''Capitalismo dos EUA ficará com jeito mais europeu''

Ian Bremmer: presidente do Eurasia Group; Apesar do avanço do capitalismo estatal no mundo, os EUA vão continuar defendendo o livre mercado

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

O "capitalismo estatal" está avançando no mundo e o governo assumiu o papel de protagonista na economia de vários países. Mas os Estados Unidos ainda são e continuarão sendo por um bom tempo um país que defende o livre mercado, a despeito da "Government Motors" e outras intervenções do Estado na economia. Essa é a opinião de Ian Bremmer, presidente do Eurásia Group, consultoria de risco político. Na atual edição da revista Foreign Affairs, Bremmer escreveu o artigo "O Capitalismo Estatal chega à maioridade - o fim do livre mercado?".Bremmer prevê uma temporada de modelo econômico "híbrido" nos Estados Unidos e uma economia americana com mais jeito de europeia. "Vamos sofrer uma reação exagerada, tem muita gente procurando bodes expiatórios e pregando uma intervenção mais forte do governo", ele diz. Mas as estatais americanas não vieram para ficar, o governo não quer se tornar um grande participante do mercado, e "o que importa é que se trata da exceção, e não da regra - como podemos ver no caso dos bancos, que já estão devolvendo o dinheiro do Tarp." Segundo ele, os Estados Unidos vão se parecer mais com a Europa do que no passado, "mas estão muito longe de um capitalismo estatal como a China e outros emergentes". Abaixo, trechos da entrevista que Bremmer concedeu ao Estado, por telefone:Nós testemunhamos a quebra de dois ícones do capitalismo americano, o Citigroup e a GM, que não farão mais parte do índice Dow Jones. O que está mudando no modelo econômico americano por causa de toda essa crise?Há muita mudança. Nós passamos por 20 anos de desregulamentação, cada vez menos supervisão e mais alavancagem (endividamento) e a noção de que os bancos podiam se autorregular. Tudo isso nos levou a um enorme crescimento na economia e maximização dos lucros e das remunerações, mas infelizmente essa maximização era toda de curto prazo, não de longo prazo. Os riscos que eram assumidos foram subestimados, eram insustentáveis, e agora estamos sofrendo as consequências. Vamos sofrer uma reação exagerada, tem muita gente procurando bodes expiatórios e pregando uma intervenção do governo muito mais forte.Como consequência da magnitude da crise econômica, vamos ter um excesso de regulamentação, principalmente no setor financeiro, e o governo irá resgatar mais empresas e intervir mais. Além disso, já está se dando preferência a produtores e produtos domésticos, às custas de produtividade. Mas apesar de tudo isso, é preciso ter bem claro que a economia americana está longe de se tornar estatal. Sim, os Estados Unidos vão se parecer mais com a Europa do que no passado, mas estão muito longe de um capitalismo estatal como a China. Qual é a diferença básica entre uma economia capitalista estatal e os Estados Unidos?No capitalismo estatal, o Estado é o principal participante nos mercados e trabalha para ter o máximo de lucro por causa dessa posição. Isso não se aplica a nenhuma das economias desenvolvidas, como Japão, União Europeia e Estados Unidos. No caso da GM, por exemplo, os EUA não pretendem ficar para sempre como controladores.Mas certamente haverá decisões incompatíveis com as regras do livre mercado. Por exemplo, pode fazer mais sentido para os acionistas fechar fábricas e eliminar empregos, mas o Congresso certamente vai interferir nisso. Trata-se de um híbrido, mas o que importa é que se trata da exceção, e não da regra - como podemos ver no caso dos bancos, que já estão devolvendo o dinheiro do Tarp.Além da maior intervenção do governo, ainda que temporária, o que mais deve mudar no modelo - o senhor acha que a indústria vai ficar cada vez menor nos Estados Unidos?Isso depende de quão protecionista os Estados Unidos vão se tornar, o que está diretamente ligado à velocidade em que o país vai sair da recessão. Os sindicatos estão ficando mais poderosos nos Estados Unidos então podemos ver, como consequências, mais regras para incentivar indústrias a criarem empregos no país. Estruturalmente, acho que o esquema global de terceirizar produção para a China está ameaçado. Na medida em que a relação entre China e Estados Unidos fica mais tensa, e o custo de recursos naturais (petróleo, custo de transportes) aumenta, vai ser cada vez mais difícil empresas ocidentais concentrarem sua cadeia de fornecimento na China. Vamos ver uma regionalização nos fluxos de capital e para os Estados Unidos, veremos mais manufatura vindo do hemisfério ocidental, seja do México, de outros países da América Latina ou dos próprios Estados Unidos. Além disso, a China estará cada vez mais focada em criar seu mercado doméstico, o que representa outro desafio para centralização de produção na China.O senhor acha que a crise econômica e a forma como afetou os Estados Unidos apontam para um declínio inevitável da posição dos EUA como superpotência econômica? E a China está pronta para assumir este papel de principal superpotência econômica?Há um declínio inevitável dos Estados Unidos em relação aos outros países que estão se tornando economicamente mais importantes. Mas os Estados Unidos ainda são a principal economia - não é à toa que o dólar continua sendo a moeda de reserva e seguirá sendo por muito tempo, a despeito do que os chineses dizem. Vai levar mais de uma década para haver uma moeda que possa substituir o dólar, os Direitos Especiais de Saque ("moeda" do Fundo Monetário Internacional sugerida pelos chineses para substituir o dólar) não são uma opção realista no momento. E os chineses não estão prontos para assumir a responsabilidade de ser a superpotência econômica. Não importa quão importante a China é, ela ainda é um país emergente com instituições políticas relativamente subdesenvolvidas. Então veremos uma ausência crescente de governança global em questões estruturais chave.Onde fica o Brasil neste cenário?Lula tem mais de 80% de popularidade. O crescimento que temos visto no Brasil nos últimos anos criou um centrismo político que insulou o País do tipo de populismo que tomou conta de outros emergentes. Não é à toa que o Brasil é grau de investimento - o País realmente ganhou um nível de estabilidade, sem falar nas reservas de petróleo e no fato de o País ser a Arábia Saudita dos biocombustíveis. Tudo isso faz do Brasil muito atraente e estável para investidores no longo prazo.Mas na dinâmica global, com os Estados Unidos perdendo importância e a China ganhando, o senhor vê o Brasil desempenhando um papel?Eu não vejo o Brasil com um papel global.Por que?Porque o Brasil é relativamente pequeno. É como dizer que a Arábia Saudita vai ter um papel global. A Arábia Saudita é um país essencial no Oriente Médio e vai ser cada vez mais importante. A Rússia vai ser cada vez mais importante na Eurásia. Da mesma forma, o Brasil será cada vez mais importante no Hemisfério Ocidental. Mas eu não vejo o Brasil assumindo a liderança na criação de uma nova arquitetura financeira global, ou enviando tropas para o Afeganistão, por exemplo.Quem é:Ian Bremmer, 39 anosÉ graduado pela Tulane Univerty, com mestrado e doutorado em Ciência Política, pela Stanford University. Hoje é presidente do Eurasia Group, consultoria de risco político. Desde 1990, já lançou cinco livros.

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