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Carlos Ghosn, artista da transformação

Como os grandes criminosos, Carlos Ghosn tem pelo menos quatro passaportes

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 05h00

Os franceses ficaram estupefatos com a prisão de Carlos Ghosn. Como explicar o fato de os japoneses prenderem assim esse industrial mundialmente famoso, responsável pelo resgate e pela prosperidade da montadora Renault há alguns anos?

Mas ele nem sempre contou com a simpatia dos franceses. Achávamos que ele tinha uma cara engraçada, com olhos imensos. Ele era arrogante, autoritário e orgulhoso. Circulavam rumores ruins: por exemplo, para o casamento com uma libanesa chamada Carole, creio, ele teve a ideia ridícula e ruinosa de dar uma grande festa no Palácio do Rei Sol, Luís XIV, o Castelo de Versalhes. Era, portanto, além de tudo, muito vaidoso.

A opinião geral se voltou a seu favor pouco depois, quando soubemos das condições ferozes de sua detenção: luz acesa 24 horas por dia, proibição de se deitar, viver bem perto dos condenados à morte – tão perto que muitas vezes Carlos acordou no alvorecer de Tóquio com os gritos daqueles que estavam prestes a morrer.

E, então, na segunda-feira passada, o golpe dramático. Carlos fugira da prisão a bordo de um avião desconhecido que pousara em sua terra, o Líbano. Lá é tratado com extrema consideração. Pode ficar tranquilo, pois o país não tem tratado de extradição com o Japão. E pode ter a honra de ser um paradoxo: um dos homens mais poderosos do planeta, que passou para trás uma das polícias mais eficazes do mundo e agora janta com os amigos ou fuma um charuto nos bosques perfumados de damasco, sem ser julgado.

É claro que sempre existem aqueles espíritos mal-humorados. Por exemplo, o sindicato CGT (de esquerda) não oculta sua aversão. Como falar com admiração sobre uma das grandes figuras do capitalismo moderno, um homem que, quando encontrou a Renault em perigo, não hesitou em demitir dezenas de milhares de bons trabalhadores?

Pelo menos reconheçam, dizem os anarquistas, que o capitalismo desse homem tem o mérito de ser engraçado: um homem que zomba da polícia, dos bombeiros, dos funcionários da alfândega e dos ministros, que atravessa as paredes das prisões como se fossem de fumaça, não pode ser totalmente ruim.

Outros admiram apenas o talento de Ghosn. Ser brasileiro, libanês e francês ao mesmo tempo não chega a ser incomum. Mas, como os grandes criminosos, ele tem pelo menos quatro passaportes: um brasileiro, um libanês e dois franceses. (Um destes dois está trancado em uma maleta que só se abre com senha). E nada pode detê-lo: ele consegue cruzar fronteiras, aduanas e postos de polícia sob o olhar perplexo dos funcionários do aeroporto. Os cães de caça mais inteligentes não entendem nada.

Ele deve ter uma cabeça brilhante. Frequentou a Ecole Polytechnique de Paris, uma das mais difíceis do mundo. E também está entre os discípulos longínquos do grande Fregoli, o genial italiano do século 19 que era, ao mesmo tempo, músico fabuloso, ventríloquo perfeito e capaz de mudar de figura, sexo e silhueta num piscar de olhos, sob o olhar incrédulo de espectadores que não tinham ideia do que estavam vendo. Fregoli é o inventor de um número de auditório chamado “transformismo”. Viva o artista!

Além disso, Ghosn usa artifícios, como, por exemplo, esse segundo passaporte invisível. Talvez seja por isso que esta manhã um jornal o comparou a todos os James Bond de uma vez. Não creio que Carlos mereça tanta honra. Seus artifícios são estranhos e muito primitivos. E aposto que ele não tem tanto sucesso com as mulheres quanto todos os Don Juan que se sucederam sob o disfarce de Bond.

Outros o comparam a um cangaceiro, porque ele nasceu em Porto Velho. Não concordo com essa comparação. Até a considero ofensiva à memória do grande Lampião. E onde estaria a Maria Bonita? Não, acho que temos que “manter o bom senso”.

Quanto a mim, menos entusiasmado, eu me contentaria em comparar Carlos Ghosn a Carlos Ghosn. O que não é tão ruim assim. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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