Carrefour reforça aposta no Brasil

Grupo francês escala executivo da área financeira para comando da operação no País e aumenta expectativa por abertura de capital na BM&FBovespa

VANESSA STECANELLA, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2013 | 02h14

A indicação de Charles Desmartis para o posto de presidente do Brepa, holding do Carrefour no Brasil, sinaliza, na avaliação de profissionais do mercado, que o grupo francês finalmente vai apostar as fichas no Brasil, o seu segundo mercado depois da França. A partir de 4 de novembro, o executivo coordenará os trabalhos do Carrefour, hoje liderado por Luiz Fazzio.

No Brasil, o Carrefour reúne hipermercados, supermercados de bairro e serviços financeiros. Também controla o Atacadão, que mistura vendas no atacado e varejo (o chamado atacarejo), que está sob o comando de José Roberto Mussnich.

Profissionais do mercado lembram que o presidente executivo do Grupo, Georges Plassat, já havia declarado que preparava um plano de expansão para Brasil e China. A estratégia nos dois países emergentes deve ser anunciada no começo de 2014. No mercado, a percepção sempre foi de que os recursos para essa expansão viriam de uma capitalização em bolsa da unidade brasileira.

Em meio ao anúncio do novo comando no Brasil, feito hoje, ganhou espaço na imprensa a notícia de que o Carrefour já teria contratado bancos de investimentos para iniciar, em janeiro, uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).

Procurada, a companhia não quis comentar a informação e afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que a nomeação de Desmartis para o comando da holding no Brasil não tem qualquer relação com uma possível abertura de capital. A perspectiva de que a operação na bolsa possa ocorrer é reforçada pelo fato de o executivo ter ficado à frente do controle financeiro do grupo desde 2011.

Abertura de capital. O desempenho da operação brasileira, visto como "excelente" pela cúpula na França, alimenta frequentemente rumores de que o grupo Carrefour estuda um IPO no Brasil, em especial para o segmento de atacarejo. Em março, entretanto, o presidente executivo da companhia, Georges Plassat, afirmou que o Atacadão é brilhante como um braço do Carrefour e que a companhia não considera separá-lo do restante da operação.

"A história dessa abertura de capital do Atacadão é um pássaro que passa e volta há bastante tempo no céu brasileiro, mas não tem fundamento", disse durante uma teleconferência sobre os resultados.

Em junho, a imprensa internacional noticiou que os franceses estudavam a venda de seus negócios na China e em Taiwan, em paralelo a uma oferta em Hong Kong ou a formação de uma parceria reunindo alguns desses ativos com o de outra companhia. O Brasil não foi citado. No entanto, a vinda de Georges Plassat para o Brasil, em setembro, gerou especulações de que o País teria sido incluído entre os alvos de análises para abertura de capital.

Para analistas, o Brasil está no foco da matriz porque compensa a fraca performance das unidades francesas, prejudicadas pela crise n a Europa. As vendas na América Latina somaram € 3,711 bilhões, uma expansão de 11,2% puxada pela "excelente performance" do Brasil. Na França, o crescimento foi de apenas 1,4%.

Segundo o grupo, as vendas nas unidades latino-americanas só não foram maiores por causa do impacto negativo de 20% da desvalorização do real brasileiro e do peso argentino em relação ao euro.

No mercado, a percepção é de que uma abertura de capital pode acelerar a expansão no País. "Em conversas com a gestão local do Carrefour notei que estão ansiosos para acelerar a expansão. Certamente, uma parte desse crescimento se dará via Atacadão, mas provavelmente a maior parte virá dos hipermercados", comentou um profissional do setor.

Richard Cathcart, analista do Espírito Santo Investment Research, observa, em relatório, que não é a primeira vez que surgem boatos sobre um IPO do Carrefour no Brasil, entretanto, pela primeira vez, foram citados os nomes de bancos (Itaú BBA e Credit Suisse) que estruturariam a operação. As instituições foram citadas em reportagem do Portal Exame na noite de quinta-feira.

Apesar de considerar a possibilidade de uma oferta primária, Cathcart avalia que uma distribuição de ações aos acionistas existentes do Carrefour (a controladora é listada em Paris) poderia reunir uma parte importante do capital. "Isso iria seguir o procedimento utilizado na ex-cadeia de desconto Dia, do Carrefour, que foi listado em Madrid em 2011, com 100% das ações distribuídas, proporcionalmente, aos acionistas Carrefour", lembra.

No geral, o mercado vislumbra espaço para o avanço da rede, que tem foco em atacado e supermercado, enquanto o Grupo Pão de Açúcar, a maior varejista do País, está direcionada para atacado e mercados de vizinhança.

Profissionais do setor, porém, questionam o potencial dessa eventual abertura de capital diante do atual cenário. Já se aguarda uma oferta da ViaVarejo e a venda de um bloco de ações do Pão de Açúcar, detido por Abilio Diniz, ex-controlador, que se desligou recentemente da companhia após desentendimentos o Grupo Casino, o novo controlador.

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