Carro zero fica mais distante e custa ao menos 40 salários mínimos

Há quatro anos, 28 salários de referência eram suficientes para adquirir modelo novo; pandemia acentua elitização de veículos

Eduardo Laguna e Wesley Gonsalves - O Estado de S.Paulo

Em um mercado em que os modelos populares estão à beira da extinção e o custo de financiamento sobe em velocidade que não se via havia 13 anos, sair de carro novo de uma concessionária vem se tornando um sonho inviável a um número cada vez maior de brasileiros. 

Se, quatro anos atrás, 28 salários mínimos eram suficientes para comprar um automóvel, hoje não se adquire um zero quilômetro por menos de 40 salários mínimos. Isso porque o salário mínimo, com alta de 27%, não conseguiu acompanhar o salto três vezes maior no período (83%) do preço do carro mais barato do mercado – hoje, o subcompacto Kwid, da Renault, que custa R$ 48,8 mil.

Levantados com exclusividade para o Estadão/Broadcast pela consultoria Jato Dynamics, os dados oferecem um retrato do abismo entre a renda e preço dos veículos. Revelam também em números como a transição dos carros compactos a modelos maiores, tanto em tamanho quanto em conteúdo tecnológico, mudou o curso de um produto que vinha, por muito tempo, tornando-se mais acessível.

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Carros são montados em fábrica; Fenabrave prevê crescimento de 4,6% das vendas de veículos em 2022 Foto: Werther Santana/Estadão

A pandemia ajudou a acentuar bastante a elitização no consumo de automóveis porque as restrições de oferta abriram margem ao repasse de aumentos de todo tipo na estrutura de custo das montadoras: do frete aos materiais usados na produção, passando pela energia, e com tudo maximizado pelo câmbio mais caro. 

Mudança

A guinada das montadoras tem origem anterior à crise sanitária. Nem a indústria, decidida a voltar a ser rentável em vez de brigar por participações de mercado a qualquer preço, nem o consumidor de menor renda estão dispostos a pagar a conta das tecnologias de controle de emissões e segurança que vêm se tornando obrigatórias nos carros fabricados no País. 

Assim, as montadoras decidiram se voltar nos últimos cinco anos a um público de maior poder aquisitivo, investindo em modelos maiores – especialmente utilitários esportivos (SUVs) e picapes.

Carro zero Versus renda

Levantamento mostra um retrato do abismo entre renda e preço dos veículos

Nota: *Preço sugerido da versão mais barata no primeiro dia útil de cada ano

Fonte: Jato Dynamics

Custo

O resultado é que modelos populares estão sendo aposentados – entre eles, o Uno e, futuramente, o Gol –, enquanto os carros que seguem no mercado estão sendo vendidos, na média, por mais de R$ 120 mil. Antes da pandemia, essa conta ficava abaixo dos R$ 100 mil, conforme dados da Bright Consulting.

O mercado de carros teve dois momentos distintos nas últimas duas décadas. Durante a maior parte desse período, entre 2000 e 2018, o produto se tornou mais acessível, e com anos marcados por incentivos do governo, como o IPI reduzido, o consumo anual de automóveis de passeio chegou a passar das 3 milhões de unidades – o dobro do ano passado.

Porém, após esse ciclo, o movimento se inverteu, com o carro voltando a se distanciar do alcance dos brasileiros nos anos seguintes, marcados pela ascensão dos SUVs sobre os segmentos de entrada e avanços do padrão tecnológico em meio à globalização das plataformas.

Numa comparação que ilustra bem a diferença de viabilidade do produto, o brasileiro precisa trabalhar três vezes mais do que o americano para conseguir comprar um automóvel, se considerado o salário mínimo de cada país.

Nos Estados Unidos, o modelo mais barato é o Chevrolet Spark, que em sua versão mais básica custa US$ 13,6 mil, ou 12 salários mínimos de um trabalhador de lá com jornada de 40 horas semanais.

Diretor de desenvolvimento de negócios da Jato, Milad Kalume Neto diz que, mesmo se o dólar se estabilizar abaixo de R$ 5 no futuro, a possibilidade de o preço de entrada do automóvel voltar ao valor mais próximo de R$ 40 mil esbarra na prioridade da indústria. 

