Capital de giro caro prejudica indústria

Custo de financiamento no Brasil representa 6,7% do preço dos produtos, o triplo de países como Chile, Itália e Japão, segundo a Fiesp

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

O custo dos financiamentos para capital de giro, isto é, o dinheiro gasto com as despesas do dia a dia das empresas, como água, energia, salários e matérias-primas, entre outras, representa 6,7% do preço dos produtos industrializados fabricados no Brasil, revela um estudo inédito do Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

O peso da despesa com financiamentos nos preços dos produtos fabricados aqui é mais que o triplo do registrado em um grupo de cinco países, que inclui Chile, Itália, Japão, Malásia e Noruega, cuja metodologia de cálculo de juros é compatível com a do Brasil.

Na média desse conjunto de países, a fatia do gasto com capital de giro no preço final dos produtos industrializados é de 1,97%. Os números se referem aos custos financeiros para o ano passado.

"O custo de capital de giro elevado tira a competitividade da indústria e quem paga a conta é o consumidor. O brasileiro cada vez mais vai ter de pagar por um produto mais caro", afirma o diretor do Decomtec, José Ricardo Roriz Coelho.

O outro impacto do elevado gasto financeiro é a redução na capacidade de investimento das empresas, que passam a usar recursos próprios para financiar as despesas do dia a dia. Com isso, sobram menos recursos para ampliar a capacidade de produção ou aperfeiçoá-la. O dinheiro fica mais escasso para a compra de equipamentos ou para a ampliação de fábricas, por exemplo.

Obstáculo. Coelho explica que o custo do capital de giro foi apontado pelos empresários como o segundo maior obstáculo ao crescimento da indústria. De acordo com pesquisa feita pela Fiesp no segundo trimestre deste ano, que ouviu mil indústrias, 11% delas informaram que juros e crédito são barreiras ao crescimento. Esse quesito só perde para a tributação, apontada por 65% das indústrias como o principal obstáculo para a expansão dos negócios.

Outro estudo setorial da indústria ratifica o grande peso da despesa financeira nos preços. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o custo financeiro do capital de giro representa 9,41% da receita líquida dos fabricantes de máquinas. Só perde para os desembolsos com a compra de aço e a tributação. Isso significa que, de cada R$ 100 faturados pelo setor, R$ 9,41 são usados para pagar despesas financeiras corriqueiras.

"Uma fabricante de máquinas, sem títulos protestados e que é boa pagadora, paga entre 15% e 17% ao ano para descontar uma duplicata. A maioria das empresas gasta bem mais: entre 30% a 40% ao ano", afirma o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto.

Segundo ele, no Japão, uma operação equivalente ao desconto de uma duplicata custa entre 3% e 4% ao ano.

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