Dida Sampaio/Estadão - 28/03/2020
O presidente Jair Bolsonaro e Pedro Guimarães; agora ex-presidente da Caixa, executivo nega acusações de assédio Dida Sampaio/Estadão - 28/03/2020

Pedro Guimarães deixa comando da Caixa após denúncias de assédio; Daniella Marques é nova presidente

Executivo que estava no cargo desde o início do governo Bolsonaro se diz alvo de 'situação cruel, injusta, desigual'; ele é investigado após denúncias de funcionárias do banco de assédio sexual

André Borges e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 18h04
Atualizado 29 de junho de 2022 | 21h06

BRASÍLIA – Acusado por diversas funcionárias da Caixa Econômica Federal de todo tipo de assédio sexual, o executivo Pedro Guimarães deixou a presidência do banco na tarde desta quarta-feira, 29, após uma conversa com o presidente Jair Bolsonaro. O Palácio do Planalto já tinha conhecimento das acusações que recaiam sobre Guimarães na noite anterior, quando o escândalo veio à tona em uma reportagem publicada pelo site Metrópoles, com informações detalhadas por cinco funcionários do banco. 

Bolsonaro, porém, mesmo orientado por sua campanha eleitoral a se manifestar contra o episódio, preferiu segurar o seu desfecho até o dia seguinte, quando o cenário já se mostrava insustentável para Guimarães. 

Ao Estadão, o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), antecipou a saída de Guimarães e a troca do comando estatal, que passa a ser de Daniella Marques, considerada "braço-direito" do ministro da Economia, Paulo Guedes. Segundo Flávio, o nome da substituta é para dar uma "resposta mais do que clara" que Bolsonaro não compactua com a conduta de Guimarães. "Inaceitável uma conduta pessoal dessa, que não tem nada a ver com o governo", afirmou. Um dos coordenadores de campanha de Bolsonaro à reeleição, Flávio disse que a saída de Guimarães da Caixa foi para que o caso não fosse usado contra o presidente. 

Na chefia da Caixa desde o início do governo Bolsonaro, Pedro Guimarães, 51 anos, era um dos nomes mais vistos ao lado do presidente da República. Chegou ao cargo respaldado pela sua “experiência em privatizações”. Ao longo de sua gestão, fez muitas viagens e eventos, para apresentar a atividade do banco público. Era principalmente nestas ocasiões que, segundo as vítimas, Guimarães praticava ações de assédio sexual, que iam desde convites para entrar em seu quarto, até insinuações e toques em suas partes íntimas.

Na manhã de hoje, apesar de toda a repercussão, Pedro Guimarães ainda procurou apresentar um ar de certa normalidade. Ele compareceu a um evento presencial da Caixa, ao lado de sua esposa. A portas fechadas para a imprensa, foi ao microfone e discursou como se nada estivesse ocorrendo, limitando-se a afirmar que é uma pessoa “pautada pela ética”.

No fim da tarde, no entanto, Guimarães publicou sua carta de demissão. Sua exoneração foi logo em seguida confirmada no Diário Oficial da União, assim como a substituição por Daniella Marques.

Alvo de processo investigativo aberto pelas vítimas no Ministério Público Federal, Guimarães afirma, no documento, que foi alvo de “uma situação cruel, injusta, desigual e que será corrigida na hora certa com a força da verdade”.

O agora ex-presidente da Caixa diz que “as acusações não são verdadeiras e não refletem a minha postura profissional e nem pessoal”. Sustenta ainda que tem “a plena certeza de que estas acusações não se sustentarão ao passar por uma avaliação técnica e isenta” e que decidiu se afastar neste momento para se “defender das perversidades lançadas contra mim, com o coração tranquilo daqueles que não temem o que não fizeram”.

O presidente Jair Bolsonaro, que ficou extremamente contrariado com o episódio e teme os efeitos políticos que sofrerá com a situação, já que seu ponto mais frágil é o eleitorado feminino, optou por silenciar sobre o assunto e não fez um único comentário a respeito.

