Sergio Castro|Estadão
Sergio Castro|Estadão

Carnê de loja ganha força com a crise

Maior restrição dos bancos para aprovar crédito e avanço dos consumidores no limite do cartão fazem o varejo recorrer ao crediário para vender

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

31 Julho 2016 | 05h00

O velho carnê está ganhando força neste ano como meio de pagamento para impulsionar as vendas no varejo. Com a crise, os bancos que operam os cartões ficaram mais seletivos na aprovação do crédito. O avanço do desemprego, com fechamento de mais de meio milhão de vagas formais só no primeiro semestre, também piorou o quadro. Sem ter como comprovar a renda, o trabalhador informal tem dificuldade para obter crédito bancário.

O aumento do uso do carnê ficou nítido no final do primeiro semestre. Em junho, cresceram 24% as vendas parceladas no carnê ou boleto em relação ao mesmo mês de 2015 entre os varejistas clientes da MultiCrédito, empresa que faz análise de crédito para cerca de mil estabelecimentos.

“O carnê permite que a loja tenha uma linha de crédito com limites determinados por ela, fideliza o cliente e pode gerar novas vendas quando ele vem pagar a prestação”, explica o vice-presidente da MultiCrédito, Flávio Vaz Peralta.

Em junho, o número de lojas que procurou esse serviço aumentou 22% em relação ao mesmo mês de 2015. Móveis, materiais de construção, artigos de vestuário e óticas foram os segmentos em que o crediário próprio das lojas teve mais demanda. De acordo com a empresa, os Estados onde o uso do carnê mais cresceu foram Minas, Bahia e Pernambuco, além de municípios do interior paulista.

Mesmo consumidores que têm cartão de crédito passaram a recorrer ao carnê por já terem atingido o limite de endividamento. É o caso da diarista Maria Celeste de Souza Montenegro, mãe de quatro filhos. Com renda de R$ 1,8 mil, a diarista tem quatro carnês. Em três deles paga celulares que deu de presente para os filhos. No outro, comprou uma cama beliche. Os prazos dos carnês variam entre dez meses e um ano e, segundo ela, todos estão em dia. “O carnê é uma forma de eu conseguir comprar as coisas, porque já estourei o cartão. Pretendo fazer outro em janeiro para comprar um sofá.”

Nas oito lojas da Óticas Diniz localizadas em Osasco (SP) e Carapicuíba (SP), a fatia do carnê no faturamento da empresa dobrou no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2015. O crediário próprio hoje representa 8% das vendas. Os sócios Natan e Nilza Borges, que dirigem a franquia, explicam que o carnê tem sido alternativa para vender ao consumidor que atingiu o limite de crédito do cartão, especialmente o da classe C. “Hoje preciso oferecer essa opção, caso contrário perco 8% das vendas.”

Com 240 lojas, a maioria no interior de São Paulo, a Lojas Cem também sentiu a maior procura pelo crediário. Historicamente, a participação do carnê no faturamento da rede especializada em móveis e eletroeletrônicos girava em torno de 65%, e neste ano subiu para 70%. O avanço do crediário, bancado com recursos próprios, ocorreu em detrimento das vendas no cartão de crédito de terceiros. A empresa financia no carnê em até 20 vezes.

“O carnê sempre foi o nosso forte”, diz o supervisor, José Domingos Alves. Ele conta que mais clientes têm procurado esse meio de pagamento porque atingiram o limite de crédito ou para escapar das altas taxas do cartão em caso de atraso.

Promoção. A Casas Bahia, que nas origens teve o carnê como um dos pilares do crescimento, tem feito campanha para incentivar esse tipo de pagamento. Quem financia em 18 vezes e paga em dia tem a última parcela quitada pela loja. Procurada, a direção da Via Varejo, que controla a rede, não comentou. Fontes do setor afirmam que o vendedor é premiado se fechar negócio no carnê. Mas o incentivo ainda não apareceu no resultado. O relatório trimestral aponta que a fatia do carnê nas vendas encerrou o primeiro semestre em 12,5%, ante 13,2% no mesmo período de 2015.

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