Câncer: o desafio do SUS no século 21

Apesar dos avanços, recursos são insuficientes, não há em todo País estrutura de tratamento e faltam profissionais capacitados

Paulo M. Hoff*, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2016 | 11h14

Uma das grandes missões da sociedade brasileira no século 21 será a de como garantir um tratamento de saúde realmente digno e eficiente a todos. Quando o assunto é câncer, esse desafio tem uma relevância ainda maior. No mundo, quase 15 milhões de pessoas serão diagnosticadas este ano e mais de 8 milhões morrerão em decorrência da doença. Considerando apenas o Brasil, ao redor de 600 mil casos serão identificados no próximo ano, e a tendência é de aumento nesses dados.

Podemos identificar muitas razões para isso. A população envelhece rapidamente, paramos de morrer por doenças infecto-parasitárias, e começamos a controlar mais e melhor as doenças cardiovasculares. O estilo de vida mudou com a urbanização dos últimos 50 anos, levando a alterações nem sempre saudáveis na alimentação e nos níveis de atividade física. A obesidade também é um problema e avança como causa potencialmente evitável de câncer, sem esquecermos ainda dos tumores associados a excesso de exposição ao sol, cada vez mais comuns. 

Tumores causados por vírus encontraram terreno fértil em uma sociedade mais tolerante em relação a condutas que facilitam sua disseminação, além do tabaco, que continua sendo a principal causa de mortes por câncer. Os médicos passaram a ter instrumentos muito mais sensíveis para o diagnóstico e casos previamente não diagnosticados passam a engrossar as estatísticas. 

A medicina contra-ataca utilizando-se da pesquisa e da proliferação de informação pelo ensino. O diagnóstico está mais acurado e incorpora tecnologias como a biópsia líquida e testes de imagem funcional. A cirurgia está cada vez melhor e menos invasiva, e conta com auxílio robótico em muitas situações. A radioterapia torna-se mais segura e eficiente. A quimioterapia tradicional abre espaço ao tratamento molecular, dirigido contra alvos presentes apenas nas células tumorais, diminuindo efeitos colaterais e melhorando as chances de cura. Mesmo pacientes com tumores muito avançados já podem ter esperança de que os tratamentos modernos lhes trarão uma vida mais longa e com melhor qualidade.

A imprensa tem sido generosa ao noticiar esses avanços. Pessoas ilustres colaboraram expondo suas lutas contra esse mal, reduzindo o tabu em relação ao diagnóstico e mostrando que, em muitos casos, a cura é possível sim. Cada vez mais vemos os pacientes enfrentando a doença com esperança e cabeça erguida. Mas esses avanços trouxeram novos desafios ao SUS, incluindo a necessidade de educação e capacitação de pessoal para utilização adequada dessas novas tecnologias, dependência da importação de insumos, equipamentos e medicamentos e o alto custo. Infelizmente, nem sempre esse novo e animado cenário é, de fato, uma realidade palpável a todos. 

A questão da pesquisa clínica no País tem gerado uma discussão muito saudável e produtiva, com praticamente todos os interessados concordando que nosso sistema atual foi importante e inovador, mas que se tornou lento e burocratizado com o tempo e precisa de ajustes, sem, claro, sacrificar os preceitos éticos que protegem os pacientes.

O número de médicos também é um assunto polêmico. O Brasil tem a quinta maior população do mundo e quase meio milhão de médicos, mas certas áreas geográficas ainda padecem com a falta de um profissional da saúde no local. Obviamente, um aumento no número de médicos graduados seria parte da solução, associado à disponibilidade de infraestrutura adequada e bons salários. O Brasil, que possuía ao redor de 100 escolas de medicina, saltou para mais de 240 instituições em pouco mais de uma década. Apenas a China e a Índia têm mais escolas que o Brasil. E o que questionamos nesse caso é a qualidade das mesmas. Quantas escolas têm bibliotecas, laboratórios e hospitais de ensino que possam treinar o profissional do século 21? Qual a capacitação e conhecimento esperados de nossos médicos em um momento em que o custo e a complexidade dos tratamentos não param de aumentar? 

Segundo dados do Cremesp, apenas 45% dos jovens que realizam a prova do Conselho Regional de Medicina são aprovados. Mas todos estão legalmente autorizados a clinicar. Na Medicina um erro pode ser fatal, além de aumentar os custos do tratamento. É evidente que o País precisa de mais médicos, mas não podemos sacrificar a qualidade pela quantidade. Quanto melhor o médico na assistência primária, maior a chance de reconhecer os sinais do câncer e encaminhar o paciente de maneira correta para o tratamento.

Apesar dos avanços nas últimas décadas, ainda estamos longe do ideal. O financiamento é insuficiente, o acesso ao diagnóstico inicial demora muito, as estruturas de tratamento não estão disponíveis em todo o território nacional, e há falta de profissionais capacitados. O alto custo torna imprescindível que a sociedade discuta quais parâmetros serão utilizados na adoção de protocolos de tratamento. Com recursos limitados, as escolhas precisam ser feitas com bom senso. Trabalhar nos pilares de ensino, pesquisa e assistência, em todos os níveis, é fundamental para termos sucesso no combate ao câncer. 

*É PROFESSOR TITULAR DE ONCOLOGIA DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP E DIRETOR-GERAL DO INSTITUTO DO CÂNCER DO ESTADO DE SÃO PAULO (ICESP)

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