MARCOS ARCOVERDE | ESTADÃO CONTEÚDO
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Cargos em estatais dão poder político, status e voto

Para especialistas, parlamentares são contrários à privatização da Eletrobrás porque querem manter influência em subsidiárias locais

Anne Warth e Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 04h00

BRASÍLIA - Os mesmos parlamentares que terão de aprovar no Congresso o projeto de privatização da Eletrobrás têm motivos para serem contrários à venda da estatal, já que exercem influência nas subsidiárias locais da companhia, diz o diz o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires. “No fundo, essas empresas já estão privatizadas há muito tempo pelos políticos e sindicatos. Eles têm usado e abusado dessas companhias ao longo de anos.” 

Para Pires, os parlamentares que questionam o modelo de venda da Eletrobrás, na verdade, buscam justificativas para adiar o processo. “É algo mais sutil, mas, no fundo, são argumentos sofisticados usados por quem é contrário.” Cargos em estatais, diz ele, dão poder político, econômico, status e voto. 

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A influência política em estatais cria situações anacrônicas. De acordo com o ex-diretor da Aneel Edvaldo Alves de Santana, houve momentos em que a Celg-D deixou de pagar encargos setoriais e fornecedores, mas mantinha patrocínios esportivos e culturais. Nessa época, a distribuidora pertencia à Eletrobras e ao governo goiano. No fim de 2016, a empresa foi vendida para a italiana Enel. “A influência política é uma das principais fontes de ineficiência do setor elétrico brasileiro”, diz Santana, hoje presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace).

O presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, atuou por 18 anos no Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), vinculado à Eletrobrás. Segundo ele, os apadrinhados não necessariamente favorecem desvios, mas priorizam ações que valorizem o político. Um dos exemplos é a antecipação de obras sem urgência e que rendam votos. “São coisas pequenas, mas o somatório é ruim.”

Outro lado. Em nota, a Eletrobrás informou que os presidentes de todas as subsidiárias da companhia foram substituídos desde que Wilson Ferreira Jr. assumiu a presidência da empresa, em julho de 2016, além de boa parte dos diretores e conselheiros. Segundo a empresa, todas as nomeações seguiram as normas da Lei das Estatais. 

“Quanto aos atuais presidentes, todos têm origem no setor elétrico e muitos são empregados de carreira das empresas Eletrobrás”, informou a empresa. “No que diz respeito às indicações políticas, há que se considerar que o acionista majoritário da Eletrobras é a União. Em última instância, é ela, portanto, quem indica os dirigentes.” 

A reportagem consultou todos os deputados e senadores citados como padrinhos políticos. O deputado Sérgio Souza (MDB-PR) disse que a indicação do diretor de Itaipu foi de toda a bancada do partido no Paraná. O deputado Átila Lira (PSB-PI) disse que a indicação do executivo da Eletrobrás Distribuição Piauí foi da bancada estadual. Rodrigo Martins (PSB-PI) negou a indicação.

A Marinha, o senador Valdir Raupp (MDB-RO) e o deputado Marx Beltrão (PSD-AL) negaram ter indicado executivos para a Eletrobrás. Os senadores Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Gladson Cameli (PP-AC), Omar Aziz (PSD-AM), Romero Jucá (MDB-RR), Dario Berger (MDB-SC) e o ex-senador José Sarney (MDB-AP) não responderam. 

 

 
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