Em três anos e meio de governo, Guimarães acumulou algumas polêmicas. Em dezembro, um vídeo mostrou diretores e vice-presidentes da Caixa fazendo flexões, por ordem de Guimarães, em evento do banco. Indicado por Guedes, afastou-se do ministro e se aproximou de Bolsonaro, a ponto de chegar a ser citado pelo presidente como um dos possíveis candidatos a vice.

Nova presidente da Caixa

A nova presidente da Caixa, Daniella Marques, é "braço-direito" do ministro da Economia, Paulo Guedes, desde os tempos em que ele atuava na iniciativa privada. Ela assumiu a secretária especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia no começo deste ano. Na função, vinha liderando projetos voltados para o público feminino, no qual o presidente Jair Bolsonaro amarga forte rejeição.

Formada em Administração pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e com MBA em Finanças pelo Ibmec/RJ, Daniella atuou por 20 anos no mercado financeiro. Ela foi sócia de Guedes na Bozano Investimentos, no Rio de Janeiro, e deixou a gestora em 2019 para trabalhar com o ministro como assessora especial. / COLABOROU FERNANDA GUIMARÃES

Leia a carta de Pedro Guimarães na íntegra:

"À população brasileira e, em especial, aos colaboradores e clientes da CAIXA:

A partir de uma avalanche de notícias e informações equivocadas, minha esposa, meus dois filhos, meu casamento de 18 anos e eu fomos atingidos por diversas acusações feitas antes que se possa contrapor um mínimo de argumentos de defesa. É uma situação cruel, injusta, desigual e que será corrigida na hora certa com a força da verdade.

Foi indicada a existência de um inquérito sigiloso instaurado no Ministério Público Federal, objetivando apurar denúncias de casos de assédio sexual, no qual eu seria supostamente investigado. Diante do conteúdo das acusações pessoais, graves e que atingem diretamente a minha imagem, além da de minha família, venho a público me manifestar.

Ao longo dos últimos anos, desde a assunção da Presidência da CAIXA, tenho me dedicado ao desenvolvimento de um trabalho de gestão que prima pela garantia da igualdade de gêneros, tendo como um de seus principais pilares o reconhecimento da relevância da liderança feminina em todos os níveis da empresa, buscando o desenvolvimento de relações respeitosas no ambiente de trabalho e por meio de meritocracia. 

Como resultados diretos, além das muitas premiações recebidas, a CAIXA foi certificada na 6ª edição do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), além também de ter recebido o selo de Melhor Empresa para Trabalhar em 2021 – Great Place To Work®️, por exigir de seus agentes e colaboradores, em todos os níveis, a observância dos pilares Credibilidade, Respeito, Imparcialidade e Orgulho.

Essas são apenas algumas das importantes conquistas realizadas nesse trabalho, sempre pautado pela visão do respeito, da igualdade, da regularidade e da meritocracia, buscando oferecer o melhor resultado para a sociedade brasileira em todas as nossas atividades.

Na atuação como Presidente da CAIXA, sempre me empenhei no combate a toda forma de assédio, repelindo toda e qualquer forma de violência, em quaisquer de suas possíveis configurações.

A ascensão profissional sempre decorre, em minha forma de ver, da capacidade e do merecimento, e nunca como qualquer possibilidade de troca de favores ou de pagamento por qualquer vantagem que possa ser oferecida.

As acusações noticiadas não são verdadeiras!

Repito: as acusações não são verdadeiras e não refletem a minha postura profissional e nem pessoal. Tenho a plena certeza de que estas acusações não se sustentarão ao passar por uma avaliação técnica e isenta.

Todavia, não posso prejudicar a instituição ou o governo sendo um alvo para o rancor político em um ano eleitoral. Se foi o propósito de colaborar que me fez aceitar o honroso desafio de presidir com integridade absoluta a CAIXA, é com o mesmo propósito de colaboração que tenho de me afastar neste momento para não esmorecer o acervo de realizações que não pertence a mim pessoalmente, pertence a toda a equipe que valorosamente pertence à CAIXA e também ao apoio de todos as horas que sempre recebi do Senhor Presidente da República, Jair Bolsonaro.

Junto-me à minha família para me defender das perversidades lançadas contra mim, com o coração tranquilo daqueles que não temem o que não fizeram.

Por fim, registro a minha confiança de que a verdade prevalecerá."

