Carne argentina se distancia do resto do mundo

Pelo segundo ano consecutivo, país fica fora do 'top ten' de exportadores mundiais do produto

Ariel Palácios, correspondente de Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 02h12

Saborear um suculento baby beef argentino é um deleite cada vez mais difícil de desfrutar fora do país, já que a Argentina somente exportou 180 mil toneladas de carne bovina neste ano. O país, pelo segundo ano seguido, ficou fora do top ten dos exportadores de carne, produto do qual os argentinos se orgulham e consideram um dos mais destacados emblemas nacionais. A Argentina atualmente é o 11.º país em exportação de carne.

Em 2009, o país ficou no 4.º posto mundial de exportações de carne bovina, com 621 mil toneladas. Na época, o México somente vendia ao exterior 51 mil toneladas. Mas, meia década mais tarde, a Argentina vendeu apenas 28,98% daquele volume. Já o México aumentou suas exportações, chegando a 205 mil toneladas em 2013. Os exportadores do Paraguai, país que até poucos anos não entrava no ranking, elevaram suas vendas em 31,5% neste ano.

O Brasil lidera as exportações de carne bovina, com 1,8 milhão de toneladas. Na sequência está a Índia, com 1,6 milhão. Em terceiro, a Austrália, com 1,5 milhão. Os Estados Unidos ocupam o quarto lugar, com 1,1 milhão. A lista completa-se com Nova Zelândia, com 547 mil toneladas; Uruguai, com 380 mil; Canadá, com 320 mil; Paraguai, com 318 mil; União Europeia, com 260 mil; e México, com 205 mil toneladas.

Por trás do desaparecimento da Argentina no ranking dos top ten de exportadores bovinos está a decisão do governo da presidente Cristina Kirchner de restringir desde 2006 as vendas de carne bovina ao exterior, praticamente impedindo as exportações por meio de um sistema de cotas e licenças internacionais. O objetivo era redirecionar a carne ao mercado interno e provocar a queda de preços do produto, o preferido no cotidiano gastronômico dos habitantes do país.

Nunca antes na Argentina um governo havia proibido as exportações de carne. No entanto, a restrição às exportações - além de provocar a perda de mercados no exterior - também reduziu o estoque bovino argentino, que perdeu 10 milhões de cabeças. Desestimulados, milhares de produtores passaram a cultivar soja.

As restrições tampouco conseguiram reduzir o preço no mercado interno, já que, segundo o Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina (Ipcva), entre outubro de 2010 e setembro deste ano a alta foi de até 62,5%.

Segundo o presidente da Sociedade Rural, Luis Miguel Etchevere, a Argentina teve uma "década perdida" com o governo Kirchner. Já o presidente da Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina (Ciccra), Juan Schiariti, reclama: "Estamos perdendo os mercados internacionais, pois 92% da carne produzida vai para o mercado interno".

Desde o início das restrições, em 2006, 130 frigoríficos tiveram de fechar suas portas, provocando a demissão de 16 mil trabalhadores. Outras 190 mil pessoas vinculadas ao setor foram atingidas indiretamente.

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