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Capitalismo sem capital

Hoje, investimentos em intangíveis explicam os diferenciais de crescimento econômico entre os países

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2018 | 05h00

Em ano eleitoral, quando os candidatos e seus partidos deveriam se preparar para apresentar aos eleitores seu programa de governo, as questões relativas ao crescimento econômico ganham importância. Meu foco, hoje, são as transformações que vêm ocorrendo nos investimentos e suas consequências para o crescimento e para a orientação das políticas públicas.

Baseio-me aqui no excelente livro (do qual tomei emprestado o título) Capitalism without Capital: the Rise of the Intangible Economy, de Jonathan Haskel e Stian Westlake. Os autores tratam do contínuo deslocamento de investimentos tangíveis – máquinas, equipamentos e construções – para os intangíveis, tais como software, pesquisa e desenvolvimento, design, pesquisas de mercado, otimização de processos produtivos, treinamento, marca, canais de distribuição, entre outros. Trata-se de um processo de longo prazo, que se acelerou fortemente nas últimas quatro décadas e que tende a continuar. Esse deslocamento não é captado adequadamente nos balanços das empresas e nas estatísticas de contas nacionais, porque boa parte desses dispêndios é tratada como despesas do dia a dia, não como investimentos, o que dificulta a mensuração dos montantes aplicados e de seus impactos na economia.

Na economia globalizada atual, são principalmente os níveis e a qualidade dos investimentos em intangíveis que explicam as histórias de sucesso ou de fracasso de empresas e também os diferenciais de crescimento econômico entre os países. E há evidências empíricas sólidas da correlação entre a participação de intangíveis nos investimentos e o grau de desenvolvimento e de avanço institucional.

Ocorre que os investimentos em intangíveis têm certas características específicas que impõem desafios para sua materialização. Uma delas é que, por envolverem custos afundados (sunkcosts), ou seja, por não gerarem ativos que possam ser vendidos no mercado e oferecidos como garantia, tal como um caminhão ou uma turbina, encontram maiores dificuldades para levantar fundos que os financiem, seja em bancos, seja no mercado de capitais. A falta de registro adequado como ativos também acrescenta dificuldade de crédito para as empresas que são intensivas em dispêndios com intangíveis.

Outra característica dos intangíveis é o fato de apresentarem externalidades, ou seja, nem todo retorno do investimento é garantido a quem arcou com o seu custo, pois muitos avanços no conhecimento e na tecnologia se espalham para o conjunto da economia. Além disso, esses investimentos requerem melhor infraestrutura na área de tecnologia da informação, especialmente em transmissão de dados, e aumentam a demanda por regulação adequada (normas, padrões técnicos e demais regras que propiciem maior integração e colaboração entre governo, população e empresas).

Por último, mas não menos importante: o deslocamento para os investimentos em intangíveis aumenta a necessidade das empresas por profissionais adequadamente preparados para exercerem funções de liderança, de pesquisa e desenvolvimento e de treinamento, o que ressalta o papel fundamental da educação.

Os pontos abordados aqui têm impactos relevantes sobre a agenda de políticas públicas para o desenvolvimento. A redução da importância dos investimentos em ativos tangíveis é mais um argumento relevante contra as políticas de protecionismo e subsídios para bens de capital. O foco da ação governamental tem de ser a infraestrutura para a geração e propagação do conhecimento, que envolvem ações nas áreas de educação, desenvolvimento científico e tecnológico, internet, tecnologia de comunicação e planejamento urbano. Finalmente, os órgãos de fomento, principalmente o BNDES, devem suprir as já mencionadas falhas de mercado, típicas dos intangíveis, que reduzem o montante de financiamento privado para esse tipo de investimento.

* ECONOMISTA, DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES, FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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