Capitalismo com alma

Empresas não querem ser misericordiosas porque almejam ir para o céu quando morrerem

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 05h00

O tema não é novo. A ideia de que o capitalismo é mais do que a simples maximização dos lucros foi explorada por Adam Smith em livro de 1759, A Teoria dos Sentimentos Morais, 17 anos antes de A Riqueza das Nações, obra seminal considerada a pedra fundamental do estudo da Economia. Smith acreditava que, como seres sociais, o homem nutria uma natural empatia pelos seus semelhantes, em que pese a tendência de cuidarmos mais de nós mesmos. Nobres ideais. Mais recentemente, essa visão benévola sofreu um golpe. Em livro de 1962, Capitalismo e Liberdade, M. Friedman, ícone do monetarismo e babalorixá de Paulo Guedes, cravou que a única responsabilidade social das empresas é aumentar o lucro, observando as regras da concorrência e do ambiente regulatório. Os acionistas e clientes podem gastar seu dinheiro da maneira como lhes aprouver, mas não cabe a uma empresa nada além de mobilizar recursos para melhorar seus resultados contábeis.

Estamos hoje mais próximos de Smith do que de Friedman. Já há vários anos vem crescendo a mobilização para pressionar as empresas a assumirem suas responsabilidades sociais de maneira mais ampla. As grandes corporações não se avexaram e embarcaram na onda, cansadas de serem vistas como vilãs e ansiosas para serem associadas a virtudes piedosas. Trata-se, aqui, de propagar a imagem de que estão comprometidas com práticas que ultrapassem a mera missão de ganhar dinheiro, dando a estas empresas um “sentimento moral”.

Não nos enganemos. As empresas não querem ser misericordiosas porque almejam ir para o céu quando morrerem. O jogo é aqui mesmo, no mundo terreno. O ganho de imagem, principalmente para empresas que fizeram coisas estranhas no verão passado, pode ser de alguma forma traduzido mais adiante em melhores resultados financeiros, já que consumidores e investidores mais preocupados com as injustiças do mundo tendem a preferir produtos e ações de empresas engajadas. São raros os casos de empresas que fomentam algum tipo de ação social sem noticiarem suas canduras aos quatro ventos. Mas são frequentes as situações em que se faz alarde por muito pouco ou quase nada. Dá dinheiro ser uma empresa do bem? Se fazer o bem é um valor absoluto e imperativo – como é –, a pergunta é inútil e sua resposta, desnecessária. Mas isso não demoveu G. Friede, T. Bush e A. Bassen de compilarem mais de 2 mil estudos que checaram a correlação entre performance financeira e práticas de responsabilidade social. Segundo eles, cerca de 90% dos estudos analisados não comprovaram uma correlação negativa entre essas duas variáveis e a grande maioria atestou uma correlação positiva. Fica faltando a discussão de quem determina o que, ou seja, o sentido da causalidade, já que empresas depauperadas dificilmente teriam oportunidade de priorizar boas práticas sociais, ao passo que empresas muito lucrativas encontram mais espaço para polir a imagem pública.

Avaliar o grau de engajamento também é um desafio. Hoje, há uma pletora de indicadores que mais confundem do que explicam, o que facilita a vida de quem quer enganar. O World Economic Forum definiu recentemente um conjunto de métricas para orientar a publicação de relatórios de sustentabilidade, uma espécie de boletim do bom comportamento das empresas, com a finalidade de inibir empresas oportunistas que juram boa-fé com os dedos cruzados atrás das costas.

Há nisto tudo muito de desfaçatez, enganação e oportunismo. Ainda assim, pode ser um bom começo. Consumidores e investidores tendem a prestar cada vez mais atenção ao que fazem com seu dinheiro, e isso é bom. O mundo tem melhorado muito nos últimos séculos. Pode melhorar aqui também.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM 

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