Casa dos Ventos tem interesse em ativos da Abengoa

Empresa que desenvolve projetos eólicos diz que pode ajudar governo a resolver problema com empresa espanhola

Luciana Collet, Anne Warth, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2016 | 19h46

A Casa dos Ventos, hoje a maior desenvolvedora de projetos eólicos do Brasil, se ofereceu para assumir alguns trechos de linhas de transmissão da Abengoa. A empresa se colocou à disposição do governo federal para “fazer parte da solução” no caso dos ativos da espanhola, que paralisou suas atividades no Brasil por causa das dificuldades financeiras que a levaram ao processo de pré-recuperação judicial na Espanha.

A desenvolvedora de projetos eólicos participou de reunião com o Ministério de Minas e Energia, juntamente com outras geradoras de energia, e mostrou áreas mapeadas para futuros projetos eólicos que seriam impactados pela paralisação dos projetos da Abengoa. Entre as obras interrompidas pela espanhola está uma linha, prevista para entrar em operação em agosto próximo, que deve ser usada para conectar 1,2 megawatts (MW) da Casa dos Ventos. A empresa ainda tem projetos para mais 1,2 MW na região. “Nos dispusemos a fazer parte da solução, tentar colaborar, porque temos bons projetos lá e é uma das linhas mais avançadas da Abengoa”, disse o diretor de Desenvolvimento de Projetos da empresa, Lucas Araripe.

Segundo ele, para assumir esse e potenciais outros ativos de interesse da empresa, seria necessária uma flexibilização dos contratos, para uma elevação da Receita Anual Permitida (RAP). “Todas as empresas transmissoras que avaliaram, nenhuma, nem chinesa, disse que queria assumir”, disse ele. Para assumir os ativos, no entanto, a Casa dos Ventos teria de fazer parceria com outras companhias.

Outros trechos. Segundo fontes do setor, outras empresas de energia eólica também estão avaliando os trechos da Abengoa. No total, nove lotes atraem esses investidores, até então focados na construção e geração de energia eólica. A ideia surgiu com a dificuldade do governo de licitar novas linhas de transmissão. Para irem a leilão, os parques eólicos precisam comprovar que tem conexão para colocar a energia na rede. O problema é que os novos projetos não tem essa comprovação, pois os trechos não foram construídos.

Por isso, os empresários de energia eólica querem apresentar ao governo um projeto para que possam investir também em transmissão. Um estudo está sendo elaborado para ser entregue ao governo. Em relação aos ativos da Abengoa, ainda há algumas incertezas. Se algum investidor quiser assumir os ativos, como seria a transferência?, questiona uma fonte. “Seria feito um novo leilão ou seria feita uma autorização?” Há ainda a questão dos custos e dos prazos, que precisariam ser repactuados.

Receita. O chefe de project finance do Santander, Diogo Berger, lembrou que quando a Abengoa participou e venceu os leilões, em 2013, 2014, o contexto macroeconômico era outro, com outro nível de taxa de juros, e a empresa disputou lotes importantes sozinha, oferecendo grandes descontos. “Por que alguém agora, em um contexto pior, vai assumir aqueles compromissos, ainda precisando fechar contrato de EPC, assumindo que não é uma construtora. O governo tem um problema”, disse. Araripe lembrou que as empresas espanholas atuantes no setor de transmissão brasileiro, como a Abengoa, têm foco na construção para a captura do retorno.

“O governo está ciente que terá que passar por alguma flexibilização de tarifa ou RAP”, afirmou Araripe. “Se for pelo rito regulatório, vai ser muito complicado, esperar caducar, a Aneel entrar... Então estão tentando buscar uma solução”, completou.

Na terça-feira, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, disse que há dois grupos estrangeiros interessados nos ativos da Abengoa no País, um deles seria a chinesa State Grid, que confirmou ter interesse nos ativos, mas disse que não fez uma proposta formal.

“O que nós queremos é que a proposta que seja colocada para nós seja uma proposta viável. Estamos estudando e conversamos com dois interessados, que efetivamente manifestaram interesse, e estamos analisando se as propostas são viáveis e firmes no sentido de viabilizar a entrega das concessões no prazo estabelecido", afirmou o ministro. /COLABOROU RENÉE PEREIRA


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