Nancy DeVaux/NYT
Nancy DeVaux/NYT

Casas do Canadá ‘viajam’ para Washington

Projeto atende à demanda por moradias acessíveis para classe média local

Kirk Johnson, THE NEW YORK TIMES

27 de abril de 2016 | 05h00

FRIDAY HARBOR, WASHINGTON - Aqui nas Ilhas San Juan, Estado de Washington, onde uma severa escassez de casas acessíveis ameaça a economia e a comunidade, um pequeno grupo sem fins lucrativos encontrou um improvável meio de ajudar a abrigar famílias que querem ficar por aqui – “arrancando” casas desprezadas no Canadá, transportando-as em barcaças e rebocando-as para onde há demanda.

As casas são pequenas, pelos padrões modernos, e velhas, construídas no início da primeira metade do século 20 num hoje florescente subúrbio de Victoria, Colúmbia Britânica, onde compradores ansiosos estão limpando a área para abrir espaço para novas construções. Mas as estruturas são sólidas e o grupo americano, San Juan Community HomeTrust, descobriu que o custo de transportá-las do Canadá através do Estreito de Haro e restaurá-las é comparável ao de se construir do zero com materiais básicos.

O projeto foi impulsionado por uma necessidade de crescimento rápido: o boom do turismo e do número de compradores de casas de férias no Condado de San Juan – um arquipélago a cem quilômetros de Seattle, acessível apenas pela ar, barco ou balsa – ocorre paralelamente ao declínio de empregos na pesca, navegação e agricultura que sustentavam uma classe média na ilha. O número de pessoas vivendo em pobreza no condado aumentou em 17% desde o fim da recessão de 2009, segundo o censo, mesmo com a recuperação da economia ganhando força no país.

“É um combate tipo vida ou morte para manter aqui famílias de trabalhadores”, diz Peter Kilpatrich, gerente do projeto na parte de recuperação das casas importadas pelo San Juan Community HomeTrust. Quando a fiação, pintura e reparos estruturais estiverem prontos, em junho, compradores cadastrados poderão tomar posse.

Custo. Por meio de uma combinação de cessão de terra, doações governamentais e de fundações e levantamento local de fundos, as casas custarão para os compradores – entre eles, um trabalhador em hospital, muitos professores e uma massagista – de US$ 160 mil a US$ 210 mil. O preço médio local de mercado era de quase US$ 500 mil no fim do ano passado por uma casa equivalente, quase o mesmo de Seattle, o que faz de San Juan o condado com preços menos acessíveis do Estado para compradores da primeira residência, segundo Centro Runstad para Estudos Imobiliários da Universidade de Washington.

Especialistas em moradia dizem que o projeto de realocação de casas em Friday Harbor e numa ilha próxima pode ser o primeiro do gênero. Mas exemplos da inovação que inspiraram o esforço, segundo eles, são fáceis de encontrar pelo país – alimentados pelo desespero com a falta de moradia, pela luta de famílias de classe média com o crescente aumento no preço dos imóveis e aluguéis, e pela dificuldade geral em se conseguir uma casa.

“Tudo enlouqueceu”, diz Carlos Martín, do Urban Institute, grupo de pesquisa de Washington, D.C. “E quando as pessoas chegam ao ponto de só poderem apelar para a criatividade, coisas como essa acontecem.”

Alternativas. Em Honolulu, por exemplo, pessoas ligadas ao setor imobiliário tentam reativar as tradicionais casas havaianas de folhas de palmeira trançadas como alternativa mais barata à madeira e ao concreto. Em muitas outras cidades, adeptos do movimento da casa mínima pregam as virtudes, e o baixo custo, de casas simples e despojadas.

Portland, no Oregon, e Berkeley, na Califórnia, aprovaram recentemente leis municipais facilitando para um proprietário transformar o porão em apartamento ou construir no quintal um chalé para alugar.

Leis ambientais mais rígidas agora em vigor na Colúmbia Britânica também estão tornando a importação de casas pelo Estado de Washington mais atraente e acessível. “Antes, pegava-se uma escavadeira e triturava-se a casa”, diz Jim Connely, gerente de vendas da Nickel Brothers na Ilha de Vancouver, empresa que já transportou sete casas para o projeto Friday Harbor.

Agora, explica Connely, a lei da província exige relatórios detalhados sobre materiais perigosos e triagem de materiais como metal e gesso para possível reúso. Isso elevou o custo de demolir uma casa de 3 mil dólares canadenses nos anos 90 para 40 mil hoje (cerca de US$ 31,2 mil).

As casas velhas sofrem traumas variados no transporte. As fundações ficam para trás. Também as chaminés são abandonadas, porque a antiga argamassa é muito frágil e apresenta riscos no deslocamento. Em alguns casos, telhado e paredes externas têm de ser removidos (e posteriormente remontados) para permitir a passagem da casa por obstáculos como passagens subterrâneas ou árvores.

No momento, as casas são construídas sobre blocos de madeira e vigas de aço até os alicerces de concreto serem colocados. Como qualquer casa velha, são imperfeitas e fora de prumo, com puxadinhos e jamais construídas segundo especificações exatas. “A casa estava fora do prumo original”, disse Kilpatrick, apontando para uma porta que provavelmente abria e fechava com facilidade sob a velha fundação, mas agora está inclinada e necessita reparos.

Meio ambiente. Segundo especialistas em imóveis e membros do conselho do San Juan Community HomeTrust, além de baratear os custos, outro atrativo do projeto é mais sutil, mas também importante: os doadores têm reagido bem à ideia de que velhas casas estejam sendo resgatadas pelas famílias locais. O respeito ambiental nessa região do noroeste do Pacífico, que prioriza a reutilização e reciclagem, faz parte do apelo para arrecadação de fundos.

“Você tem de criar um certo alvoroço”, disse Sam Buck, vice-presidente do conselho. “Isso tem deixado as pessoas mais empolgadas do que prevíamos.”

Poucos estão mais entusiasmados que Kat Sherman, de 36 anos, e seu noivo, Adam D’ Errico, de 37 anos, que se inscreveram para compra de uma das casas. Ambos trabalham em uma loja de ferragens e material de construção, ela na contabilidade e ele como gerente do departamento de tintas. Para sobreviver, os dois têm um segundo emprego, em um mercado onde se encarregam de abastecer as prateleiras.

O trabalho duro vai continuar, disse o casal em uma entrevista, mas uma casa própria vai propiciar estabilidade e a possibilidade de continuarem a viver num local que amam. “Esse programa é genial, pois permite que as pessoas – as abelhas operárias da ilha – tenham condições de possuir uma casa e permanecer aqui”, diz Kat Sherman. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ E TEREZINHA MARTINO

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