EUGENIO GOULART/DIVULGAÇÃO
Loja do Atacadão, atacarejo do Grupo Carrefour, que comprou 30 lojas do Makro EUGENIO GOULART/DIVULGAÇÃO

Carrefour 'comprou' mercado, dizem consultores

Corrida da varejista francesa é para chegar e se consolidar em todas as regiões do País, aproveitando para conquistar a venda da grande massa de brasileiros com orçamento apertado e de empreendedores

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 16h40

Mais do que comprar as lojas, a decisão do Grupo Carrefour de adquirir 30 pontos de venda do atacadista Makro é interpretada por consultores especializados em varejo como uma corrida para “comprar” mercado. Antes de fechar esse negócio, o grupo francês já liderava o atacarejo, formato que mistura atacado com varejo, no Brasil com 187 lojas do Atacadão. Agora, esse número vai para 217. Parte das novas unidades está em regiões em que a companhia não tinha forte presença, como o Estado do Rio de Janeiro, onde terá sete novas lojas, e a região Nordeste, com oito pontos de venda.

Para Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral e fundador do Grupo GS& Gouvêa de Souza, nos últimos anos o Carrefour abriu distância em relação aos concorrentes, aproveitando as fragilidades dos rivais. “O Carrefour está comprando a aceleração da expansão”, diz o consultor.

Gouvêa lembra também o fato de o Brasil ser um dos mais importantes mercados globais para a companhia francesa. Em mercados maduros, ela enfrenta dificuldades e, em emergentes como a China, a empresa fechou a operação. “Por isso, a importância estratégica do Brasil para o Carrefour cresceu enormemente.”

O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), Claudio Felisoni de Angelo, também avalia que o negócio é uma “compra” de mercado. “Com os preços estáveis na economia e as margens de comercialização apertadas, o que está acontecendo neste momento é que os varejistas, para ampliar as vendas e o lucro, precisam ocupar os espaços físicos onde não estão presentes ou têm pouca atuação”, afirma. Apesar de não ter disponível um ranking dos atacarejos, Felisoni ressalta que o Carrefour está crescendo rapidamente e consolidando ainda mais a liderança nesse segmento.

Gouvêa de Souza destaca que o conceito de atacarejo no Brasil é o mais vencedor entre outros formatos, especialmente no varejo alimentar. “Tudo indica que essa tendência deve continuar nos próximos anos, tanto entre consumidores pessoas físicas  como transformadores, que são pequenos empreendedores. O consultor explica que, com a lenta recuperação da economia, ganha força a busca por preço entre os brasileiros. Todo mundo está fazendo conta e procurando alternativas mais acessíveis. “Nesse contexto, o varejo de valor se faz mais forte ainda.”

Outra vertente da sucesso do atacarejo são os empreendedores individuais, que se abastecem nesse formato de lojas para tocar um negócio próprio, caso de pizzarias, restaurantes, entre outros. Nas contas de Gouvêa de Souza, os empreendedores  representam 50% do negócio do atacarejo.

Concentração

Apesar de o atacarejo ter atraído novas empresas, esse tipo de loja está concentrado em grandes grupos, porque são pontos de vendas grandes, que necessitam de investimentos elevados. Logo após a compra do Walmart pelo Grupo Big, por exemplo, a empresa anunciou que teria como um dos focos as lojas de atacarejo, com a bandeira Maxxi.

No entanto, é crescente o número de pequenos grupos que concentram esforços e se arriscam nesse setor com pelo menos uma loja. “Quem pode está criando um atacarejo para chamar de seu”, conclui Gouvêa de Souza.

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Carrefour compra 30 lojas do Makro fora de São Paulo por quase R$ 2 bilhões

A rede francesa vai transformar as unidades compradas em Atacadão e reforça a operação no País; o Makro vai se concentrar apenas em São Paulo, mantendo 24 lojas no Estado

Fernando Scheller e Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 09h30

O Carrefour anunciou neste domingo, 16, a compra de 30 lojas da rede Makro, por R$ 1,95 bilhão. Com o negócio, a gigante francesa do setor de supermercados dá um salto na operação de atacarejo com a bandeira Atacadão e, somado com a abertura de 20 lojas prevista para 2020, ganha o equivalente a um ano e meio de faturamento numa tacada só, segundo o presidente do Grupo Carrefour, Noël Prioux. A rede vai transformar as lojas do Makro em unidades do Atacadão, conforme adiantou o Estadão no último dia 6.

"Essa transação é o movimento mais importante para o Grupo Carrefour no Brasil desde a compra do Atacadão em 2007", afirmou, em comunicado, Alexandre Bompard, presidente do Conselho de Administração  e CEO do Grupo Carrefour.

