Campos Lindos é fruto da megalomania do governador

Cidade que homenageia Siqueira Campos no nome depende exclusivamente dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios

CAMPOS LINDOS (TO), O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h04

O município de Campos Lindos, a quase quinhentos quilômetros de Palmas, nasceu da visão megalomaníaca e da astúcia política do governador Siqueira Campos. Nos anos 1990, ele desapropriou em Goiatins uma área dez vezes maior que o território do município da cidade de São Paulo e distribuiu entre empresários que financiavam suas campanhas e até amigos do Congresso.

Em pouco tempo, os especuladores que não entendiam do ramo venderam os lotes para produtores de soja do Rio Grande do Sul e empresas multinacionais. Hoje a "Siqueilândia" é responsável por maior parte da safra recorde de 2,6 milhões de toneladas de grãos que Tocantins espera colher neste ano.

A poucos quilômetros do polo de produção, Siqueira planejou uma cidade para abrigar a sede do novo município, desmembrado de Goiatins. A cidade foi batizada com o sobrenome do governador - "Campos" Lindos - e avenidas com mais de 50 metros de largura e amplas áreas verdes. É uma Brasília que não saiu dos alicerces. A imagem de uma grande aldeia indígena formada por palhoças prevalece diante de qualquer tentativa urbanística.

A melancolia convive com o movimento frenético das carretas que transportam soja. A modernidade não chegou às casas. Em Campos Lindos, 55,2% das famílias são pobres ou indigentes. A cada mil crianças de até cinco anos, 29 morrem.

Hoje, a cidade de dez mil moradores depende exclusivamente dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e de serviços oferecidos aos caminhoneiros das carretas. Campos Lindos e outros produtores de soja servem como cidades dormitório. A prefeitura afirma que não recebe compensações pelas perdas de tributos estabelecidas pela Lei Kandir, que desonerou as exportações. "O problema aqui é tributário", diz o secretário municipal de Saúde, Eliakim Ferreira Mendonça.

Na cidade, só um médico atende os moradores. Campos Lindos gasta R$ 160 mil por mês em saúde, diz o secretário. A Unidade Básica de Saúde do município não faz operações e partos. Para agravar a situação, o vizinho é o Maranhão, da família Sarney. Uma parcela significativa das pessoas que procuram o posto médico vem das cidades maranhenses do outro lado do rio Manoel Alves.

O que não pode falhar em Campos Lindos é a ambulância da prefeitura, que leva os pacientes em estado grave para cidades maiores. / L.N.

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