Carioca vive o pior da crise previdenciária

Na falta de recursos, Estado acaba tendo de compartilhar o custo do rombo com todos

Vinicius Neder / RIO, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00


O efeito mais nefasto da crise da Previdência está sendo vivido pelos cariocas. Na situação limite de não ter dinheiro para pagar a folha, o déficit deixa de ser problema do caixa do Estado e a conta passa a ser compartilhada com o cidadão. A professora de história Jacira de Paula, aposentada há dez anos como servidora do Estado do Rio, depois de trabalhar por 35 anos, não quer nem pensar em como fará para adaptar seu orçamento ao corte de 30% em seus vencimentos, caso seja aprovada uma das mais polêmicas medidas do pacote de ajuste anunciado há uma semana pelo governo estadual.

“Ainda nem pensei nisso. Já está ruim, se tirar isso, aí é morar embaixo da ponte e pedir esmola. Só me resta isso, mais nada”, disse Jacira, enquanto participava de um dos protestos contra o pacote do governo, na última terça-feira, no Centro do Rio. “Trabalhamos anos e anos a fio e, agora, temos de pagar a conta? Não é possível.”

Desde que o Estado passou a atrasar o pagamento de servidores ativos e inativos, na virada de 2015 para 2016, Jacira começou a rever alguns gastos. A primeira medida foi cortar a TV a cabo. Nos últimos meses, atrasar algumas contas, como a do cartão de crédito, é rotina – o Estado do Rio estava pagando seus funcionários apenas no décimo dia útil do mês seguinte. Ontem, o governo do Estado anunciou que o salário de outubro será parcelado em até sete vezes.

“A única coisa que ainda pago, para não cortar, é a luz. Um mês eu pago, outro não pago”, contou Jacira. “As compras (de supermercado), reduzi à metade. É só o essencial.”

Para o subtenente do Corpo de Bombeiros do Rio Luiz Souza da Silva, o pacote de ajuste fiscal anunciado pelo governo estadual há uma semana veio “como se fosse um tiro no nosso peito”. “A vida atrapalha em tudo. Mexe na estrutura familiar, emocional, financeira”, afirmou o bombeiro, durante um dos protestos contra o pacote do governo, terça-feira passada, no Centro do Rio.

Há 28 anos na corporação, Silva entrou com o pedido de reforma, mas aguarda o prosseguimento do processo. O subtenente é salva-vidas, trabalha no destacamento do 2º Grupamento Marítimo (GMAR), em Sepetiba, zona oeste do Rio. Por causa da falta de efetivo, os superiores dele pediram que trabalhasse 45 dias mais.

Se o pacote de medidas do governo for aprovado, a aposentadoria não livrará o subtenente do pagamento da contribuição previdenciária. Como ganha mais de R$ 5.189,82, continuaria pagando contribuição previdenciária, mesmo inativo. Só que a proposta do governo estadual eleva a alíquota básica de 11% dos vencimentos brutos para 14%, e ainda impõe um adicional temporário de 16%, totalizando uma mordida de 30%.

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