 

Pedro Guimarães"

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Quem é Daniella Marques, indicada para assumir a Caixa no lugar de Pedro Guimarães

Atual secretária de Produtividade do Ministério da Economia, foi sócia de Paulo Guedes na Bozano e está com Bolsonaro desde a campanha presidencial

Da Redação, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 17h49
Atualizado 30 de junho de 2022 | 12h28

Nomeada para o comando da Caixa Econômica Federal no lugar de Pedro Guimarães, a administradora de empresas Daniella Marques é uma espécie de "braço-direito" do ministro da Economia, Paulo Guedes, desde os tempos em que ele atuava na iniciativa privada. Ela assumiu a secretária especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia no começo deste ano. Na função, vinha liderando projetos voltados para o público feminino, no qual o presidente Jair Bolsonaro amarga forte rejeição.

Formada em Administração pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e com MBA em Finanças pelo Ibmec/RJ, Daniella atuou por 20 anos no mercado financeiro. Ela foi sócia de Guedes na Bozano Investimentos, no Rio de Janeiro, e deixou a gestora em 2019 para trabalhar com o ministro como assessora especial.

Presente desde a campanha de 2018, Daniella tem a confiança do presidente Jair Bolsonaro e já chegou a participar das tradicionais lives de quinta-feira do chefe do Executivo - justamente para divulgar ações do Ministério da Economia voltadas às mulheres. 

Daniella foi responsável por costurar o programa "Brasil Pra Elas", uma política de crédito voltada para estimular o empreendedorismo feminino no País. A medida, que faz parte de um pacote que pretende movimentar entre R$ 82 bilhões em R$ 100 bilhões em crédito, foi lançada em março, no último dia internacional das mulheres.

Pouco depois, ela passou a comandar o Comitê Nacional do programa, que tem como parceiros o Sebrae, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o Banco do Brasil a Caixa Econômica, governos estaduais e municipais. No último fim de semana, Daniella tinha, por exemplo, viagem marcada a Belo Horizonte com a "Caravana Brasil Pra Elas", em que se promoveram cursos de capacitação e palestras para "alavancar a participação feminina nos negócios", de acordo com informações divulgadas no site do Ministério da Economia.

Em abril, em um encontro com empresários, ela acompanhou o tom das falas de Guedes ao minimizar as projeções do mercado para a economia em 2022. Segundo afirmou à época, os resultados de leilões e a recuperação de empregos são os pontos de otimismo para o governo. Daniella cutucou governos estaduais e locais ao dizer que “bondades” como aumentos de salário para o funcionalismo só foram possíveis graças ao governo federal. “Assim, todos os prefeitos e governadores ficaram bons gestores”, destacou no evento.

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Flávio Bolsonaro: Pedro Guimarães deixa Caixa para que denúncias não sejam usadas contra presidente

Senador e filho do presidente disse que que o nome de Daniella Marques foi pensado como substituta para dar uma 'resposta mais do que clara' de que o Bolsonaro não admite esse tipo de conduta

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 15h55
Atualizado 29 de junho de 2022 | 18h47

BRASÍLIA - Um dos coordenadores da campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou em entrevista exclusiva ao Estadão que o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, deixa o comando do banco estatal para que as denúncias de assédio sexual não sejam usadas durante a campanha para a reeleição. "O presidente Bolsonaro vai ser responsável por questões pessoais? O presidente não tem obviamente nada a ver com isso", afirma.

Flávio confirmou que Guimarães, que estava à frente da Caixa desde o início do governo Jair Bolsonaro, em 2019, deixa a presidência do banco estatal por decisão do presidente Bolsonaro "para preservar o próprio Pedro e o governo mostrar que não compactua com isso".

O Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação para apurar denúncias de assédio sexual feitas por funcionárias da Caixa Econômica Federal contra Guimarães. A abertura da investigação, que está em andamento sob sigilo, foi confirmada pelo Estadão. Cinco funcionárias relataram abordagens inapropriadas do presidente do banco. A revelação das denúncias foi feita pelo site Metrópoles na terça-feira, 28.