A negociação, que vai permitir maior atuação da rede no Rio de Janeiro, com sete lojas, e nos Estados do Nordeste, com mais oito lojas, também envolveu a compra de 14 postos de combustível e de 22 imóveis. "Essa transação é um acelerador do crescimento do Carrefour no Brasil, estamos prontos para fazer a integração e agora é esperar a decisão do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica)", disse ao Estadão Prioux.

O grupo mantém o plano de investir R$ 2 bilhões este ano. A compra das lojas do Makro será alvo de captação extra no mercado na época em que for quitada a aquisição, após a aprovação no Cade,  explicou ao Estadão Sébastien Durchon, CFO do Grupo Carrefour Brasil. 

As unidades adquiridas devem ser convertidas em Atacadão em até 12 meses. Com a implantação do modelo de operação, essas lojas devem ter aumento de até 60% no faturamento, segundo Prioux. Dos R$ 62 bilhões que o Carrefour faturou no ano passado, R$ 42 bilhões vieram dessa bandeira. O faturamento nesse segmento deve crescer R$ 2,8 bilhões com o novo investimento e o grupo vai aumentar de 187 para 217 as lojas Atacadão.

Makro vai focar em São Paulo

O Makro, de propriedade do grupo holandês SHV, não vai sair do País. O objetivo, segundo Roger Laughlin, presidente da companhia, é focar as operações da marca em São Paulo, mantendo 24 pontos de venda no Estado.

Com a venda das 30 unidades para o Carrefour - todas fora de São Paulo -, o total de unidades do Makro cai para 38. Laughlin afirmou ao Estadão que a companhia ainda negocia a venda de mais 14 unidades para outras redes de varejo. Com o dinheiro do negócio, o Makro pretende modernizar as lojas de São Paulo, especialmente no que diz respeito à oferta de perecíveis. “É um novo negócio, praticamente um modelo de atacarejo”, disse o executivo. “Temos massa crítica em São Paulo, e um bom market share (participação de mercado) relativo. Por isso vamos focar as nossas operações aqui.” 

Junto com a transformação das 24 lojas que continuarão com a marca Makro, a SHV pretende também acelerar a estratégia de atendimento personalizado ao mercado de alimentação fora do lar, o chamado food service. Além disso, a companhia diz que poderá abrir lojas menores, de cerca de um quarto do tamanho atual, cuja média é de 8 mil metros quadrados.

Das 30 unidades vendidas ao Carrefour, 22 eram de propriedade do Makro, enquanto 8 eram alugadas. A rede teria intenção de aproveitar pelo menos parte dos funcionários das lojas vendidas nas operações do Atacadão. 

Além de estar presente no Brasil, o grupo SHV tem operações com a bandeira Makro na Argentina, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. Nesses países, de acordo com o presidente do Makro, a participação de mercado da marca é mais relevante do que no Brasil. Apesar de ainda estar presente na região, a SHV se desfez da operação na Europa há mais de 20 anos. Hoje, a marca é administrada pela rede alemã Metro no continente.

Com faturamento de cerca de R$ 7 bilhões, o Makro vinha organizando sua operação há alguns anos para uma venda. A companhia fechou lojas nos últimos anos e também modificou sua operação, antes voltada apenas a atacadistas, para aceitar cartões de crédito e débito, atendendo ao público geral.

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‘Para nós, o que mais importa é a localização das lojas’, diz presidente do Carrefour

Questionado se unidades do Makro são deficitárias, presidente do Carrefour afirmou ao 'Estado' que razão da compra foi garantir os pontos

Márcia De Chiara , O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 05h00

Treze anos depois de estrear no segmento de atacarejo, formato de lojas que mistura o atacado com o varejo, com a compra do Atacadão, o Carrefour volta à cena e vai desembolsar R$ 1,95 bilhão para adquirir 30 lojas do Makro, da holding holandesa SHV. O atacarejo respondeu por mais de 50% das vendas do grupo no Brasil, de R$ 62 bilhões no ano passado, e do lucro também. 

Depois de aprovado o negócio pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o grupo pretende fazer uma nova captação no mercado para quitar a compra. Os recursos usados para a aquisição estão fora do R$ 2 bilhões reservados para investimentos no Brasil este ano.

Após fechar o negócio, ontem pela manhã, Noël Prioux, presidente do Grupo Carrefour Brasil, e Sébastien Durchon, diretor financeiro, conversaram com o Estado por telefone e deram detalhes da transação. Questionado se as lojas compradas do Makro são deficitárias, Prioux disse que não se importa com o resultado da empresa e que o mais importante é a localização. “Esse negócio vai aportar mais vendas e valorização e essa é a razão pela qual estamos dispostos a pagar esse preço”, disse Prioux. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Qual é o risco de o Cade não aprovar a transação por causa da concentração de mercado?