“Para lançar veículos mais acessíveis, a indústria precisará de tempo para amortizar investimentos realizados nos últimos anos e realizar mais lucros. Não podemos nos esquecer que o setor vem se recuperando de três crises nos últimos anos sete anos”, afirma Kalume Neto, referindo-se à recessão doméstica de 2015/2016, a pandemia e, agora, a crise de oferta causada pela escassez de componentes eletrônico.

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Carro usado ‘envelhece’ para caber no orçamento do brasileiro

A demanda aquecida pressiona o preço do automóvel usado e obriga o consumidor a comprar modelos mais antigos

Eduardo Laguna, Wesley Gonsalves - O Estado de S.Paulo

A falta de modelos mais populares nas concessionárias e a disparada nos preços do carro zero quilômetro empurraram os brasileiros para o mercado de usados, no qual as vendas batem recorde. O consumidor, porém, tem de rever muitas vezes o seu padrão de exigência para encontrar um veículo que se encaixe em sua realidade financeira.

Segundo levantamento baseado em anúncios publicados no portal da OLX, em 2018 o consumidor conseguia encontrar carros com dois anos de uso por R$ 55 mil. Hoje, só é possível optar por automóveis com cinco anos de uso por esse mesmo valor, corrigido pela inflação. Já os carros com dois anos de uso saem por R$ 80 mil em anúncios divulgados na plataforma.

As vendas de carros usados subiram 18,8% no ano passado, superando pela primeira vez a marca de 11 milhões de unidades desde que o levantamento começou a ser feito em 2004 pela Fenabrave, a associação das concessionárias de veículos. Para cada carro zero quilômetro emplacado, são vendidos quase seis usados.

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Gestor finaceiro Newton Nagoshi comprou um carro seminovo Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

Embora as pessoas se mostrem mais interessadas em ter carros para evitar o transporte coletivo, os preços são o maior obstáculo. “Mesmo em meio à crise, a intenção de compra de veículos cresceu. Como as concessionárias não estão com estoque elevado, a margem para negociar o preço é limitada”, diz o economista-chefe da OLX Brasil, Danilo Igliori.

Após quase dois anos sem carro próprio e utilizando os serviços de transporte por aplicativo, o gestor financeiro Newton Nagoshi se viu obrigado a comprar um veículo novamente. Entre os principais motivos estão a necessidade de ir ao trabalho e a dificuldade de se locomover utilizando os serviços da Uber e 99, que sofrem com redução de motoristas. Com os preços dos zero quilômetro nas alturas, a opção foi buscar modelos usados e mais acessíveis.

“Queria gastar em torno de R$ 70 mil com algum modelo das montadoras japonesas, mas o carro novo está muito mais caro, chegando a custar R$ 130 mil, por isso comprei um usado”, diz. 

JUROS EM ALTA

Com a disparada dos preços, o consumidor está se deparando com um avanço das taxas de financiamento. No caso de Nagoshi, para fugir dos juros mais altos, a alternativa foi pesquisar os preços e adquirir o veículo seminovo à vista, assim reduzindo o valor final pago pelo bem. 

Depois de descer de escada, os juros praticados no segmento estão subindo de elevador. De volta ao nível de 2016, os financiamentos de veículos são concedidos agora com juros anuais de 27,5%, conforme as estatísticas de crédito do Banco Central (BC). Em 12 meses, a taxa subiu 8,5 pontos porcentuais, uma alta que não se via desde novembro de 2008.

Essa é a maior escalada de custo do financiamento automotivo em 13 anos, alimentada pela subida da Selic, pelo maior risco de crédito em meio à crise econômica e pelo endividamento das famílias. 

Analistas avaliam que as condições financeiras mais restritivas tendem a moderar a demanda. Com consumo e oferta começando a convergir a um ponto de equilíbrio, o preço dos carros deve voltar a acompanhar a inflação média. Em 2021, a alta de 16,1% do automóvel novo superou os 10,1% marcados no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação.

“Esperamos uma desaceleração na tendência de alta dos preços a partir do segundo trimestre”, diz Gabriela Joubert, analista-chefe do banco Inter.

Para o consultor Cassio Pagliarini, da Bright Consulting, a acomodação da demanda poderá pressionar os bancos das montadoras a subsidiar as taxas de juros para reduzir o custo do financiamento dos automóveis. 