Sobre a escolha da substituta, a secretária do Ministério da Economia, Daniella Marques, o senador disse que o nome foi pensado para dar uma "resposta mais do que clara" de que o presidente não admite esse tipo de conduta dentro do governo. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada horas antes da entrega da carta de demissão de Pedro Guimarães, nesta quarta.

As denúncias têm bastante número e trazem uma serie de situações graves pra um governo que tem a pauta da família, da moral. É aceitável esse comportamento dentro do governo? Por que ele ficou todo esse tempo no governo?

Porque assim, na verdade, oficialmente, a coisa surgiu agora, né; pelo menos para o presidente. Então, óbvio que isso é inaceitável. A decisão do presidente foi correta de imediatamente chamar o Pedro pra conversar e o Pedro compreendeu que poderia ser usado para explorar o presidente, já que é um problema inaceitável, mas é coisa de cunho pessoal do Pedro; não tem nada a ver com o governo, não tem nada a ver com a Presidência. Então, assim, a tentativa da oposição e de parte da imprensa de querer vincular ao presidente Bolsonaro não tem nada a ver. O presidente Bolsonaro agora vai ser responsável por questões pessoais, por condutas pessoais que não têm nada a ver com o serviço público para o qual ele foi escolhido para exercer uma determinada missão? O presidente obviamente não tem nada a ver com isso.

 

Ele vai renunciar? O presidente pediu que ele renuncie?

Eu não sei qual vai ser formalmente o despacho no Diário Oficial. Mas o fato é que formalmente, imediatamente partiu dele: 'olha, Pedro, não dá; tão acusando você aí'... e o Pedro de pronto entendeu, já foi conversar sabendo que isso deveria acontecer.

Na noite de ontem, né?

Na noite de ontem.

No Alvorada a conversa..

É. 

Ele já saiu de lá ciente?

Eu não sei. Quando ele chegou, eu estava saindo. Fui pra pra tratar de outras coisas com o presidente e ele chegou pra conversar com o presidente. Eu fiquei sabendo depois que o tom da conversa foi esse e que essa decisão ele já tinha tomado de tirar o Pedro de lá.

O sr. está falando que isso é uma conduta pessoal dele, mas o presidente só soube agora ou ele já tinha informação sobre esse comportamento?

Que eu saiba, eles tão sabendo agora quando o fato se tornou público e qualquer rumor ou boato que tivesse aí... Como presidente vai tomar qualquer tipo de conduta com base em boatos? Não pode fazer isso. Mas, do jeito que os fatos estão se apresentando, parece que são bem robustos. E aí, para preservar o próprio Pedro da Caixa e o governo mostrar que não compactua com isso, essa atitude foi tomada.

Ele era até então um nome muito prestigiado. O presidente vinculou bastante a imagem dele nas lives, um dos principais participantes. Chegou a ser cogitado em algum momento que ele tinha interesse político, que ele poderia até compor a chapa com o presidente...

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O Pedro tinha essas pretensões políticas, mas nunca o presidente nunca cogitou colocá-lo de vice, como tentaram vincular alguma vez.. o perfil dele, apesar de um baita de um.. separando a parte pessoal da profissional, né, sendo possível separar as duas partes: ele é um profissional que fez um trabalho ímpar na Caixa. Você tirar um retrato do que é a Caixa Econômica hoje e o que ela era antes do governo... é incomparável. A melhoria, o superávit, toda a função social que a Caixa cumpriu na questão da Casa Verde e Amarela (programa de habitação popular que substitui o Minha Casa, Minha Vida), na questão do auxílio emergencial e agora do Auxílio Brasil.. de todo o compliance (regras de governança) que foi implementado lá dentro. Então, é uma pessoa que inegavelmente é competente. Mas, obviamente, é inaceitável uma conduta pessoal dessa, que não tem nada a ver com o governo, com o trabalho.. alguém que usa a sua posição dentro de uma empresa dentro de um cargo público pra assediar alguém, isso o presidente Bolsonaro não compactua.

A nomeação da Daniella Marques, secretária do ministro da Economia, Paulo Guedes, para substituí-lo já está confirmada?

A informação que eu tenho nesse momento é que ela está escolhida pra ser a próxima presidente da Caixa.

Em quanto tempo isso se daria?

Acredito que publique a desoneração dele de hoje para amanhã, junto com a nomeação dela.