Noël Prioux: Dependendo da loja do Atacadão, entre 50% e 60% dos clientes são consumidores finais e frequentam outros formatos de varejo. O cliente usa oito tipos de lojas. A nossa visão é que o mercado é global e o cliente escolhe onde quer comprar. O Atacadão tem muitos concorrentes. Se o Cade analisar dessa maneira não teremos problemas. 

Há informações de que as lojas do Makro são deficitárias. O Carrefour está comprando prejuízo?

Prioux: Não importa o resultado das empresas que compramos. Nós temos o nosso modelo. Mais importante para nós é a localização. A partir disso vamos aplicar o nosso modelo. Esse negócio vai aportar mais vendas e valorização. É a razão pela qual estamos dispostos a pagar esse preço.

Qual será a sinergia dessa compra?

Sébastien Durchon: Vamos converter as lojas e implantar o nosso modelo. Isso quer dizer que a venda por metro quadrado vai aumentar bastante, 60% mais ou menos. Do ponto de vista da estrutura de custos, o aumento será muito marginal. Já vínhamos abrindo 20 lojas por ano. Serão mais vendas com pouco custo a mais. 

Qual é a escala que o Atacadão ganha com esse negócio?

Durchon: O Atacadão já é a maior empresa de atacarejo do País, ele tem as melhores condições de compra. As lojas adquiridas vão se beneficiar disso e não podemos esquecer os resultados financeiros. Dentro do grupo Carrefour Brasil, o banco Carrefour representa 30% do resultado operacional. Vamos disponibilizar nas lojas compradas o nosso cartão Atacadão. Esse negócio vai ajudar o banco também. Serão 30 lojas a mais, um resultado adicional para o banco. 

Qual é a representatividade do Atacadão no Carrefour Brasil?

Durchon: Hoje o Atacadão representa a maior fatia do faturamento e é o formato que proporciona mais lucro. Em 2019, o Ebtida (lucro antes de imposto, juro e amortização) foi de R$ 4,186 bilhões e mais da metade veio do Atacadão. É o modelo que mais cresce em número de lojas, mas todos os formatos do Carrefour estão crescendo muito, incluindo o e-commerce. Vamos manter o ritmo de abertura de lojas também, investindo em todos os formatos. 

Os recursos para compra das 30 lojas do Makro sairão do total dos R$ 2 bilhões reservados pelo Grupo Carrefour para investir este ano no País? 

Durchon: O recurso para compra do Atacadão é algo a mais do que os R$ 2 bilhões previstos para investir este ano. A compra de 30 lojas do Makro não impacta o plano de investimento normal do Grupo no Brasil. Boa parte do plano de expansão de 2020 (que prevê a abertura de 20 lojas da bandeira Atacadão, entre outros) está sendo executada. Se o Cade aprovar, vamos pagar um pouco menos de R$ 2 bilhões e financiar essa cifra com uma dívida adicional a ser contratada no mercado. 

Os funcionários das lojas compradas serão mantidos?

Prioux: É um pouco cedo para dizer. Vai depender muito do que será aprovado no Cade. Mas com a reabertura da loja com a bandeira Atacadão, vamos precisar de funcionários e o plano é aumentar a venda. Não sei se serão os mesmos funcionários. Mas, com certeza, vamos manter um número muito alto de empregos. Para vender mais, precisamos de mais funcionários. Vamos contratar mais. 

Por que o Carrefour não fez uma oferta para todas as lojas do Makro?

Prioux: O Makro não colocou tudo à venda. Eles vão focar em São Paulo. É uma boa estratégia para o Makro também. Para nós, é bom porque vamos poder consolidar outras lojas e expandir a operação pelo País, especialmente no Rio de Janeiro e no Nordeste, onde serão sete e oito lojas novas, respectivamente. Para os dois, acho que foi um bom acordo, realmente. 

Há sobreposição de lojas compradas sobre as que o Atacadão já opera?

Prioux: Muito pouco. Não há sobreposição. 

Qual é o desdobramento dessa compra no comércio online?

Proiux: O comércio online para nós é outra coisa. Não temos online para Atacadão. No futuro poderemos usar as lojas do Atacadão como centros de distribuição para as entregas do comércio online. 

Quem procurou quem para fazer negócio?

Durchon: Sempre conversamos com o Makro. Foi uma transação natural para os dois lados. 

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