Daniel Teixeira/AE-4/12/2010
Daniel Teixeira/AE-4/12/2010

Carro brasileiro tem ''mais conteúdo''

Renda maior da população eleva procura por modelos com itens como direção hidráulica, ar-condicionado e câmbio automático

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

O número de carros novos no Brasil equipados com ar-condicionado triplicou. Itens como trio elétrico, direção hidráulica, câmbio automático, airbag e freio ABS também estão cada vez mais presentes nos modelos vendidos no País. Além de comprar mais, movimento que ocorre há sete anos consecutivos, os brasileiros adquirem modelos mais equipados, revelando outra face do aumento da renda da população.

No país do carro popular, a direção hidráulica e o vidro elétrico eram itens opcionais instalados em cerca de 20% a 30% dos carros novos há pouco mais de dez anos. Hoje, caminha para 100%, afirma Flávio Campos, diretor de engenharia da fabricante de autopeças Delphi e diretor regional da SAE Brasil. "Com renda melhor, o consumidor pode buscar mais conforto no carro."

Estudo feito pela Delphi mostra que, de 2004 para 2010, saltou de 1 milhão para 3 milhões o total de veículos vendidos no Brasil e na Argentina com ar-condicionado. Campos soma os dois países porque boa parte dos modelos feitos no Brasil é vendida no vizinho e vice-versa.

O airbag e o ABS, praticamente ausentes nos automóveis há sete anos, em 2010 equipavam cerca de 1 milhão dos modelos adquiridos por brasileiros e argentinos. O rádio, antes instalado no mercado paralelo, por ser mais barato, hoje sai de fábrica em grande parcela dos veículos.

Para o diretor de marketing da General Motors, Gustavo Colossi, equipamentos que eram opcionais, vistos como de luxo, passaram a itens de conforto e tornaram-se necessidade.

Ar-condicionado, diz ele, é o melhor exemplo. Carros na faixa de preço de R$ 40 mil saem de fábrica com o equipamento, mas há cinco anos eram opcionais. Colossi ressalta também a questão regional. No Nordeste, de 80% a 90% das vendas de modelos básicos, como Celta e Classic, têm ar, por causa do clima quente. Nas grandes capitais, é visto também como item de segurança, pois permite ao condutor manter o vidro fechado.

A direção hidráulica, antes disponível em modelos top de linha, começa a sair de fábrica em carros mais em conta, como o Prisma, que custa a partir de R$ 31 mil. O airbag duplo, até pouco tempo instalado só em modelos de luxo como Vectra e Omega, vendidos entre R$ 60 mil e R$ 128 mil, agora é de série em versões do Agile que custam cerca de R$ 45 mil.

"Em todos os modelos na faixa de R$ 90 mil, como o Malibu, a transmissão automática agora é mandatória", diz Colossi, ao citar outro exemplo. Há oito anos, o Omega, importado da Austrália, tinha câmbio manual.

Na linha Honda, composta por Fit, City, Civic, Accord e CR-V, com preços entre R$ 54,9 mil e R$ 144,5 mil, 67% das vendas são de versões com transmissão automática, participação que era de 51% em 2006.

Parcelas diluídas. Henrique Sampaio, gerente de marketing de produto da Volkswagen, comenta que a facilidade no crédito também colabora para ampliar a frota de carros mais equipados, pois o custo maior é diluído nas parcelas. Por ordem, os clientes da marca demandam direção hidráulica, ar-condicionado e pacote elétrico.

De 2005 para cá, as vendas de veículos Volkswagen com direção hidráulica aumentaram 230%. Com ar-condicionado, a alta foi de 200% e com trio elétrico, de 150%.

Ao se darem conta do aumento da demanda pelos chamados opcionais, as montadoras criaram kits com vários itens. Se, de um lado consumidores reclamam de ter de adquirir um "pacote", quando querem, por exemplo, apenas o ar-condicionado, por outro, o preço do conjunto sai em média 30% a 35% mais barato do que se fossem adquiridos separados, calcula Sampaio.

Maior demanda também reduz preços. Há cerca de dez anos, o sistema de airbag estava apenas nos carros importados e custava cerca de R$ 10 mil. "Hoje, oferecemos por R$ 1 mil em alguns modelos", diz Sampaio. A obrigatoriedade do equipamento de segurança, assim como do ABS - que está sendo adotada de forma escalonada desde o ano passado - , também tende a reduzir custos.

Outros itens que começam a cair no gosto do consumidor, na opinião de Sampaio, são o sensor de estacionamento (em média R$ 700) e câmbio automatizado (R$ 2,5 mil). Itens de tecnologia e comunicação, como computador de bordo e GPS também estão sendo requisitados pela camada mais alta de consumo, afirma Cláudia Reichel, gerente de pesquisa de mercado para a Ford América do Sul.

Salto

O mercado brasileiro saiu de venda anual de 1,57 milhão de veículos em 2004 para 3,5 milhões no ano passado. Para este ano, a previsão das montadoras é de chegar a quase 3,7 milhões.

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