Das intervenções que o presidente está fazendo, ele está recorrendo bastante aos quadros da equipe do Guedes. É um aumento de influência do ministro Guedes nesse momento?

As áreas em que estão havendo essas trocas são áreas bastante técnicas e o ministro trouxe uma equipe brilhante pra dentro do governo. Grande parte das pessoas já eram bem-sucedidas no setor privado, como é o caso da Daniella Marques. Uma pessoa que jamais precisaria estar no governo vem porque se identifica com as maneiras, porque a missão de ajudar as pessoas – no caso específico dela, as mulheres, onde ela está agora, – é uma missão muito nobre, motiva muito a Daniela. E eu particularmente sou um grande admirador do trabalho dela. Eu acho que troca ali a pessoa na Caixa, mas não troca a importância e a competência com que a Caixa como um todo, não só a presidência.. mas mantém ali um padrão elevado de serviço público prestado.

O fato de ela ser mulher foi pensado para dar uma resposta à sociedade?

Foi pensado pra dar uma resposta mais do que clara, pra evitar qualquer tipo de dúvida de interpretação de que o presidente Bolsonaro não admite esse tipo de conduta dentro do governo dele.

Não é estranho que tenha passado tanto tempo e o compliance da Caixa não tenha agido? Não tem uma falha aí na ouvidoria, nos órgãos de controle?

Eu não sei nem se não agiu o compliance da Caixa.. porque como que você vai.. um comportamento pessoal, íntimo ali.. o compliance ou qualquer autoridade só pode agir depois de tomar conhecimento. Não tem como saber que ele fazia isso, que são as acusações que estão sendo feitas sobre ele. Eu não sei se chegou a ter dentro da Caixa alguma coisa. Pelo menos que eu saiba, por parte do presidente da República, ele tomou providência assim que ele tomou conhecimento dos fatos.

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TCU fará auditoria em sistema de denúncias e de combate a assédio da Caixa

Decisão foi anunciada nesta quarta-feira, 29, pela presidente do TCU, ministra Ana Arraes, em meio aos escândalos de assédio sexual que recaem sobre o presidente da Caixa, Pedro Guimarães

André Borges, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 16h40

BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) vai fazer uma auditoria no sistema de denúncias e de combate a assédio da Caixa. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira, 29, pela presidente do TCU, ministra Ana Arraes, em meio aos escândalos de assédio sexual que recaem sobre o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e que já são alvos de investigação pelo Ministério Público Federal.

Nas denúncias que funcionárias do banco relataram ao site “Metrópoles”, elas foram claras em dizer que não denunciaram antes as situações por medo de serem perseguidas. As vítimas disseram ainda não confiar nos canais de denúncias internas do banco, sendo que a Caixa possui um setor específico, a sua Corregedoria, que tem entre suas atribuições a apuração de casos do tipo.

“Nesse contexto, tendo em vista as recentes notícias veiculadas na imprensa, sobre denúncias de assédio no âmbito da Caixa Econômica Federal, que envolvem o Presidente da instituição, considero pertinente que este Tribunal realize ação de controle para avaliar o grau de maturidade dos instrumentos e das práticas de que esse banco público dispõe para prevenir e punir casos de assédio”, afirma Ana Arraes, em seu comunicado.

“O assédio no ambiente de trabalho é tema de grande relevância que precisa ser mais bem enfrentado no âmbito da administração pública, uma vez que, além dos efeitos danosos à vítima, ainda ocasiona prejuízos à instituição e à sociedade.”

A ministra afirmou que órgão de fiscalização superior, como o Tribunal de Contas da União, “não só podem, como devem efetivamente atuar para a construção de um sistema eficaz de prevenção e combate ao assédio” nos órgãos e entidades públicas, como vem ocorrendo em outros países.

“Esse episódio recente, que merece ser investigado e, se confirmado, punido com todo rigor, é apenas um sintoma grave de um problema muito maior, que é a ausência de políticas eficazes de prevenção e combate ao assédio nas organizações públicas. E, se formos tratar a situação apenas com olhar punitivo, isso não resolverá o futuro, apenas o passado”, declarou Ana Arraes.

