Campus Party debate futuro da internet

No primeiro dia do evento de tecnologia, Tim Berners-Lee e Al Gore defenderam o aprimoramento da democracia no acesso à rede mundial

Rafael Cabral, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

No primeiro dia da Campus Party, em São Paulo, o evento mais aguardado da programação era a conversa entre Tim Berners-Lee, o pai da World Wide Web, e o ex-presidente americano Al Gore. Mas, antes que os dois tomassem o palco da Arena do Centro de Exposições Imigrantes, as conversas eram dominadas por queixas às longas filas que os campuseiros - aqueles que pagaram para participar das palestras - enfrentaram.

Berners-Lee abriu a conversa dizendo que, quando pensou em criar a World Wide Web - ele era, na época, empregado da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) -, imaginava a futura rede como um espaço aberto e de colaboração contínua, mas disse que não poderia prever a proporção que ela tomaria quando a maior parte da população estivesse conectada. A plataforma pensada por ele - já potencialmente transformadora desde a ideia de descentralização - se tornou revolucionária apenas quando as pessoas começaram a usá-la para criar mais e mais inovação. Quando nasceu, a rede parecia impressionante por si só, mas era só o começo.

"A coisa mais interessante sobre a web é que ela se tornou a base para milhares de outras invenções tão importantes quanto ela. Várias tendências interessantes estão sendo lançadas agora, como o HTML 5 (que não é apenas uma linguagem nova para criar sites), ou a mobilidade, que levou a web até gente que não conseguia comprar um computador. Vemos indivíduos trabalhando sozinhos e outros colaborando com pessoas que conheceram na rede. As pessoas não param de criar coisas na internet", disse.

Novo passo. Para ele, o próximo passo na evolução da internet é o aprimoramento dos sistemas democráticos. Entusiasta da liberação de dados de governos e criador do site Data.gov.uk (em parceria com o governo britânico), Berners-Lee acredita que a transparência através dos meios digitais pode ajudar a melhorar a governança dos países abertos.

"Os dados produzidos pelo governo, pagos por impostos, devem ser abertos. Isso possibilita que as pessoas peguem os dados brutos e conectem os pontos de uma maneira nova, criando novos sentidos para entendermos melhor como o mundo funciona. Tudo tende a funcionar melhor dessa maneira", argumenta.

O ex-vice-presidente dos EUA e ecologista Al Gore, que dividia o palco com ele, concordou e foi bastante aplaudido. Também apresentado como um dos vários "pais da internet", Gore pode não ter parte no lado técnico da rede, mas foi um dos mais importantes apoios políticos para a sua disseminação e consolidação nos Estados Unidos.

"Podemos construir uma verdadeira democracia, com mercados que de fato são abertos. A internet deve ser usada pelas pessoas para que o governo funcione como deveria. O governo não é eficiente porque ainda não se adaptou às possibilidades da internet e da web, e os cidadãos podem levar a essa revolução", disse, para depois soltar um slogan que o fez ser ainda mais aplaudido pela plateia: "Defenda a internet, não a deixe ser controlada por governos ou grandes corporações! É uma rede de pessoas!", bradou.

A empolgação de ambos cessou, no entanto, quando o mediador do debate, o editor da revista Wired inglesa, Ben Hammersley, fez uma pergunta um pouco mais difícil: o polêmico site WikiLeaks também se insere nesse contexto de democratização e transparência? Tanto Gore quanto Berners-Lee deram voltas e voltas argumentativas, mas não responderam à pergunta. Dados privados são outra história, disseram.

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