Carro chinês avança nos emergentes

China representa ameaça a europeus, japoneses e americanos nos países em desenvolvimento

O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h06

Durante mais de dez anos, as montadoras do mundo todo aguardaram ansiosamente o dia em que a China começaria a exportar seus automóveis para o Ocidente inundando os mercados. Agora parece que não é esta a ameaça com a qual devem se preocupar.

A China está vendendo apenas alguns milhares de carros ao ano para a União Europeia e praticamente nenhum para os Estados Unidos. Mas as exportações da China para os mercados emergentes começam a aumentar enquanto seu mercado interno desacelera e suas montadoras investem bilhões em novas fábricas. Nas estradas de países como Argélia, Brasil, Irã, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul é cada vez maior a presença de automóveis produzidos por empresas como Geely, Great Wall Motors e Chery.

Compradores menos afluentes, de Santiago do Chile a Bagdá, começam a comprar os baratos carros chineses como alternativa aos automóveis e motocicletas para a faixa de menor poder aquisitivo, vendidos pelas multinacionais. As exportações chinesas neste setor subiram 21% nos primeiros cinco meses deste ano, e 43% no período de maio de 2011 a maio de 2012.

Os compradores são homens e mulheres como Jessica González, engenheira agrônoma de 43 anos de Santiago. Depois de ter vários carros usados, ela queria comprar um automóvel zero quilômetro, mas os modelos mais populares de marcas japonesas, europeias e americanas estavam acima da sua faixa de preço. Embora seu mecânico criticasse a qualidade dos carros chineses, ela acabou escolhendo um Chery S1 porque é espaçoso e bem equipado. "O fator preço é praticamente decisivo", ela disse. "Paguei US$ 5.500 redondos. Um Toyota com características semelhantes custa em torno de US$ 12 mil."

As montadoras chinesas anunciaram que estão se preparando para uma expansão maior das exportações para os países em desenvolvimento.

"É mais fácil", afirmou Steven Wang, vice-gerente-geral de exportações da Great Wall Motors Company. "Na Europa, as empresas que pretendem entrar no mercado precisam obedecer a uma legislação exigente, e na Europa e nos EUA, os clientes preferem permanecer fiéis a marcas conhecidas."

As companhias chinesas representam uma ameaça em potencial para as divisões de companhias como General Motors, Ford, Toyota, Volkswagen e Fiat, que se voltam para os mercados emergentes em busca de crescimento e observam as concorrentes chinesas com graus variados de preocupação.

Crescimento. No ano passado, as vendas anuais de automóveis nos países em desenvolvimento, além da China, subiram 45% desde 2005, para 21,3 milhões entre carros e veículos comerciais leves, segundo a LMC Automotive, uma companhia global que compila dados para o setor. Incluindo a China, em 2010 os mercados emergentes superaram pela primeira vez os países industrializados quanto ao número de automóveis e veículos comerciais leves vendidos. Desde 2005, as vendas de carros nos países industrializados caíram 17,4%, para 36,2 milhões de carros e veículos comerciais leves.

Entretanto, o mercado dos países industrializados continua sendo mais valioso que os mercados emergentes, porque os preços costumam ser consideravelmente mais altos. Mas, como os países em desenvolvimento permitem um crescimento maior, "devemos estar extremamente atentos às marcas" que surgem na China, alertou Michael Manley, diretor da Chrysler.

As montadoras ocidentais andaram comprando uma grande variedade de carros chineses para depois desmontá-los para estudar a qualidade e o provável custo dos componentes principais. "Realizamos um processo muito completo de análise competitiva" para avaliar as concorrentes chinesas, disse Kumar Galhotra, vice-presidente da Ford para desenvolvimento de produtos na Ásia, Pacífico e África.

Até o momento, a qualidade dos melhores carros chineses fica bem aquém dos seus equivalentes ocidentais, e deixa também muitos clientes chineses insatisfeitos.

Quando a empresa de consultoria J.D. Power & Associates pesquisou os compradores de carros novos na China, no ano passado, verificou que eles haviam encontrado 232 problemas de qualidade para cada 100 carros das marcas chinesas adquiridas. Enquanto isso, para cada 100 carros de marcas internacionais, foram encontrados 131 defeitos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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