Adriano Machado/Reuters - 9/2/2021
Adriano Machado/Reuters - 9/2/2021

Campos Neto: Mercado passou a ser menos receoso da passagem de um governo para outro

Presidente do Banco Central, no entanto, disse que 'muitas coisas vão acontecer ao longo do ano eleitoral' e que a autarquia está preparada para um eventual cenário de volatilidade no mercado

Mateus Fagundes e Guilherme Bianchini, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 00h58

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avaliou que o mercado financeiro no Brasil passou a ser menos receoso em caso de mudança de governo como resultado da eleição de outubro. A declaração foi dada ao programa GloboNews Míriam Leitão, gravado na tarde desta segunda-feira, 14, e exibido no fim da noite.

O comentário foi feito em resposta a uma pergunta da jornalista sobre o favoritismo do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida eleitoral para o Planalto.

"Nos preços de mercado, o que tem acontecido mais recentemente é uma eliminação de vários preços que mostram o risco da passagem de um governo para outro. Mais recentemente, a gente vê, quando olha esses preços, que eles atenuaram. Caíram um pouco. Significa que o mercado passou a ser menos receoso da passagem de um governo para o outro", afirmou.

"Isso é o que a gente pode interpretar. Porque provavelmente um governo que representava um risco de cauda de medidas mais extremas está se movendo para o centro. Essa é a nossa interpretação do que a gente captura nos preços de mercado", destacou.

Campos Neto ponderou, contudo, que "muitas coisas vão acontecer ao longo do ano eleitoral" e que a autarquia está preparada para um eventual cenário de volatilidade nos ativos brasileiros em razão desse processo. "Faz parte do BC discutir isso", disse. O presidente do BC comentou ainda que, a despeito das incertezas eleitorais, há recursos estrangeiros entrando no Brasil e que, por isso, o real tem hoje a melhor performance no cômputo em 12 meses.

Porém, sobre o tema, Campos Neto destacou a importância de deixar o Brasil mais atraente aos investidores."A pergunta que precisa ser respondida é como fazer o Brasil voltar a crescer estruturalmente. O crescimento vem de investimento, que está ligado à própria percepção do crescimento", analisa. "O País precisa de um programa que convença investidores de que vai levar o Brasil de volta ao crescimento. Esse é o fator fundamental, e é isso que está por trás da ansiedade em relação ao equilíbrio fiscal de longo prazo."

Segundo o presidente do BC, os investidores esperavam, no passado, que o crescimento estrutural do Brasil seria muito maior do que é hoje. "Curiosamente, lá atrás, parte das razões identificadas como detratoras do crescimento tem sido endereçadas nos últimos anos, como Pprevidência, volume de crédito subsidiado, reforma trabalhista e parte muito importante do saneamento."

Ao comentar sobre a autonomia do BC, Campos Neto reforçou que foi um ganho da atual gestão do País que perdurará pelos próximos governos. "O Banco Central ganhou a posição de autonomia exatamente para ter independência entre o ciclo político e os ciclos de política monetária. Não cabe fazer comentários sobre o que seria cada candidato [à Presidência]", afirmou. "É importante reconhecer que foi feito ganho institucional neste governo." Ele afirmou também que ficará até o fim do mandato de presidente, que vai até 31 de dezembro de 2024.

Inflação

A previsão do Banco Central de pico da inflação em 12 meses entre abril e maio já leva em consideração a alta recente no preço do petróleo, disse Campos Neto. “Na virada do ano, houve o entendimento de que os preços [do petróleo] iam acomodar, com maior produção da Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados]. Logo após, viu-se que, mesmo com a produção extra da Opep, o preço ainda ia ficar pressionado”, afirmou Campos Neto. “Adicionalmente a isso veio essa tensão [na Ucrânia], que começou impactando o mercado de gás. Entendemos que isso vai fazer com que preço do petróleo tenha mais dificuldade de voltar a um patamar mais baixo mais rápido.”

Somado ao crescimento mais rápido no preço do petróleo na virada do ano, segundo Campos Neto, veio a quebra de safra mais expressiva no Brasil, que também impactou o cenário. Como fatores de risco para a projeção de pico inflacionário entre abril e maio, o presidente do BC cita uma eventual extensão da bandeira tarifária “escassez hídrica” de energia elétrica. “Mas nosso cenário, hoje, ainda é de pico da inflação em 12 meses entre abril e maio, e depois começa uma trajetória de queda”, disse Campos Neto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.