Conforme a reportagem do Metrópoles, uma das funcionárias ouvidas afirmou ter conhecimento do caso de uma colega de trabalho que resolveu comunicar uma situação de assédio que experimentou dentro da instituição, mas logo depois sua “denúncia” chegou às mãos de funcionários do gabinete de Guimarães. “A gente tinha muito receio, porque a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, porque em qualquer lugar em que vá essa denúncia ele pode ter um infiltrado. E isso afeta o resto do meu encarreiramento, no aspecto profissional. Então, era melhor esperar passar”, disse. “Noventa por cento das mulheres não vão falar porque ele tem poder.”

O Tribunal fez um levantamento sobre os sistemas de prevenção e combate ao assédio moral e sexual das organizações públicas. A fiscalização, realizada por iniciativa do ministro Bruno Dantas e relatada pelo ministro Walton Alencar Rodrigues, trouxe práticas adotadas por entidades públicas que resultaram em modelo de avaliação do sistema de prevenção e combate ao assédio moral e sexual, com o objetivo servir de critério para futuras fiscalizações do TCU.

Estudos realizados em 2019 e 2020 pela Controladoria-Geral da União sobre o tratamento de casos de assédio revelaram que poucos processos disciplinares são instaurados para investigar casos de assédio. No período de janeiro de 2015 a outubro de 2019, apenas 49 processos disciplinares sobre o assunto foram examinados. Desses, menos de 40% resultaram na aplicação de alguma penalidade.

Já em relação ao assédio moral, foram instaurados 270 processos disciplinares no período de janeiro de 2017 a dezembro de 2018, dos quais apenas 20% resultaram em alguma penalidade, sendo que mais de 60% das ocorrências foram arquivadas. “A pequena quantidade de processos disciplinares e os poucos desfechos em que houve aplicação de sanção revelam descompasso com a realidade retratada em pesquisas efetuadas sobre o tema”, afirma o documento assinado por Ana Arraes.

De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho, mais de 52% das mulheres economicamente ativas já foram vítimas de assédio sexual no trabalho. Outra pesquisa realizada pelos institutos Patrícia Galvão, Laudes Foundation e Locomotiva Pesquisa e Estratégia, de 7 a 20 de outubro de 2020, aponta que as mulheres são as principais vítimas de violência e assédio no trabalho.

Das 1.000 mulheres e 500 homens entrevistados, 92% acreditam que as mulheres sofrem mais constrangimento e assédio no mercado de trabalho e 58% conhecem alguma mulher que já sofreu preconceito e assédio por ser mulher. “Sabe-se também que as vítimas de assédio deixam de denunciar o agressor por receio de retaliação, medo de ter suas carreiras prejudicadas e descrença na solução do problema.

“Todo esse quadro evidencia a necessidade de as organizações possuírem sistemas eficazes de prevenção e combate ao assédio. Independentemente dos casos concretos que eventualmente estejam sendo investigados pelo Ministério Público Federal, creio que é importante a atuação deste tribunal sob a perspectiva de avaliação e proposta de aprimoramento do Estado, o qual deve servir de exemplo para os outros setores da sociedade”, afirmou a presidente do TCU.

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Ciro, Tebet e Joice criticam Pedro Guimarães após denúncias de assédio; veja repercussão

Ministério Público Federal investiga denúncias feitas por funcionárias da Caixa Econômica Federal contra presidente do banco

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 13h27

Políticos se manifestaram pedindo para que Pedro Guimarães deixe o cargo de presidente da Caixa Econômica Federal. O Ministério Público Federal (MPF) abriu investigação para apurar denúncias de assédio sexual feitas por funcionárias da Caixa contra Pedro Guimarães.

O pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes (PDT) comentou o assunto durante participação em evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com presidenciáveis. "Uma autoridade pública que usa do seu poder para constranger sexualmente mulheres é um bandido. Tinha que ser demitido e responder pela cadeia", disse. 

 

Mais cedo, em seu perfil no Twitter, Ciro Gomes pediu apuração rápida para o caso e afirmou que Pedro Guimarães “teria agido como um predador contumaz, uma espécie de serial killer da honra de várias funcionárias da CEF (Caixa Econômica Federal)”. Ele apontou que, em outros países, escândalos do tipo abalariam e até derrubariam governos. “Aqui, por enquanto, são apenas novos capítulos da série de episódios macabros estrelados na alta cúpula federal”, escreveu. 