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Carro zero fica mais distante e custa ao menos 40 salários mínimos

Há quatro anos, 28 salários de referência eram suficientes para adquirir modelo novo; pandemia acentua elitização de veículos

Eduardo Laguna e Wesley Gonsalves - O Estado de S.Paulo

Em um mercado em que os modelos populares estão à beira da extinção e o custo de financiamento sobe em velocidade que não se via havia 13 anos, sair de carro novo de uma concessionária vem se tornando um sonho inviável a um número cada vez maior de brasileiros. 

Se, quatro anos atrás, 28 salários mínimos eram suficientes para comprar um automóvel, hoje não se adquire um zero quilômetro por menos de 40 salários mínimos. Isso porque o salário mínimo, com alta de 27%, não conseguiu acompanhar o salto três vezes maior no período (83%) do preço do carro mais barato do mercado – hoje, o subcompacto Kwid, da Renault, que custa R$ 48,8 mil.

Levantados com exclusividade para o Estadão/Broadcast pela consultoria Jato Dynamics, os dados oferecem um retrato do abismo entre a renda e preço dos veículos. Revelam também em números como a transição dos carros compactos a modelos maiores, tanto em tamanho quanto em conteúdo tecnológico, mudou o curso de um produto que vinha, por muito tempo, tornando-se mais acessível.

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Carros são montados em fábrica; Fenabrave prevê crescimento de 4,6% das vendas de veículos em 2022 Foto: Werther Santana/Estadão

A pandemia ajudou a acentuar bastante a elitização no consumo de automóveis porque as restrições de oferta abriram margem ao repasse de aumentos de todo tipo na estrutura de custo das montadoras: do frete aos materiais usados na produção, passando pela energia, e com tudo maximizado pelo câmbio mais caro. 

Mudança

A guinada das montadoras tem origem anterior à crise sanitária. Nem a indústria, decidida a voltar a ser rentável em vez de brigar por participações de mercado a qualquer preço, nem o consumidor de menor renda estão dispostos a pagar a conta das tecnologias de controle de emissões e segurança que vêm se tornando obrigatórias nos carros fabricados no País. 

Assim, as montadoras decidiram se voltar nos últimos cinco anos a um público de maior poder aquisitivo, investindo em modelos maiores – especialmente utilitários esportivos (SUVs) e picapes.

Carro zero Versus renda

Levantamento mostra um retrato do abismo entre renda e preço dos veículos

Nota: *Preço sugerido da versão mais barata no primeiro dia útil de cada ano

Fonte: Jato Dynamics

Custo

O resultado é que modelos populares estão sendo aposentados – entre eles, o Uno e, futuramente, o Gol –, enquanto os carros que seguem no mercado estão sendo vendidos, na média, por mais de R$ 120 mil. Antes da pandemia, essa conta ficava abaixo dos R$ 100 mil, conforme dados da Bright Consulting.

O mercado de carros teve dois momentos distintos nas últimas duas décadas. Durante a maior parte desse período, entre 2000 e 2018, o produto se tornou mais acessível, e com anos marcados por incentivos do governo, como o IPI reduzido, o consumo anual de automóveis de passeio chegou a passar das 3 milhões de unidades – o dobro do ano passado.

Porém, após esse ciclo, o movimento se inverteu, com o carro voltando a se distanciar do alcance dos brasileiros nos anos seguintes, marcados pela ascensão dos SUVs sobre os segmentos de entrada e avanços do padrão tecnológico em meio à globalização das plataformas.

Numa comparação que ilustra bem a diferença de viabilidade do produto, o brasileiro precisa trabalhar três vezes mais do que o americano para conseguir comprar um automóvel, se considerado o salário mínimo de cada país.

Nos Estados Unidos, o modelo mais barato é o Chevrolet Spark, que em sua versão mais básica custa US$ 13,6 mil, ou 12 salários mínimos de um trabalhador de lá com jornada de 40 horas semanais.

Diretor de desenvolvimento de negócios da Jato, Milad Kalume Neto diz que, mesmo se o dólar se estabilizar abaixo de R$ 5 no futuro, a possibilidade de o preço de entrada do automóvel voltar ao valor mais próximo de R$ 40 mil esbarra na prioridade da indústria. 

