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Castelos de areia

Símbolo dos arranha-céus de Dubai, incorporadora Emaar enfrenta o desafio de se globalizar

The Economist

05 de agosto de 2015 | 02h04

Se fosse construído de acordo com o seu projeto original, o Burj Khalifa teria apenas 90 andares, afirma Muhammad Alabbar, o "chairman" da Emaar Properties, que criou o arranha-céu. Mas quando Alabbar apresentou os desenhos ao xeque Muhammad bin Rashid al-Maktoum, o primeiro-ministro de Dubai, recebeu a ordem de incrementá-los. Foram então acrescentados 73 andares, o que tornou o Burj Khalifa muito mais alto do que os outros edifícios ao seu redor, quando foi inaugurado em 2010.

A ascensão da Emaar foi tão vertiginosa e igualmente influenciada pelo governante de Dubai. Desde que foi fundada por Alabbar, em 1997, a empresa cresceu e se tornou a maior incorporadora do emirado em valor de mercado. Seus lucros cresceram 30% em 2014, para US$ 912 milhões, e seus edifícios espetaculares e cidades planejadas contribuíram a chamar a atenção mundial para Dubai. A questão com que agora a Emaar se defronta é conseguir sustentar este ritmo ao tentar se tornar uma empresa global.

A Emaar beneficiou-se de relações extremamente oportunas. Cerca de 30% da empresa pertencem a um fundo de investimentos soberano, e Alabbar diz que não faz nada sem conversar com o xeque Muhammad. Em vários sentidos, a empresa é um reflexo do Estado. Depois que a vizinha Abu Dabi ajudou Dubai durante a crise financeira, o então Burj Dubai foi rebatizado Burj Khalifa em honra do Xeque Khalifa bim Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dabi.

A crise destacou também a excelente gestão da Emaar. Quando o mercado imobiliário de Dubai entrou em colapso, as vendas caíram para zero, afirma Alabbar. Mas a Emaar não sofreu como incorporadoras concorrentes, nas quais a própria família real tinha as maiores participações. Ele atribui o fato à excessiva "agressividade" da família. O endividamento da Dubai Properties e da Nakheel Properties (mais conhecida pela construção da ilha artificial Palm Jumeirah), quase provocaram o colapso do emirado. Ao mesmo tempo, a Emaar aumentou os investimentos em grandes hotéis e shopping centers, que agora constituem a maior parte do seu faturamento. No início deste ano, a Moody's, agência de classificação de crédito, deu à dívida da Emaar a nota de "perspectiva positiva", o que significa que esta classificação poderá ser aumentada, por causa da forte liquidez da companhia.

A Emaar distinguiu-se não apenas pelas dimensões dos seus projetos - ela tem também o maior centro comercial do mundo - mas inclusive por sua qualidade. "A companhia tem uma liga própria", disse Massoud Derhally, consultor da Argento Strategies em Dubai. Mas a dependência do mercado local faz com que sua trajetória seja cheia de percalços. Os preços dos imóveis residenciais deverão cair 10-20% este ano, em razão dos temores de um excesso de oferta.

A Emaar espera que sua expansão seja favorecida em grande parte pelo exterior. Seus projetos internacionais agora representam cerca de 11% da receita, número que a companhia pretenderia dobrar nos próximos anos. O modelo urbano de Dubai de cidades planejadas e grandes edifícios é invejado por outras capitais, e provocou uma "dubaização" da região. A Emaar beneficia-se com este modelo. Atualmente, está construindo uma nova "world city", maior do que Washington, na Arábia Saudita. Ela tem outros projetos no Egito (onde recentemente inaugurou sua subsidiária local), Jordânia, Índia e Turquia. A companhia dispõe de terrenos para fins de construção que cobrem aproximadamente de 200 milhões de metros quadrados em terras no exterior.

Mas o histórico da Emaar no exterior é desigual. Três anos depois que ela adquiriu a John Laing Homes em 2006, a construtora americana pediu concordata. Desde então, a Emaar procurou negócios mais perto de casa. Na Índia, sua joint venture local foi acusada de corrupção na construção de instalações para os Jogos da Commonwealtu de 2010, que ela ajudou a construir (a companhia afirma que a questão está relacionada a obrigações contratuais e está sub judice, portanto, não pode comentar). Mais recentemente, ela desmentiu as notícias de que pretende deixar o país. Parte da terra que possui no exterior é objeto de disputas legais ou se encontra em países que sofrem por causa da guerra ou da agitação política, como a Síria. Alabbar admite que os negócios são mais complicados longe dos prestativos líderes de Dubai.

Alguns acionistas da Emaar temem que Alabbar fique demasiado envolvido com suas outras obrigações, e as considere um conflito de interesses. Ele é o fundador da Capital City Partners, que está em conversações para a construção de uma nova e enorme capital no Egito, e é membro do conselho da Eagle Hills, responsável por grandes projetos na Sérvia e na Nigéria. Vários ex-executivos da Emaar deixaram a companhia para ingressar em outras companhias, o que suscitou boatos de fuga de cérebros.

Alabbar desmente as críticas destacando os dados da companhia, inegavelmente excelentes. A Emaar vem aumentando seus lucros em oito trimestres consecutivos. É difícil encontrar um analista que aposte contra a firma. Mas ela se beneficiou com o fato de Dubai ser considerada o paraíso numa região instável. Duplicar o sucesso fora dos emirados será seguramente mais difícil.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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