Capitalização da Petrobrás: as razões do sucesso

O debate eleitoral em vigor no Brasil tornou pouco claro para a população em geral a relevância e as consequências do recente processo de capitalização da Petrobrás.

Análise: Edmar Luiz Fagundes de Almeida, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

O calor do debate eleitoral levou as discussões para alguns temas controversos da operação de capitalização, que não necessariamente eram os mais importantes para determinar o sucesso ou o fracasso da mesma.

O debate em torno da capitalização da Petrobrás foi dominado por duas questões principais: I) as consequências de um eventual aumento da participação do Estado brasileiro no capital da Petrobrás; e II) o nível de transparência quanto aos critérios de definição do preço do barril do petróleo.

As vozes críticas ao processo de capitalização sustentaram até o fim que uma elevação da participação do governo no capital da Petrobrás iria contribuir para piorar o nível da governança corporativa, com o aumento da interferência política na empresa.

Ao mesmo tempo, o governo estaria comprando essa maior participação mais barato que os acionistas minoritários. Isto ocorre porque o governo estaria pagando sua parte das ações com 5 bilhões de barris de petróleo avaliados arbitrariamente a US$8,51, um preço acima daquele que seria preço considerado justo.

Como explicar o inegável sucesso da operação de capitalização da Petrobrás? As razões certamente passam longe das questões debatidas acima. Inicialmente, é importante ressaltar que as descobertas de petróleo da área do pré-sal fizeram do Brasil a principal área de expansão da indústria petrolífera mundial fora da OPEP.

Ao mesmo tempo em que a Petrobrás tem uma posição privilegiada no pré-sal, as empresas internacionais de petróleo de capital aberto, que disputam com a Petrobrás os recursos dos investidores, vêm enfrentando muitas dificuldades para terem acesso a reservas de petróleo em condições econômicas aceitáveis.

Por essa razão, não está fácil encontrar uma empresa de petróleo para investir com um bom prognóstico de crescimento da produção de petróleo.

O contexto atual do mercado financeiro mundial, caracterizado por baixo nível da taxa de juros e um fraco desempenho das economias centrais também contribuiu muito para o sucesso da operação. Neste contexto, os grandes fundos de investimento internacionais não encontram boas opções de investimentos no mercado de capital dos países centrais.

O País é visto como uma excelente oportunidade quando comparado com as outras opções. No Brasil, certamente um dos negócios mais promissores a médio e longo prazo é a Petrobrás.

Dado o exposto acima, os investidores foram pragmáticos e aceitaram o risco do negócio. Esses investidores estão apostando que a boa governança corporativa da empresa não vai alterar significativamente porque o governo agora reforça um controle acionário que já detinha.

Da mesma forma, estão calculando que o importante não é o preço dos 5 bilhões de barris de petróleo da cessão onerosa, mas é sim o baixo preço dos mais de 20 bilhões de barris do pré-sal que continuaram no regime de concessão atual.

PROFESSOR DO GRUPO DE ECONOMIA DA ENERGIA DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UFRJ

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