Canavial faz 13ª vítima em Guariba

O cortador de cana Antonio Ribeiro Lopes, de 55 anos, morreu na quarta-feira à noite depois de passar mal em um canavial da Usina Moreno, município de Luís Antonio, na zona canavieira de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A morte, a 13ª relacionada às precárias condições de trabalho dos migrantes, desde o ano passado, em canaviais paulistas, causou revolta e desencadeou a paralisação dos cortadores da Usina Bonfim, em Guariba, na manhã de ontem. Cerca de 250 trabalhadores, trazidos de outros Estados para o corte da cana, bloquearam a estrada de acesso aos alojamentos, impedindo a saída dos ônibus. Eles exigiam o acerto de contas e retorno imediato para as regiões de origem. "Do jeito que somos tratados, isso não vai parar", protestou o cortador Sidnei Oliveira. O corpo do trabalhador chegou de manhã para ser velado em Guariba e foi sepultado ontem à tarde no cemitério local. Dezenas de bóias-frias interromperam o trabalho para ir ao sepultamento. No atestado de óbito, constou que a morte foi causada por edema e hemorragia pulmonar. Familiares confirmaram que o morto sofria do mal de Chagas. Lopes era de Berilo (MG), mas morava na cidade paulista havia mais de 15 anos. Ele cortava cana quando passou mal, pediu para descansar e, ao retornar ao trabalho, caiu na plantação. O cortador morreu na ambulância, a caminho do hospital. A usina assumiu as despesas do sepultamento. Foi o segundo cortador de cana de Guariba a sucumbir nos canaviais. Em julho, tinha morrido Valdecy de Paula Lima, de 34 anos, que viera com a família do Maranhão. A maioria dos óbitos, entre eles o de uma mulher, ocorreu na região. As mortes estão sendo investigadas por 13 órgãos públicos e entidades civis. Hoje, a pedido do procurador federal do trabalho da 15ª Região, Aparício Querino Salomão, deve ser exumado em Araçuaí (MG) o cadáver do cortador José Mário Alves Gomes, de 45 anos, morto em 21 de outubro num canavial da usina Santa Helena, do Grupo Cosan, na região de Piracicaba. A suspeita de que os trabalhadores estejam morrendo por excesso de trabalho despertou a atenção da Organização das Nações Unidas. Duas missões de observadores da ONU estiveram na região para verificar as condições de vida dos canavieiros. Os grevistas da Usina Bonfim reclamam que elas são bastante precárias. Segundo Oliveira, a empresa deveria ter liberado os safristas há mais de uma semana. "Não fizeram o acerto para nos segurar aqui." Ele disse que os cortadores, alojados há oito meses no meio dos canaviais, tiveram a assistência médica cortada e não recebem alimentação adequada. Ontem, depois de quatro horas de negociação, a usina concordou em liberar os cortadores neste fim de semana. O presidente do Sindicato dos Empregados Rurais de Guariba, Wilson Rodrigues da Silva, foi até o local para mediar as negociações entre a empresa e os cortadores. Segundo ele, a usina pertencia à empresa Corona e foi adquirida, há cerca de um mês pelo Grupo Cosan. Porém, o Grupo Cosan esclarece que não assumiu o controle nem participa da administração da Usina Bonfim em Guariba. Segundo a assessoria de imprensa, apenas um dos acionistas do grupo participa, indiretamente, do corpo acionário da usina, que continua pertencendo ao Grupo Corona. O representante da usina, Waldemar Baccaro Júnior, negou as más condições de trabalho e de alimentação. Segundo ele, os cortadores assinaram contrato até o fim da colheita, que ainda não terminou. As condições de higiene dos alojamentos seriam de responsabilidade dos próprios alojados. Porém, a atuação de ´gatos´ na intermediação da mão-de-obra agrava as condições de trabalho dos migrantes. Num dia marcado pelo velório do trabalhador e pela greve, um acidente por pouco não aumenta a tragédia. Um ônibus que levava 40 trabalhadores para o canavial tombou e três cortadores ficaram feridos, um deles em estado grave. O sindicato quer apurar se o veículo estava em condições de tráfego. Região já foi palco de revolta Em 15 de maio de 1984 cerca de 5 mil cortadores de cana e colhedores de laranja do interior paulista entraram em greve por melhores salários e condições de trabalho. Os trabalhadores rurais levantaram-se contra as péssimas condições a que eram submetidos, em regime de semi-escravidão.O estopim foi a alteração do sistema de colheita da cana, que passou de cinco para sete ruas, o que tornaria ainda mais penosa a lida diária. Além disso, os trabalhadores reclamavam dos altos juros cobrados nas compras a crédito feitas no supermercado da cidade, das tarifas elevadas cobradas pela Sabesp, que fornecia água somente em alguns períodos do dia, e das condições dos alojamentos e do transporte. Com essa situação, os bóias-frias chegavam sempre no fim do mês devendo ao supermercado e à Sabesp, já que o que recebiam era insuficiente. Revoltados, os grevistas invadem no dia seguinte as cidades de Guariba e Bebedouro. Atacam o supermercado em Guariba e quebram o prédio da Sabesp. Um canavial é incendiado. O movimento é reprimido por 300 soldados da Polícia Militar. No conflito, um trabalhador rural é atingido com uma bala na cabeça e morre; 40 pessoas ficam feridas. Parte das reivindicações dos bóias-frias é atendida, entre as quais a que pedia a volta do sistema de cinco ruas na colheita. O acordo de Jaboticabal, assinado em 17 de maio de 1984, é estendido a todos os municípios da região. Após a revolta de Guariba, greves de trabalhadores rurais espalharam-se por várias regiões do País, principalmente entre os cortadores de cana do Nordeste.

Agencia Estado,

25 Novembro 2005 | 03h14

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