Causas da desconfiança

A nítida trajetória de queda da taxa de investimento na economia brasileira tem sido comumente explicada pelos baixos índices de confiança na política econômica. Dessa convicção comunga até mesmo o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, cuja estratégia, focada em ações de austeridade fiscal, visa, declaradamente, a dissolver a desconfiança de empresários e investidores.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2015 | 02h02

Sustentada nos níveis cadentes das sondagens de expectativas para o desempenho da economia em futuro próximo, a vinculação entre recuo dos investimentos e a decisão de adiar investimentos mostra que de fato a (falta de) confiança é um fator relevante nesse processo. Mas é difícil acreditar que um elemento tão difuso possa figurar sozinho na primeira fila das razões para o baixo, e cada vez menor, volume de recursos empregados na modernização ou ampliação de negócios e criação de novos.

Há, na verdade, motivos bem mais concretos que estão afetando, negativamente, os investimentos. Entre eles, se destacam a redução das margens de lucro e os custos dos financiamentos acima da taxa de retorno. É o que confirmam as últimas atualizações de estudos do Centro de Estudos do Ibmec (Cemec), coordenados pelos economistas Carlos Antonio Rocca e Lauro Modesto Santos Jr., com base em balanços das companhias abertas, com dados até setembro de 2014.

Números não deixam lugar para dúvidas. Os investimentos das empresas abertas, que havia alcançado 8,7% do PIB, em 2008, e se sustentado em 7,3% do PIB até 2010, despenca para 4,5% do PIB, em 2013, e desce a 4,3% do PIB, no acumulado dos quatro trimestres encerrados em setembro de 2014. Não por coincidência, o lucro líquido dessas empresas, que chegara ao pico de 4,1% do PIB, em 2010, desce a ladeira a partir de então, encolhendo até 1,4% do PIB, nos quatro trimestres até setembro de 2014.

Em consequência, a rentabilidade sobre o patrimônio líquido também caiu. De 2010 em diante, a curva do retorno sobre capital próprio desabou, descendo de 17%, naquele ano, para 5,5%, no acumulado de quatro trimestres até setembro de 2014. "A rentabilidade média do capital próprio dessas empresas em 2014 é inferior à taxa de inflação e portanto ficou negativa em termos reais", destaca o estudo do Cemec. "No período, a taxa ficou muito abaixo da taxa de juros de uma aplicação em títulos públicos federais, com risco de crédito praticamente nulo e alta liquidez."

Fator crítico para orientar a decisão de investimento, o custo do financiamento também inverteu a tendência, nos últimos anos. Se, de 2005 a 2011, o custo médio do financiamento das dívidas das empresas abertas era inferior ao retorno do capital investido (próprio e de terceiros), de 2012 a 2014, passou a superar o retorno das aplicações. No último trimestre do ano passado, enquanto o custo financeiro do investimento chegava a 9,3% ao ano, o retorno do capital investimento limitou-se a 7,2%.

Além dos custos dos financiamentos acima do retorno do capital, duas são as principais explicações ressaltadas no estudo do Cemec para a forte queda nos lucros, que afetou a formação de poupança e as decisões de investimento. Uma delas prende-se ao esforço da política monetária em manter a taxa de câmbio valorizada, mantido até fins do ano passado, e a outra se articula com a acentuada elevação dos custos unitários do trabalho.

Se até 2008 a curva da produtividade da mão de obra acompanha o avanço do salário médio real, daí em diante a produtividade estaciona e o salário voa, abrindo uma boca de jacaré entre uma curva e outra, que chega ao ápice em 2014. Os aumentos de custos daí derivados, em combinação adversa com a dificuldade de repassá-los aos preços, diante da concorrência dos importados, estão na base da desidratação dos lucros e da taxa de investimento. Fica claro que, em relação à decisão de investir, a falta de confiança é mais consequência do que causa do fenômeno.

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