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Campo consegue produzir mais com menos insumos

Aplicação ‘cirúrgica’ de fertilizantes e defensivos agrícolas contribui para economia do produtor e preservação ambiental

Vinicius Galera, Especial para O Estado

22 de novembro de 2019 | 08h57

Nada escapa à agricultora Carla Sanches Rossato, que cultiva soja e milho e cria bois de corte no norte do Paraná. Regularmente, ela faz coletas de solo, com análises química e física, prática que contribui para elevar os índices de produtividade e reduzir o uso de adubos químicos. “Fazemos correções da fertilização do solo em taxas variáveis, de acordo com a necessidade específica de cada área”, comenta a produtora. “Pensamos, antes, no que a cultura vai produzir naquele solo para fazer a reposição exata de nutrientes.” 

 

Para tanto, uma das ferramentas de monitoramento utilizadas por Carla Rossato é o Climate Field View, da Bayer. O responsável pelo sistema no Brasil, Mateus Barrros, diz que o programa oferece uma combinação de hardware e softwares para a administração dos dados das fazendas. Sensores conectam máquinas como semeadoras, pulverizadores e colhedoras, gerando o conceito de internet das coisas (IoT) no campo. Os dados são agregados em mapas e relatórios, que retornam para os produtores tomarem suas decisões. No Brasil 5 milhões de hectares são cobertos pelo sistema da Bayer.

 

Menos defensivos

A tecnologia também está ajudando produtores a aumentar a produtividade e reduzir custos e aplicações de defensivos em Mato Grosso. O agrônomo Maurício Nicocelli Neto atua há dez anos na área de agricultura de precisão e digital. Por meio de sua empresa, a Monagri, ele ensina grupos de produtores a trabalharem com diversas tecnologias. “Venho encorajando o uso de plataformas que fazem todo tipo de monitoramento digital de pragas”, diz Nicocelli Neto.

Basicamente, são aplicativos para celulares ou tablets. As plataformas de monitoramento de pragas acabam servindo também como softwares de gestão que reduzem em cerca de 10% os custos com defensivos que seriam aplicados por temores relacionados à possibilidade de pragas e doenças, sem um diagnóstico preciso.

Com as novas ferramentas, o produtor sai do monitoramento tradicional, da prancheta, e passa a usar um tablet. “A tecnologia dá mais segurança. O ganho maior está na redução do risco de perdas.” Segundo o empresário, uma lavoura sem a avaliação adequada pode perder 30% de produtividade, dependendo das condições de ambiente de cada safra.

O produtor Carlos Ernesto Augustin, que cultiva soja, milho e algodão em quatro fazendas na região de Rondonópolis (MT), faz uso de algumas dessas tecnologias há três anos. Com técnicas variadas, como o uso de mapas, controle da velocidade e da população de plantas, entre outras, ele diz que consegue reduzir em até 15% a aplicação de defensivos.

O controle de alguns fatores como a velocidade de aplicação e a temperatura dos pulverizadores pode ser determinante na boa ou má aplicação. “Com a consultoria, consigo ter uma assistência de treinamento para os próprios funcionários saberem onde estão as irregularidades nas aplicações mais variadas.” Com o auxílio do GPS, os softwares ajudam as máquinas a reconhecer as áreas onde há necessidade de novas aplicações ou impedem o repasse nas áreas já pulverizadas. 

 

Tema relevante

A indústria de defensivos reconhece a importância do impacto ambiental dos agrotóxicos sobre o meio ambiente. “Esse é um tema considerado de bastante relevância para toda a indústria”, diz Eduardo Leduc, membro do conselho da recém-fundada CropLife Brasil. A nova associação reúne diversos segmentos que trabalham com pesquisa, desenvolvimento e inovação nas áreas de germoplasma, biotecnologia, defensivos químicos e produtos biológicos. 

Mas Leduc diz que, na indústria de inovação de defensivos, os critérios de impacto ambiental foram ficando cada vez mais rigorosos nos últimos anos. “Os produtos lançados nos últimos anos têm um impacto ambiental menor do que os mais antigos.” Segundo o executivo, isso vai de encontro à expectativa da sociedade, que demanda produtos cada vez mais amigáveis ambientalmente. Entre 2012 e 2015, de acordo com um estudo da Unesp de Jaboticabal, o coeficiente do impacto ambiental de todos os defensivos agrícolas usados no Brasil foi reduzido em 34%. 

O coeficiente é o índice mais moderno aceito internacionalmente para avaliar o risco que os produtos oferecem ao aplicador, ao consumidor e ao meio ambiente. “O Brasil aumentou a produção e o impacto ambiental caiu em 34% para o meio ambiente enquanto para o aplicador a redução foi de 52%”, diz. “Estamos usando mais produtos, aumentando a área plantada e a produção e diminuindo fortemente os impactos. Isso é um exemplo para o mundo.”

Sem veneno

Um dos meios mais sustentáveis no combate a pragas e doenças nas plantações é o controle biológico, que vive franca expansão no Brasil. Hoje este mercado apresenta taxas de crescimento de até 18% ao ano no Brasil, que já é o terceiro maior mercado do mundo, ficando atrás apenas de Estados Unidos e Europa. Mas, diferentemente deles, no Brasil o crescimento se dá nas grandes culturas.

“É a tropicalização dos biológicos”, diz a diretora executiva da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), Amália Borsari, que também está formando a CropLife Brasil. Ela explica que o mercado vem dobrando de forma consistente a cada quatro ou cinco anos. “O desafio das indústrias”, diz Amália, “é o de multiplicar a produção em grande escala e verificar como esse produto vai se manter ativo nas mais variadas situações”.

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