Carnaval 2008 terá menos penas e plumas na avenida

Gripe aviária dificulta importação e mercado interno não tem capacidade para atender à demanda

Vera Dantas, O Estadao de S.Paulo

14 de janeiro de 2008 | 00h00

As plumas, adorno de destaque em fantasias de luxo amplamente usadas nos desfiles das escolas de samba, vêm perdendo espaço no comércio de produtos carnavalescos. A gripe aviária, que tem dificultado a importação de penas e plumas, somada à escassez do produto nacional, prejudicam a oferta. O varejo do ramo já se ressente."A última compra que fizemos da África do Sul foi em janeiro de 2006. No meio do ano passado, tentamos importar e não conseguimos. Esses mercados podem abrir num mês e fechar no outro", diz Alexandre Correa, da importadora Cortatex, responsável pelo abastecimento da Casa Costa, na 25 de Março. "O mercado chinês está fechado há três ou quatro anos." Para atender à atual temporada, a Casa Costa está abastecida. "Temos um estoque com cerca de 1,5 mil quilos de plumas de avestruz", diz ele. Mas, nos próximos meses, Correa pretende buscar alternativas. "Não sei se em outros países ou no mercado nacional. Vamos pesquisar", diz.No Palácio das Plumas, a importação para este ano foi menor do que a feita para o carnaval passado. Foram 7 mil quilos. No ano anterior, compraram 10 mil quilos. "Para 2008, adquirimos 30% no mercado nacional", diz a proprietária da loja, Pinah Ayoub, que ficou famosa quando sambou com o príncipe Charles, na década de 70, como destaque da Beija-Flor. " Ele assistia a uma apresentação da escola e, de repente, se aproximou dançando Charleston", lembra Pinah, rindo. Hoje, ela divide com o marido, Elias Ayoub, a condução dos negócios no Palácio das Plumas, além de ainda desfilar na comissão de frente da Beija-Flor. Na loja, a pluma "chorona especial", importada e considerada de melhor qualidade, é vendida por R$ 880 o quilo. É a mais cara. O espigão, que são as primeiras penas do avestruz e podem ter algumas falhas, saem por R$ 220 o quilo. As penas de peru custam R$ 43,50 o quilo, e as de faisão real, R$ 80. Ambas são bastante procuradas.Os números de importação do governo revelam parcialmente a queda das vendas. De janeiro a novembro de 2007, o Brasil comprou 5,7 toneladas de penas, peles e outras partes de aves da África do Sul, o maior fornecedor mundial de plumas de avestruz. Em 2006, para o mesmo item e em igual período, foram importadas 6,8 toneladas. Só não é possível separar desse total quanto representam apenas as plumas. Mas, sem dúvida, segundo especialistas, são significativas nas vendas da África do Sul. A importação, de acordo com o Ministério da Agricultura, tem de obedecer a determinados parâmetros. É necessário que o produto venha com certificado sanitário internacional, endossado por um veterinário oficial do país exportador. Entre várias especificidades técnicas, o importador precisa garantir também que as plumas e penas estão vindo de países livres da gripe aviária e da doença de Newcastle. O Brasil tem o segundo maior plantel de avestruz do mundo, com cerca de 450 mil animais, mas não consegue atender a toda a demanda do carnaval. "Os animais são criados para abate e as plumas são pequenas. A maior parte acaba indo para o mercado de espanadores", explica o presidente da Associação dos Criadores de Avestruzes do Brasil (Acab), Luís Robson Muniz. "A pluma mais bonita, de 50 a 70 centímetros , cobiçada para o carnaval, vem do animal adulto, geralmente o reprodutor", explica. "Mas o maior interesse é o de comercializar a carne e a pele, bem mais valiosas." Os mercados carioca e paulista, segundo Muniz, consomem cerca de 25 toneladas por ano de plumas. "Desse total, o produto nacional deve atender a entre 2% e 3% da demanda. É muito pouco." O Brasil tem hoje 2,5 mil criadores de avestruz e a maior parte das fazendas de criadores está no Nordeste. Para Muniz, a venda de plumas brasileiras pode vir a se tornar significativa se crescer o consumo da carne. "Os produtores começam agora a investir nos embutidos de carne, de maior valor e ensaiam um início de exportação", afirma Muniz. "Se houver crescimento do consumo de carne, no prazo de três a cinco anos, as plumas podem ganhar um lugar de mais destaque no carnaval."

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