Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Interior da Inglaterra vira ‘cemitério’ de táxis londrinos

Depois de dar de cara com as ruas desertas durante a pandemia, centenas de taxistas estão entregando os tradicionais carros pretos

Mark Landler, The New York Times

06 de dezembro de 2020 | 05h00

EPPING, INGLATERRA - Dirija por uma floresta repleta de folhas e passe por um charmoso mercado de rua nesta cidade cerca de 32 quilômetros a nordeste de Londres e uma visão chocante surgirá: táxis pretos da capital, estacionados às centenas em um campo lamacento, cercado por colmeias e um celeiro para a criação de pombos.

É um monumento à devastação econômica causada pela pandemia, pronto para ser fotografado. Os táxis foram devolvidos por seus motoristas a uma locadora por causa do colapso dos negócios depois que a Grã-Bretanha entrou em lockdown em março. À medida que o número de táxis parados se acumulava, a empresa ficou sem espaço em sua garagem e fez um acordo com um fazendeiro local para armazenar cerca de 200 deles ao lado de suas abelhas e pombos.

“Eu o chamo de campo dos sonhos interrompidos”, disse Steve McNamara, secretário-geral da Associação de Motoristas de Táxis Licenciados, que representa cerca de metade dos mais de 21,5 mil taxistas licenciados da capital britânica. “É horrível e está piorando.”

Na quarta-feira, a Inglaterra saiu de um segundo bloqueio total, mas restrições severas permanecem em vigor e ninguém sabe quando as ruas desertas do centro de Londres estarão repletas outra vez de funcionários de escritórios, frequentadores de teatro e turistas.

Por enquanto, apenas um quinto dos táxis de Londres estão operando atualmente, disse McNamara, e os motoristas que seguem trabalhando estão conseguindo em média apenas um quarto de suas receitas antes da pandemia. A cidade estima que 3,5 mil táxis deixaram as ruas desde junho. Eles estão guardados em estacionamentos, depósitos, garagens e terrenos em toda a capital.

Para McNamara, que ganhou suas cicatrizes enquanto lutava pelos motoristas de táxi contra a concorrência do Uber e outros serviços de transporte por aplicativo, a pandemia é uma ameaça existencial ainda maior. A menos que o governo ofereça mais ajuda financeira, disse ele, Londres pode perder um de seus símbolos mais conhecidos – aquele que se iguala, no vocabulário turístico, aos ônibus vermelhos de dois andares, às cabines telefônicas e aos policiais em seus capacetes característicos.

“Os ônibus não são mais vermelhos, as cabines telefônicas se foram e os policiais agora estão sentados em BMWs com metralhadoras”, disse McNamara, desenrolando uma linha de raciocínio que, sem dúvida, já usou antes. “Somos o único ícone de Londres que resta, e eu realmente temo que não estejamos mais pelas ruas em três anos.”

Para alguns que assistiram à guerra entre os táxis pretos e o Uber, os taxistas nem sempre foram as figuras mais simpáticas. Por um lado, seus serviços eram, e ainda são, mais caros. Predominantemente brancos, homens e ingleses, os taxistas apresentam uma visão obsoleta da Grã-Bretanha, ao lado de imigrantes etnicamente diversificados e outros trabalhadores esforçados que se sentam ao volante e colocam um adesivo do Uber no para-brisas de seus carros.

Com o atendimento ao cliente do Uber e problemas de imagem, no entanto, as linhas de batalha não são mais tão claras. Além disso, disse McNamara, os táxis aprimoraram seu serviço com um software que permite o pagamento pelo celular e aplicativos semelhantes ao do Uber que possibilitam que as pessoas chamem um táxi e veículos elétricos ecologicamente corretos. Se a pandemia não tivesse ocorrido, disse ele, 85% a 90% da frota teria se tornado elétrica até o fim de 2024.

Fique em casa. Não há dúvida de que os lockdowns da Grã-Bretanha devastaram o comércio. Ryan Spedding, que dirige um táxi há quase nove anos, lembra vividamente quando o primeiro-ministro Boris Johnson foi à televisão em março para declarar: “A partir desta noite, devo dar ao povo britânico uma instrução muito simples: você deve ficar em casa”.

No dia seguinte, Spedding, 44 anos, dirigiu seu táxi Mercedes até Londres para dar de cara com uma cidade fantasma, com pubs e lojas de luzes apagadas, torres de escritórios desertas e estações de trem vazias. Os espaços que normalmente estavam repletos de gente, como Piccadilly Circus e Leicester Square, precisavam apenas de um pedaço de mato sendo embalado pelo vento para completar o retrato da desolação urbana.

“Você podia dirigir por duas ou três horas e não ver uma pessoa na rua”, disse ele. “Você vai de um dia indo bem para algo saído de Extermínio”, disse ele, referindo-se ao filme de Danny Boyle sobre um vírus mortal que transforma Londres em uma misteriosa paisagem pós-apocalíptica.

Spedding paga 280 libras, cerca de US$ 375, por semana para alugar seu táxi. Nesse ritmo, ele não viu outra opção a não ser devolver o carro à locadora, a GB Taxi Services. Como trabalhador independente, Spedding era elegível para um auxílio estatal que o compensou por cerca de dois terços do seu rendimento médio.

Para motoristas como Jim Ward, que possuem seus carros, a escassez é mais suportável. Ele disse que está pegando cerca de quatro passageiros por dia, ganhando em média 60 libras, cerca de US$ 80, em comparação com cerca de 150 libras durante os bons tempos.

Mas ele comprou seu táxi, o conhecido modelo quadradão feito pela London Taxi Co. – desde então rebatizada de London Electric Vehicle Co. – de segunda mão anos atrás, e suas despesas são modestas.

Desde janeiro de 2018, todos os táxis recém-licenciados em Londres devem ser elétricos. Um novo modelo elétrico custa aproximadamente 65 mil libras, cerca de US$ 87 mil. Muitos motoristas financiam a compra, o que os sobrecarrega com pesados pagamentos mensais.

“Os jovens, que estão fazendo isso com financiamento, não podem arcar com os custos”, disse Ward em relação à compensação durante a pandemia.

Ward, que tem 67 anos e é taxista há 46 anos, observa que a profissão tem sido exercida nas ruas de Londres desde que Oliver Cromwell licenciou motoristas de carruagem de aluguel no século 17 para reduzir os roubos. É um exemplo das charmosas histórias de ouro que parecem continuar sendo contadas espontânea e abundantemente pelos motoristas de táxi preto.

Enquanto eles ficam parados em estações de trem sonolentas ou em frente a hotéis vazios, os taxistas contam histórias de terror: um deles esperou 22 horas e meia até conseguir um passageiro no Aeroporto de Heathrow. E brincam de um jogo triste do que poderia ter sido. Howard Taylor, que tem 60 anos e é taxista há 33, cogitou vender seu táxi comprado há três anos antes de a pandemia começar. Agora, ele imagina, perderia pelo menos um terço de seu valor.

“Você teria de ser um tolo para comprá-lo”, disse ele, “porque agora, dirigir um táxi não é uma proposta viável”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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