Capital cresceu uma Diadema em 6 anos

Estudo da Embraesp mostra que, de 2004 a agosto de 2010, São Paulo ganhou área construída equivalente à do município vizinho 

Jennifer Gonzales e Lilian Primi, de O Estado de S. Paulo,

20 de setembro de 2010 | 14h58

Se uma pessoa tivesse dormido em janeiro de 2004 e voltado à consciência em agosto de 2010, é possível que ela levasse um susto ao abrir a janela e ver a cidade. São Paulo ganhou, nesse período, quase três mil edifícios, ou 1.706 lançamentos, segundo levantamento da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) feito especialmente para o Estado. Enquanto em 2004 surgiram 19.720 unidades, em 2009 foram 30.558.

Nesses seis anos, época do boom imobiliário, os 185.297 apartamentos construídos representam 31,84 quilômetros quadrados de área. Quantidade equivalente a 268 Maracanãs, Ou a toda a área do município de Diadema, que tem 31 quilômetros quadrados.

A quantidade de cimento utilizada nessas residências também exibe dimensões grandiosas. Se enfileirados os sacos utilizados (40.115.422), eles ocupariam 28.080 quilômetros, o que corresponde a quase três viagens por terra de ida e volta do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS).

Já os 5.730 metros cúbicos de concreto armado empregados nesses imóveis serviriam para construir praticamente metade da usina hidrelétrica de Itaipu.

Vertical

O que dizer desses números? "São Paulo vive uma constante autofagia. Destrói suas casas e edifícios pequenos para construir torres em cima", diz o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim sobre a intensa verticalização nesse espaço de tempo.

O coordenador nacional dos grupos de trabalho da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), Luiz Frederico Rangel, diz que o aquecimento do mercado criou um paradoxo. Ao mesmo tempo em que há uma demanda reprimida e oferta de crédito inédita no País, a indústria sofre com a falta de sua principal matéria-prima, os terrenos."

Com os prédios e suas inúmeras unidades chegam também os carros. Muitas incorporadoras procuram dispor duas ou três garagens por apartamento. "Deveria ser criada uma forma de calcular o aproveitamento construtivo dos terrenos em função da capacidade de tráfego que as ruas suportam", diz Wilheim.

"Uma rua estreita, por exemplo, não poderia ter prédios altos porque as garagens a atulhariam com carros. É o que acontece hoje, por exemplo, na Vila Olímpia, Itaim e Moema."

Outra alternativa seria reduzir o número de unidades por edifício lançado. "A prioridade do setor imobiliário é maximizar o investimento e não o entorno do empreendimento. E não é mesmo problema do mercado. Quem tem de se importar é a Prefeitura e a sociedade."

Segundo o presidente da consultoria imobiliária Urban Systems, Thomaz Assumpção, é importante que a revisão do Plano Diretor reduza a mobilidade urbana, isto é, que permita que as pessoas deixem de percorrer enormes distâncias entre o trabalho e suas residências.

A verticalização trouxe outro problema conhecido - o solo impermeabilizado. Wilheim lembra que a argila da qual faz parte o solo paulistano tem um agravante. "É um tipo que, quando saturada (na ocorrência de chuvas fortes) também fica impermeável e não permite que a água desça aos lençóis freáticos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.