Candidatos pedem nova antecipação das eleições na Argentina

Em julho, o governo do presidente Eduardo Duhalde conseguiu um pouco de oxigênio político ao anunciar a antecipação das eleições presidenciais, mudando-as de setembro de 2003 para março do ano que vem. Mas três meses depois, a manobra de Duhalde já perdeu efeito. Os candidatos presidenciais pedem uma nova antecipação daseleições presidenciais, que em vez de março, poderiam ser realizadas ainda em dezembro deste ano. A situação de Duhalde agrava-se diante do impasse nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o risco de calote com os organismos financeiros internacionais. Como se fosse pouco, a Corte Suprema de Justiça, em confronto direto com Duhalde desde o início do ano, poderia colapsar o frágil programa econômico do governo, ameaçando redolarizar os depósitos atualmente em pesos. O próprio governo admitiu publicamente nesta semana que nãopossui um ?plano B? caso esta ameaça se concretize. De quebra, estão ressurgindo com força os protestos populares que pedem a renúncia generalizada da classe política, e a realização de eleições gerais, que incluam além das presidenciais, a renovação total do Parlamento.Ao longo dos últimos quatro dias, todos os pré-candidatos do próprio partido do governo, o Justicialista (Peronista) pediram a antecipação das eleições Esse foi o caso os ex?presidentes Adolfo Rodríguez Saá e Carlos Menem, além do governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota. O governador da província de Santa Fé, Carlos Reutemann, também declarou-se favorável à antecipação. Reutemann saiu da corrida eleitoral há meses, mas os analistas são unânimes em afirmar que se ele retornar à arena, seria o favorito para vencer as eleições. Na oposição, Elisa Carrió, líder do Argentinos por uma República de Iguais (ARI), a segunda colocada nas pesquisas presidenciais, também pede eleições de forma urgente.Nas ruas, a insatisfação com o governo é crescente. Na sexta-feira à tarde, milhares de pessoas marcharam pelas ruas do centro de Buenos Aires para pedir a renúncia geral de toda a classe política. Os organizadores dos protestos prometem mais para as próximas semanas. O mal-estar com o governo aumenta com a permanência do estancamento da economia. Em agosto, o consumo despencou 21,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Enquanto isso, Duhlade tenta evitar maiores confrontos com a Corte Suprema de Justiça, e pressiona o Parlamento para que suspenda o processo político dos juízes que a integram. Com este favor, espera que a Corte não aprove o fim da pesificação dos depósitos. Segundo o analista político Ernesto Tenenbaum, Duhalde é um presidente fraco, ao qual, a Corte Suprema e o FMI sabem que sempre podempressionar um pouco mais.Mês a MêsDentro do governo Duhalde digladiam-se duas forças emrelação às eleições. Uma delas pede a Duhalde que deixe a presidência o mais rápido possível, antes que a crise termine de devorar o que resta de sua força, o que poderia causar a perda da província de Buenos Aires, feudo que Duhalde ainda controla. Outro setor pede ao presidente que fique até o fim do mandato, em maio, pois considera que está ocorrendo uma leve recuperação da economia. O argumento deste grupo é que Duhalde ainda tem chances de sair com a cabeça erguida de seu cargo, e assim, aumentar seu capital político, mais além do feudo bonaerense.Mas as negociações com o FMI estão apressando os prazos políticos. Sem um acordo com o Fundo, a Argentina não terá como enfrentar os vencimentos que possui com os organismos financeiros internacionais. O primeiro destes vencimentos ocorrerá daqui a poucos dias, a meados deoutubro, quando terá que pagar US$ 805 milhões ao Banco Mundial.O FMI sustenta que a Argentina terá que recorrer às reservasinternacionais do Banco Central. No entanto, o governo Duhalde nega-se a isso. Uma das lideranças do governo no Senado, Oscar Lamberto, afirma que se a Argentina pagar agora essas dívidas, não conseguirá dinheiro.Além disso, ?na atual situação do país, colocaríamos em risco a paz social?, afirma. Analistas consideram que a utilização das reservas causaria uma disparada do dólar, e conseqüentemente, da inflação. No entanto, tambémadmitem que sem acordo, as turbulências no setor financeiro retornarão, colocando o governo, de novo, à beira do precipício.Neste sábado, rumores extra-oficiais em Buenos Aires indicavam que o governo tentará, pelo menos, conseguir um acordo ?mês a mês? com o FMI. A idéia é conseguir uma rolagem mensal das dívidas, até as eleições presidenciais. Em troca, o governo iria cumprindo, a cada mês, umaparte da extensa bateria de medidas exigidas pelo Fundo Monetário. Esta proposta seria apresentada na semana que vem pelo próprio ministro Lavagna, que viajará à Washington para reunir-se com a diretoria do FMI.IrritaçãoDiversas pesquisas indicam que mais de 90% dos argentinosquerem a remoção total dos políticos atuais. Uma delas, da consultora Jorge Giaccobe e Associados afirma que entre os dez personagens responsáveis pela grave crise econômica que assola o país o primeiro colocado é o ex?presidente Menem (1989-99). Em segundo lugar, está o presidente Duhalde. Ele é seguido pelo ex?presidente Raúl Alfonsín(1983-89) e o ex?ministro da Economia, Domingo Cavallo.Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.