Adriano Machado/ Reuters
Adriano Machado/ Reuters

Campos Neto: ‘Com mais juros e menos crescimento, entramos numa trajetória fiscal pior’

Presidente do Banco Central disse em palestra diz que mercado se questiona sobre o potencial de crescimento da economia brasileira

Célia Froufe e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2022 | 19h00

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, admitiu nesta segunda-feira, 21, que o aperto monetário iniciado no ano passado junto com a expectativa de menor crescimento econômico fará com que o Brasil entre em uma "trajetória fiscal pior", com efeito negativo nas contas públicas. "A questão fiscal não foi só inflação, como alguns apregoam, mas também não foi só estrutural. Foi um misto", enfatizou durante palestra promovida pelo Canal Agro+.

Campos Neto fez a observação comentando que houve uma surpresa positiva na área fiscal no fim de 2021, e que boa parte disso se deu também ao aumento da arrecadação, salientando que houve um aumento do comércio eletrônico no País nos últimos tempos e que esse segmento é um dos que têm mais eficiência em captar receitas.

De qualquer forma, Campos Neto disse que o custo do risco fiscal do País continua elevado e aparece nos juros. "O que está sendo mais questionado é sobre o tipo de crescimento estrutural que o Brasil vai ter", disse, repetindo que, depois do auge da crise gerada pela pandemia, a retomada do País aconteceu em forma de 'V'. "As projeções de crescimento estrutural têm caído, estamos em 1,5%", acrescentou.

O presidente do BC enfatizou ainda que o crescimento estrutural alto é o ponto que mais traz investimentos aos países. "O dinheiro global procura países com crescimento estrutural alto e fiscal comportado", afirmou.

Inflação no Brasil ainda é crescente

O presidente do Banco Central voltou a dizer também que a tendência de inflação no Brasil é crescente. Na semana passada, ele já havia afirmado que o pico de alta dos preços deve ser registrado em abril e maio no País.

De acordo com Campos Neto, a inflação no Brasil está “em linha com a dos pares", mas que mesmo assim é uma das mais altas do mundo. Um dos principais motivos, de acordo com ele, é a alta dos preços do setor de eletricidade. “O Brasil teve a maior inflação de energia do mundo em 2021”, afirmou.

Campos Neto falou sobre um exercício feito pela autoridade monetária em relação ao tema. Se a inflação de energia no Brasil no ano passado fosse a média das taxas vistas em outros países, a inflação total doméstica também seria a média vista nesses pares. “É uma simplificação, mas houve pressão energética de vários lados”, disse, citando o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional e a crise hídrica doméstica

Segundo ele, se esperava que, depois da crise da covid-19, haveria um crescimento do consumo de bens e serviços e bens, incentivados pelos estímulos injetados na economia pelos governos. “Esta é a narrativa que temos adotado por entendermos ser a mais apropriada, mas isso não aconteceu”, afirmou. “Mas a recuperação rápida de serviços não ocorreu como esperado.”

Campos Neto salientou que houve uma coordenação grande e nunca vista antes não apenas dos governos como de ações simultâneas de política monetária e fiscal. Ele disse que a inflação começou a subir no mundo e os banqueiros centrais acreditavam que seria um movimento transitório. 

“O Banco Central brasileiro teve diagnóstico relativamente rápido e certeiro”, defendeu. O BC brasileiro foi um dos primeiros a iniciar a tendência de aperto monetário.

O presidente do BC destacou que o que se percebe agora é que não houve quebra de oferta, como se imaginava durante a crise, mas um deslocamento da demanda.

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