Capacidade ociosa retarda investimento

Capacidade ociosa retarda investimento

Segundo a Fiesp, investimento produtivo na indústria caiu à metade este ano

Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2016 | 15h59

Quatro anos atrás, quando a americana Steel Warehouse, líder em processamento de aço nos EUA, e a Cisa, maior companhia de comércio exterior no Brasil, começaram a traçar o plano para investir R$ 200 milhões numa fábrica em Paulínia (SP) para desenrolar bobinas e cortar o aço, a situação era outra. Em 2012 e 2013, a economia crescia 5%, e os seus clientes, fabricantes de máquinas para agricultura, construção, mineração e setor automotivo, trabalhavam a todo vapor.

Em maio deste ano, quando a unidade de Paulínia começou a funcionar, o País estava indo para o segundo ano seguido de recessão e as fábricas de praticamente todos os setores viraram “fantasmas” por causa da grande ociosidade na indústria.

Com a Steel Warehouse Cisa não foi diferente. “Estamos usando hoje 5% da capacidade instalada”, diz o diretor-geral da empresa no País, David Sánchez.

O plano inicial da companhia era ocupar 20% da capacidade de processamento de 20 mil toneladas de aço por mês durante o primeiro ano. “Com a queda da produção industrial, a nossa perspectiva recuou na mesma proporção”, observa.

A empresa emprega 25 trabalhadores, incluindo a área administrativa, que é o mínimo para funcionar. Sánchez conta que, atualmente, essa equipe se ocupa de preparar o terreno para que a companhia esteja pronta quando a economia voltar a crescer, provavelmente a partir do segundo semestre do ano que vem. “Estamos prospectando clientes, aprimorando os processos e identificando áreas de oportunidade.”

O executivo admite que esse começo de operação está sendo difícil, mas ressalta que continua otimista. “A partir do ano que vem, esperamos voltar para o plano original de negócios”, prevê, argumentando que a economia brasileira é meio imprevisível. “Quando sobe, explode, quando cai, cai forte”, diz.

Com as fábricas operando com alto nível de ociosidade, o investimento produtivo na indústria vem se retraindo. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) mostra que, este ano, o investimento caiu pela metade em relação a 2015 – os empresários informaram que iriam investir R$ 48,4 bilhões na produção, um dos menores resultados já revelados pelo levantamento feito anualmente pela Fiesp. Em 2015 foram aplicados R$ 97,5 bilhões. Ou seja, entre 2015 e 2016, a queda é de 50,3%.

A coordenadora da Sondagem Industrial do Instituto Brasileiro de Ibre/FGV, Tabi Thuler Santos, ressalta que, pelo tamanho da ociosidade, provavelmente tão cedo o investimento produtivo e o emprego não devem mesmo ser retomados na indústria, enquanto os estoques não forem reduzidos e a capacidade ociosa atual não for ocupada.

A Cedro Têxtil, que produz denim, a matéria-prima do jeans, usa entre 75% e 80% da capacidade das quatro fábricas e vem trabalhando seis dias por semana para abastecer o mercado nacional. “Reduzimos um turno de produção”, conta o diretor-presidente da companhia, Marco Antonio Branquinho. Ele explica que, em períodos normais, entre 2012 e 2014, por exemplo, a companhia ocupava 100% das fábricas sem paradas: trabalhava sete dias por semana, 24 horas.

“Não usar o potencial total de produção tem um custo significativo”, diz Branquinho. Para contrabalançar esse custo maior, ele cortou 900 funcionários entre outubro de 2014 e agosto do ano passado, encurtou o prazo de recebimento dos clientes e esticou o de pagamento de fornecedores, além de acatar sugestões dos próprios funcionários para aumentar a produtividade. Na opinião do presidente, o pior da tormenta passou e a saída agora é manter os ganhos de produtividade.

O segmento têxtil em geral reduziu o ritmo de produção das fábricas por causa da demanda fraca. “Essa é a pior crise do setor”, afirma Alfredo Emílio Bonduki, presidente do Sinditêxtil- SP e vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit).

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