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Cartão de crédito: tem de saber usar

Em agosto, um em cada quatro brasileiros não estava conseguindo pagar as dívidas no prazo

Fábio Gallo*, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 09h32

O aumento de preços dos alimentos, da energia elétrica, do gás de cozinha e dos combustíveis tem levado muitas dores de cabeça às famílias. O bem-estar geral está caindo conforme a inflação está subindo. Obviamente, as famílias de mais baixa renda sentem os reflexos da situação de maneira drástica porque falta comida na mesa. Mas outra consequência terrível é o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias. 

Em agosto, um em cada quatro brasileiros não estava conseguindo pagar as dívidas no prazo. Sendo que 72,9% das famílias brasileiras estão com dívidas no mês de agosto, um novo recorde mensal, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). As dificuldades são tantas que o tempo de atraso no pagamento de dívidas tem aumentado e o grupo de famílias que recebem até dez salários mínimos é o que mais tem crescido no endividamento.

O vilão é o cartão de crédito, que representa 83% dentre as formas de endividamento. É o meio de pagamento mais usado devido às facilidades de manejo. Mais fácil e, também, o crédito mais caro do mundo quando o usuário entra no crédito rotativo. Particularmente, a utilização do cartão de crédito entre os jovens chama a atenção. Uma pesquisa recentemente publicada no Journal of Family and Economic Issues – “Parents Influence Responsible Credit Use in Young Adults: Empirical Evidence from the United States, France, and Brazil” –, que foi preparada por Wesley Mendes, da FGV, juntamente com outros pesquisadores internacionais, analisou o comportamento no uso de cartão de crédito entre jovens residentes no Brasil, nos Estados Unidos e na França.

Um dos aspectos pesquisados deve ser destacado, que é a relação entre a comparação social financeira e o arrependimento relacionado ao uso do cartão de crédito. A pesquisa indica que os estudantes universitários, na busca por inserção social, pela comparação social financeira acabam consumindo mais do que deveriam, mesmo sabendo que depois irão se arrepender. Isso ocorre porque os cartões de crédito facilitam os gastos, evidenciando o comportamento de que o bem-estar melhorará com mais gastos e mais posses. No caso particular do Brasil, estudantes relataram maior comparação social, tendo em vista que o sentimento de inveja financeira está associado ao comportamento de compra compulsiva.

Outras evidencias do estudo mostram que a educação recebida dos pais impacta no uso do cartão de crédito por meio de um efeito mediador da autoconfiança financeira. No detalhe, encontra-se que o impacto da educação financeira que os pais repassam é maior para os filhos do que para as filhas. A educação financeira ajuda a melhorar o bem-estar das pessoas, particularmente daqueles que estão no início da idade adulta. Os consumidores frequentemente se deparam com decisões financeiras complexas, e as consequências dessas decisões podem se refletir ao longo do resto de suas vidas. 

*PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV-SP

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