Erika Kokay (PT-DF), deputada federal, também se manifestou no Twitter e classificou os relatos de assédio como “estarrecedores”. “Guimarães é a cara de um governo machista e misógino. Que seja investigado e punido. Toda minha solidariedade às funcionárias!”, afirmou. 

A deputada federal Gleisi Hoffmann, presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), prestou solidariedade às funcionárias da Caixa em seu perfil no Twitter e criticou a ligação de Guimarães com o presidente Jair Bolsonaro (PL). “Chocante a denúncia de funcionárias sobre assédio sexual do presidente da Caixa. É esse tipo de gente repugnante que Bolsonaro tem ao seu lado. Pedro Guimarães precisa ser afastado e investigado”, escreveu. 

A deputada federal Joice Hasselmann (PSDB-SP), que já foi aliada de Bolsonaro, também apontou que Pedro Guimarães precisa ser demitido. “A manutenção de Pedro Guimarães na presidência da Caixa comprova mais uma vez o desprezo de Bolsonaro pelas mulheres”, criticou, também no Twitter. “Numa multinacional, o CEO teria sido sumariamente demitido/afastado.” 

Sâmia Bomfim (PSOL-SP), deputada federal, classificou as denúncias como “gravíssimas”, afirmou que a situação é inaceitável e que “ser mulher no governo Bolsonaro é insuportável”. Ela ainda pediu investigação, apoio às vítimas e afastamento imediato de Guimarães do cargo. “É inaceitável que um homem use do cargo para violentar mulheres!”, escreveu. 

Na mesma rede social, a pré-candidata à presidência pelo MDB, Simone Tebet, destacou que assédio sexual é crime e afirmou que é necessário o afastamento imediato de Guimarães do cargo de presidente da Caixa. “As denúncias contra o presidente da Caixa Econômica Federal exigem investigação e apuração rigorosas e imediatas dos fatos, principalmente por envolver uma instituição pública”, disse. / COLABORARAM MATHEUS DE SOUZA E GIORDANNA NEVES  

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Investigação contra presidente da Caixa obriga Bolsonaro a agir pensando na reeleição; leia análise

Acusação de assédio sexual contra Pedro Guimarães contamina discurso do governo de proteger os valores familiares

Francisco Leali, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 11h24

BRASÍLIA - Em menos de duas semanas, o presidente Jair Bolsonaro, que briga com os resultados das pesquisas de intenção de voto, colhe o dissabor de ver um ex-ministro acusado de corrupção e o presidente do principal agente financeiro de seu governo cair na malha de uma investigação sobre abusos sexuais. A apuração de seguidos casos de assédio envolvendo o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, um dos mais assíduos frequentadores das lives de Bolsonaro, pode consolidar a imagem que já aparece nas pesquisas: o governo de Bolsonaro não tem a aprovação da maioria das mulheres. O caso sob apuração do Ministério Público Federal parece obrigar o presidente a agir como candidato para reduzir danos ainda maiores na porção do eleitorado que o segue.

Apenas agindo como presidente, Bolsonaro já deu mostras de que o tratamento dispensado às mulheres pode ser tema para os tribunais. Por coincidência, ele teve sua condenação referendada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por ofensas graves a uma jornalista cujo conteúdo não se deve repetir.

No caso Guimarães, segundo noticiou o site Metrópoles, estão já registrados pelo MPF depoimentos de auxiliares do chefe da Caixa narrando casos de  abusos em viagens. O presidente do banco público teria predileção por estar sempre acompanhado das “bonitas”. Algumas das vítimas teriam revelado que Guimarães seguia o manual do assediador: fazia abordagem insinuando querer envolvimento sexual e, em troca, falava em promoção na carreira.

