Christina/Unsplash
Christina/Unsplash

Com suas empresas, mulheres são responsáveis pela própria subsistência e a de suas famílias

É urgente remover os obstáculos que ainda impedem a total integração de milhões de brasileiras ao mundo dos negócios

Carlos Melles*, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2022 | 04h00

Os donos de pequenos negócios no Brasil sofreram, nos últimos anos, os sucessivos impactos causados pela covid-19 e pelo aumento dos preços dos insumos e da inflação. Pesquisas do Sebrae mostram que, no pior momento do lockdown, quase 90% das empresas haviam registrado queda no faturamento, com uma perda média de 70% na receita. Apesar disso, é possível afirmar que a crise não foi igual para todos. As empreendedoras e, em especial, as mulheres negras registraram ainda mais dificuldades ao atravessar esse período crítico. A boa notícia é que o empreendedorismo feminino dá sinais consistentes de recuperação.

De acordo com pesquisa feita pelo Sebrae a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), após recuar para um total de 8,6 milhões de donas de negócio, no segundo trimestre de 2020, o número de mulheres à frente de uma empresa fechou o quarto trimestre de 2021 em 10,1 milhões (resultado igual ao do último trimestre de 2019). E por que a recuperação do empreendedorismo feminino é importante para o País? O mesmo estudo revela que, entre 2019 e 2021, cresceu a proporção de mulheres donas de negócios que são chefes de domicílio. No fim de 2021, elas já representavam quase 50% do universo de empreendedoras. Com suas empresas, essas mulheres são responsáveis pela própria subsistência e a de suas famílias. 

O Sebrae acompanha, há anos, o desempenho do empreendedorismo feminino por meio do programa Sebrae Delas, contribuindo para a disseminação dessa atividade entre as mulheres e para sua qualificação. É urgente remover os obstáculos que ainda impedem a total integração de milhões de brasileiras ao mundo dos negócios. Essa ação passa pela formulação de novas políticas públicas e pela mudança de uma cultura que ainda deposita nas costas das mulheres a maior parte da responsabilidade pela administração da casa e pelos cuidados com crianças e idosos. É revelador desse ambiente cultural que as mulheres ainda respondam por apenas 34% do total dos negócios brasileiros, formais e informais.

No mês em que é celebrado o Dia Internacional das Mulheres, os diversos atores – públicos e privados – que atuam no universo do empreendedorismo precisam refletir sobre essas profundas desigualdades. Se queremos assegurar às novas gerações de empreendedoras as mesmas condições de competitividade dos homens, é fundamental reavaliarmos muito mais do que nosso marco legal, mas também as nossas práticas diárias e hábitos culturais que ainda perpetuam esse estado de iniquidade.

*PRESIDENTE DO SEBRAE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.