

O Brasil ratificou, com 194 nações, em 2016, o Acordo de Paris, a fim de reduzir as emissões de gases do efeito estufa para evitar o aumento da temperatura da Terra. Em junho de 2017, o presidente americano, Donald Trump, deixou o tratado e em setembro deste ano, antes de ser eleito presidente, o então candidato Jair Bolsonaro mencionou que poderia, caso vencesse, retirar o Brasil do acordo, que, segundo ele, feria “a soberania do País”.

Um caminho sem volta

Representantes do setor agropecuário ouvidos pelo Estado veem com ceticismo um eventual rompimento do Brasil com a agenda climática mundial, principalmente pelo risco de perda de mercados. Mas são taxativos em afirmar que o investimento agroambiental nas propriedades rurais é um caminho sem volta. Não só pela preservação dos recursos naturais, mas também para recuperar áreas degradadas e obter saltos de produtividade, criando condições de permanência na atividade agropecuária.

“Se a variável sustentabilidade sair da produção agropecuária brasileira, dificilmente se obterá sucesso tanto em termos de produção quanto de crescimento de mercado”, confirma o diretor executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Cornacchioni. Ele conta que esteve em Bruxelas no dia 8 deste mês, no evento “Um diálogo sobre alimentos sustentáveis e agricultura: construindo um futuro de baixas emissões”, promovido pela Apex Brasil, e que o interesse europeu sobre o tema foi “determinante”.

Cornacchioni lembrou, ainda, que o agronegócio brasileiro deve alcançar neste ano US$ 100 bilhões em exportações. “Qualquer porcentagem a menos (no caso de perda de mercado por causa de um eventual rompimento de acordo climático) causaria um estrago tremendo.”

“Quero crer que tudo o que foi dito (sobre a possibilidade de o Brasil sair do Acordo de Paris) seja da boca pra fora”, afirmou o sócio diretor da Agroicone, Rodrigo Lima. Em termos de comércio global, ele comenta que o fato de o País participar de agendas ambientais será visto no futuro não só como “um prêmio”. “A vantagem vai ser poder continuar vendendo.” Para ele, sustentabilidade na produção é uma temática que já é exigida globalmente. “Lembrando, ainda, que com a saída dos EUA do acordo climático, a China começou a ocupar uma posição de liderança, já que nos últimos anos o país asiático abraçou a agenda sustentável”, diz Lima. E a China deve importar este ano, só do Brasil, US$ 230 bilhões, entre produtos agropecuários e outros segmentos.

Se o risco comercial existe “da fronteira para fora”, dentro dos limites do País, independentemente de o novo governo romper com as outras 193 nações signatárias do Acordo do Clima, a agenda ambiental é inexorável, diz Lima. Ele lembra, por exemplo, que uma das metas voluntárias do Brasil no Acordo de Paris é recuperar 15 milhões de hectares de pasto. “Nossa pecuária tem baixa produtividade e um dos motivos são as pastagens degradadas”, comenta. “Mas a gente precisa melhorar esses pastos por questão de sobrevivência da própria atividade. E melhorar a produtividade resulta, por tabela, em ganhos econômicos e ambientais”, continua. “Essa recuperação, portanto, não deve ser feita só por causa do Acordo de Paris, que atenderia o ambiente, mas também por questões sociais e econômicas.”

O sócio diretor da Agroicone observa, ainda, que “não consegue enxergar” como o Acordo de Paris poderia atrapalhar o Brasil. Ao contrário. Todas as iniciativas ambientais adotadas nos últimos anos nas propriedades rurais podem servir como diferencial da agricultura brasileira, justamente por ela estar cumprindo as metas as quais o País se propôs. “Deveríamos, aliás, adotar essa narrativa ambiental cada vez com maior expressão lá fora. Por exemplo, o Cadastro Ambiental Rural mostrou o quanto ainda temos de florestas nativas no País e nas propriedades particulares, coisa que os Estados Unidos não têm.”

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