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Carregamento caro

O Banco Central reconheceu ontem que o custo da formação das reservas internacionais no ano passado foi de R$ 26,6 bilhões. Cálculos preliminares dão conta de que, neste ano, será alguma coisa entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões, três vezes o que vai custar o Programa Bolsa Família.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Enquanto isso, o governo promete (e até agora não demonstrou como fará) reduzir as despesas públicas em R$ 50 bilhões. Outros R$ 50 bilhões serão usados na capitalização do BNDES...

Pergunta que não quer calar: vale a pena gastar tanto para manter essas reservas se elas não cumprem mais nem a função de blindar o País contra crises nem ajudam a conter a valorização do real diante do dólar? Convém trocar tudo isso em miúdos.

Quando compra moeda estrangeira para formar reservas, o Banco Central injeta reais no mercado, os mesmos que são dados em pagamento. Para evitar que esses reais provoquem inflação, tem de trazê-los de volta com operações de esterilização. Ou seja, o Banco Central tem de colocar no mercado volume equivalente de títulos públicos. Quem compra esses títulos recolhe reais ao Banco Central.

Esses títulos públicos pagam em torno dos juros básicos (Selic), que hoje são de 11,25% ao ano. O pagamento desses juros é despesa do Tesouro ou do Banco Central. Em compensação, os dólares comprados para a formação de reservas são aplicados em títulos de outros países, a maioria deles do Tesouro americano, que rendem cerca de 1,5% ao ano. A diferença entre o que o Banco Central paga para manter as reservas e o que recebe por elas é o que se chama custo de carregamento.

Ontem, o Banco Central apontou que, em 2010, recebeu 1,88% de juros pelos títulos em que as reservas foram aplicadas e teve de pagar juros de 7,74%. As reservas em 2010 foram de R$ 455 bilhões. O custo de carregamento, de R$ 26,6 bilhões, uma conta que em geral não é desembolsada à vista, mas incorporada à dívida.

As reservas já estão nos US$ 305 bilhões, cerca de R$ 508 bilhões. Se a mesma relação de juros se mantiver, apenas o atual nível de reservas custaria ao País cerca de R$ 30 bilhões em 2011. Mas esse custo deve subir por dois fatores: porque, em consequência da atual política, as reservas vão aumentar; e porque os juros internos devem subir mais do que os externos.

No início desta Coluna se afirmou que mais reservas não melhoram a blindagem da economia. Fácil defender esse ponto de vista. Se reservas de US$ 200 bilhões foram mais do que suficientes para transformar em marolinha a maior crise global desde os anos 30, não será necessário mais para defender o País de novos solavancos, provavelmente menos intensos.

O Banco Central continua empilhando reservas no pressuposto de que a compra de dólares evita ainda maior valorização do real. Esta ideia precisa de mais questionamento. Isso aí é como a gravidade. Quanto maior o volume de matéria (massa), mais matéria estará atraindo. Quanto mais crescerem as reservas, mais moeda estrangeira o Brasil irá atrair e tanto mais o Banco Central seguirá comprando.

Continuará passando a sensação de que está agindo. E, no entanto, mais terá de agir para evitar que a cotação do dólar siga despencando. Mas, outra vez, a que custo? Vale a pena?

CONFIRA

Consulta

Preocupado com as advertências de que a disparada da inflação provocou a perda do controle das expectativas do mercado, o Banco Central fez uma consulta extra entre os mesmos 100 analistas, consultorias e instituições que respondem semanalmente à Pesquisa Focus.

Alinhamento

Uma vez tabuladas as respostas, o Banco Central entendeu que não há grandes discrepâncias entre as projeções que ele próprio faz e as projeções desses analistas.

As avaliações

O mercado avalia que as medidas macroprudenciais que aumentaram o compulsório dos bancos e dificultaram o crédito equivalem a uma elevação de 0,75 ponto porcentual dos juros básicos (Selic). Entendeu, também, que o superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) será de 2,7% do PIB (o Banco Central projeta 2,9% do PIB). E que o crescimento potencial da economia é de 4,4% (o Banco Central imagina 4,5%).

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