Maiores vítimas de tentativas cotidianas de assédio, as mulheres poderão ver no caso a explicitação de que o comportamento do presidente da Caixa vai se somar à impressão que elas têm da atual gestão governamental. Nas últimas pesquisas realizadas pelo Datafolha, são as eleitoras que têm percepção mais negativa de Bolsonaro e seu governo. Se entre os homens a taxa de reprovação é de 43%, entre as mulheres alcança os 52%. Também são elas com maior desconfiança do que o presidente fala, 57% - entre os homens esse indicador é de 48%. O eleitorado feminino também é pessimista em relação ao cenário econômico. A maioria acredita que a inflação vai aumentar e atesta que a situação do País piorou.

A investigação contra Guimarães tem ainda outra dimensão. Põe em xeque o discurso de proteção aos valores da família que o governo propaga e agora, mais intensamente, dissemina pensando no voto conservador nas eleições. Não é difícil encontrar registros em sites abertos das viagens de Bolsonaro ao lado do dirigente da Caixa. A capilaridade do banco proporciona a oportunidade para o presidente que quer se reeleger ir aos rincões onde a instituição bancária financia moradias e distribui os cartões de auxílio. Em dezembro de 2019, por exemplo, Bolsonaro foi ao Tocantins. Guimarães estava junto. “Nós temos um presidente, agora, que respeita a família. Parece que é uma coisa que não é importante. É importante sim. A família é a base da sociedade. Um governo que é temente a Deus. O Estado é laico, mas eu sou cristão. E ponto final”, discursou o presidente da República.

A proximidade de Guimarães e Bolsonaro é tamanha que o economista que dirige a Caixa chegou a ser cotado para vice na chapa eleitoral. Agora, pode valer a máxima: o que atinge o primeiro, respinga no segundo.

 

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Pedro Guimarães vai a evento da Caixa com esposa e diz ser 'pautado pela ética'

Guimarães não disse nenhuma palavra sobre as acusações de assédio que estão sendo investigadas pelo Ministério Público Federal

André Borges, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2022 | 11h41
Atualizado 29 de junho de 2022 | 17h04

BRASÍLIA - Alvo de várias acusações de assédio sexual e pressionado para deixar imediatamente o cargo, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, iniciou esta quarta-feira, 29, com participação em um evento do banco que acontece em Brasília. Jornalistas foram impedidos de entrar no espaço.

Guimarães compareceu ao evento acompanhado de sua esposa e não mencionou nenhuma palavra sobre as acusações de assédio, as quais são investigadas pelo Ministério Público Federal e que foram reveladas pelo site “Metrópoles”.

Ao falar para a plateia de funcionários, Guimarães disse que tem um relacionamento profissional “pautado pela ética”.

O Sindicato de Bancários de Brasília cobrou a demissão do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, alvo de uma série de denúncias de assédio sexual por parte de diversas funcionárias do banco. O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e região também pediu que Guimarães seja afastado, para apuração das denúncias de assédio sexual feitas por funcionárias. O presidente Jair Bolsonaro ainda não se pronunciou sobre o assunto.

“Em 7 de janeiro de 2019, quando assinou termo de posse ao lado do ministro da Economia, Paulo Guedes, Pedro Guimarães disse que assumiria o controle de um banco maior que muitos países, com 93 milhões de clientes, e que não tinha “direito de errar”.

Em seu discurso de posse, prometeu marcar a história do banco. “Farei, certamente, algo que dê orgulho aos meus amigos da Caixa”, afirmou. “A gente não pode errar, mais Brasil e menos Brasília.”

Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Pedro Guimarães usa a imagem da própria esposa para atenuar as denúncias que recaem sobre ele. 

“Ele está, claramente, usando a esposa para limpar a própria imagem. É um fato muito grave. O governo tinha que ter tomado a atitude de afastá-lo ontem ainda. Como presidente, ele pode interferir na apuração, no atendimento a vítimas. Ele tem que sair”, diz Juvandia Moreira, presidente da Contraf e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários.

Ela também critica a circunstância em que governo Bolsonaro pretende nomear, somente agora, uma mulher para assumir o comando da Caixa, com a nomeação da atual secretaria de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia, Daniella Marques.

“Queremos mulheres no poder, mas não para atingir interesses políticos. Tudo isso é só mais uma prova de que esse governo é misógino e que carrega um machismo estrutural. Tudo nele isso incentiva essas condutas”, diz Juvandia Moreira.

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