Capitalismo pós-Lava Jato

Chegou a hora de criar programas que estabeleçam garantias para novos entrantes conseguirem se financiar e entrar nos leilões

Sérgio Lazzarini, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2019 | 04h00

O recém-aprovado pedido de recuperação da Odebrecht, o maior da história do País, vem na esteira de toda uma discussão sobre como o capitalismo brasileiro emergirá das cinzas após a Operação Lava Jato. A própria Odebrecht, no seu pedido de recuperação, ressaltou as dificuldades que as condenações trouxeram aos seus negócios.

De fato, mesmo entre alguns apoiadores da operação, é comum dizer que o remédio matou o paciente junto com a doença, ao levar tantas empresas a uma situação de inabilitação e até insolvência. Para os pensadores mais à esquerda, a situação é ainda mais dramática por ter enfraquecido o empresariado nacional, agora à mercê de potenciais adquirentes estrangeiros.

Só que esse empresariado que está quebrando foi quem ajudou a quebrar o Brasil. Por muito tempo, o capitalismo brasileiro estabeleceu laços com o setor público e foi agraciado com obras superfaturadas, empréstimos subsidiados e isenções tributárias, que só aumentaram o déficit e a dívida pública. Não é esse, por certo, o capitalismo que queremos salvar.

Como já tive oportunidade de argumentar, o ideal teria sido, nos acordos de colaboração, separar a empresa dos seus controladores. Acordos para atenuar as penalidades para as empresas, com vistas a preservar empregos e investimentos, deveriam ter sido acompanhados de exigências para que os donos se desfizessem do seu controle, fazendo com que eles, mais diretamente, respondessem pelos seus atos. O que temos, agora, são empresas falindo e os seus donos recebendo compensações.

Olhando agora para frente, é preciso tornar o Brasil mais atrativo para novos entrantes que ajudem a retomar a trajetória de investimentos. Crucial reduzir barreiras para a entrada de empresas e investidores estrangeiros que possam assumir o controle das empresas em recuperação e trazer mais poupança externa, que tanto nos faz falta.

Não menos importante, é preciso facilitar o crescimento de novos empreendedores em setores intensivos em capital e conhecimento. Por muito tempo, bancos públicos como o BNDES favoreceram grandes grupos em leilões de concessão. Chegou a hora de criar programas que, na direção inversa, estabeleçam garantias para novos entrantes conseguirem se financiar e entrar nos leilões.

Quem sabe, com isso, teremos um capitalismo renovado, mais competitivo, e menos dependente de laços espúrios com o setor público.

*PROFESSOR TITULAR DO INSPER

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