AP Photo/Maya Alleruzzo
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‘Esperava mais ajuda do governo brasileiro’, diz Ghosn em primeira entrevista

Ex-presidente da Renault-Nissan se disse decepcionado por País ter preferido uma posição neutra sobre a sua prisão; executivo também afirmou que a atual parceria entre as montadoras é uma ‘farsa’ e que negociava fusão com FiatChrysler

Fernando Scheller, enviado especial, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 10h13
Atualizado 08 de janeiro de 2020 | 21h34

BEIRUTE - Após declaração de uma hora e sessão de perguntas e respostas que se estendeu por mais duas, o ex-presidente da aliança Renault-Nissan, Carlos Ghosn, deixou de fora talvez um dos aspectos mais curiosos da “saga” que enfrentou desde sua prisão, em novembro de 2018: a fuga que empreendeu no dia 29 de dezembro, quando deixou o Japão rumo ao Líbano. 

O executivo não confirmou nenhum detalhe, como a rota (com escala na Turquia) , se usou algum disfarce ou se viajou escondido em uma caixa de instrumento musical. “Eu entendo a curiosidade de vocês, mas não posso contar detalhes para não prejudicar as pessoas que me ajudaram.”

Além de frisar que está determinado a limpar seu nome depois de ter enfrentado o que classifica como “assassinato de reputação”, o executivo disse que esperava mais apoio do governo brasileiro. 

Embora tenha tido assistência do cônsul do Brasil no Japão, João Mendonça, durante a época em que ficou preso em um centro de detenção de Tóquio, ele ficou decepcionado pelo fato de o presidente Jair Bolsonaro ter preferido uma posição neutra sobre o tema. Ghosn frisou, no entanto, entender a posição do presidente. Procurado, o Palácio do Planalto não comentou.

Renault-Nissan

O executivo criticou também a Nissan. Disse que o gasto total para manchar nesse caso chegou a US$ 200 milhões. E afirmou ter documentos provando que as acusações de ocultação de renda são infundadas. Segundo ele, todas as compensações ao presidente de uma companhia passam por várias aprovações – praxe em processos corporativos multinacionais.

Segundo ele, desde sua prisão, a situação financeira tanto da Renault quanto da Nissan só piorou. Isso porque, afirmou, hoje a parceria entre as duas empresas é uma “farsa”. Depois da prisão de Ghosn, as companhias declararam que passariam a tomar decisões em consenso – uma opção que não funciona, na visão do executivo.

Ghosn citou que a Nissan perdeu, em pouco mais de um ano, cerca de US$ 10 bilhões em valor de mercado, enquanto a Renault se desvalorizou em € 5 bilhões. “Eles tiveram muito sucesso em assassinar a minha reputação, mas vão acabar destruindo a companhia.”

A principal razão para sua prisão, segundo Ghosn, foi a resistência da Nissan em ampliar a aliança com a Renault. O executivo afirmou que a Nissan chegou à conclusão de que, para se livrar da Renault, teria também de se livrar dele. 

O executivo disse ainda que estava em negociações avançadas para promover uma fusão entre a Renault-Nissan e a FiatChrysler na época em que foi preso. “Foi uma grande oportunidade perdida para eles”, afirmou o Ghosn. “Vai ser muito bom para a PSA (grupo francês dono da Peugeot e da Citroën, que fechou o negócio em 2019).”

Procurada, a montadora Nissan afirmou que mantém a posição divulgada em comunicado anterior, em que diz que “descobriu numerosos atos irregulares (do executivo) após investigação interna cuidadosa e robusta”. 

Condições

O executivo também deu detalhes sobre as condições de sua prisão no Japão. Nos mais de cem dias em que ficou no centro de detenção de Kouchisho, nos arredores de Tóquio, sofreu com o que classificou de “condições brutais”. “Fui interrogado por oito horas sem a presença de um advogado”, disse, lembrando que o sistema judiciário japonês tem uma taxa de 99,4% de condenação que se baseia na extração de confissões dos acusados.

O executivo declarou ainda ter ficado em uma cela de dez metros quadrados durante 24 horas, com direito a 30 minutos de banho de sol somente em dias úteis. Ainda segundo ele, não teve acesso a remédios e os banhos eram limitados a duas vezes por semana. 

Logo após a coletiva, a ministra da Justiça do Japão, Masako Mori, desafiou o ex-presidente da Renault-Nissan a defender sua inocência nos tribunais japoneses e rejeitou as críticas contra o sistema judicial japonês feitas por ele. “Se o réu Ghosn tem algo a dizer... ele deve buscar a Justiça oferecida pelas instâncias judiciais japonesas”, disse à imprensa.

Sobre os próximos passos, Ghosn não se alongou. “Ainda é muito cedo para falar sobre meu comeback (retorno). Mas isso não quer dizer que eu não possa ter planos mais adiante.”

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