“Para lançar veículos mais acessíveis, a indústria precisará de tempo para amortizar investimentos realizados nos últimos anos e realizar mais lucros. Não podemos nos esquecer que o setor vem se recuperando de três crises nos últimos anos sete anos”, afirma Kalume Neto, referindo-se à recessão doméstica de 2015/2016, a pandemia e, agora, a crise de oferta causada pela escassez de componentes eletrônico.

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Carro usado ‘envelhece’ para caber no orçamento do brasileiro

A demanda aquecida pressiona o preço do automóvel usado e obriga o consumidor a comprar modelos mais antigos

Eduardo Laguna, Wesley Gonsalves - O Estado de S.Paulo

A falta de modelos mais populares nas concessionárias e a disparada nos preços do carro zero quilômetro empurraram os brasileiros para o mercado de usados, no qual as vendas batem recorde. O consumidor, porém, tem de rever muitas vezes o seu padrão de exigência para encontrar um veículo que se encaixe em sua realidade financeira.

Segundo levantamento baseado em anúncios publicados no portal da OLX, em 2018 o consumidor conseguia encontrar carros com dois anos de uso por R$ 55 mil. Hoje, só é possível optar por automóveis com cinco anos de uso por esse mesmo valor, corrigido pela inflação. Já os carros com dois anos de uso saem por R$ 80 mil em anúncios divulgados na plataforma.

As vendas de carros usados subiram 18,8% no ano passado, superando pela primeira vez a marca de 11 milhões de unidades desde que o levantamento começou a ser feito em 2004 pela Fenabrave, a associação das concessionárias de veículos. Para cada carro zero quilômetro emplacado, são vendidos quase seis usados.

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Gestor finaceiro Newton Nagoshi comprou um carro seminovo Foto: FELIPE RAU/ESTADAO

Embora as pessoas se mostrem mais interessadas em ter carros para evitar o transporte coletivo, os preços são o maior obstáculo. “Mesmo em meio à crise, a intenção de compra de veículos cresceu. Como as concessionárias não estão com estoque elevado, a margem para negociar o preço é limitada”, diz o economista-chefe da OLX Brasil, Danilo Igliori.

Após quase dois anos sem carro próprio e utilizando os serviços de transporte por aplicativo, o gestor financeiro Newton Nagoshi se viu obrigado a comprar um veículo novamente. Entre os principais motivos estão a necessidade de ir ao trabalho e a dificuldade de se locomover utilizando os serviços da Uber e 99, que sofrem com redução de motoristas. Com os preços dos zero quilômetro nas alturas, a opção foi buscar modelos usados e mais acessíveis.

“Queria gastar em torno de R$ 70 mil com algum modelo das montadoras japonesas, mas o carro novo está muito mais caro, chegando a custar R$ 130 mil, por isso comprei um usado”, diz. 

JUROS EM ALTA

Com a disparada dos preços, o consumidor está se deparando com um avanço das taxas de financiamento. No caso de Nagoshi, para fugir dos juros mais altos, a alternativa foi pesquisar os preços e adquirir o veículo seminovo à vista, assim reduzindo o valor final pago pelo bem. 

Depois de descer de escada, os juros praticados no segmento estão subindo de elevador. De volta ao nível de 2016, os financiamentos de veículos são concedidos agora com juros anuais de 27,5%, conforme as estatísticas de crédito do Banco Central (BC). Em 12 meses, a taxa subiu 8,5 pontos porcentuais, uma alta que não se via desde novembro de 2008.

Essa é a maior escalada de custo do financiamento automotivo em 13 anos, alimentada pela subida da Selic, pelo maior risco de crédito em meio à crise econômica e pelo endividamento das famílias. 

Analistas avaliam que as condições financeiras mais restritivas tendem a moderar a demanda. Com consumo e oferta começando a convergir a um ponto de equilíbrio, o preço dos carros deve voltar a acompanhar a inflação média. Em 2021, a alta de 16,1% do automóvel novo superou os 10,1% marcados no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação.

“Esperamos uma desaceleração na tendência de alta dos preços a partir do segundo trimestre”, diz Gabriela Joubert, analista-chefe do banco Inter.

Para o consultor Cassio Pagliarini, da Bright Consulting, a acomodação da demanda poderá pressionar os bancos das montadoras a subsidiar as taxas de juros para reduzir o custo do financiamento dos automóveis. 

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