Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

C&A se ajusta para aguardar retomada do varejo em 2018

Rede varejista já desativou 2 das 12 lojas que pretende fechar neste ano; companhia não confirma, mas teria demitido ao menos 100 funcionários na semana passada

Entrevista com

Paulo Correa

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2016 | 17h31

Afetada pela crise que se abateu sobre o comércio varejista, a C&A, líder do varejo de moda no País, mantém o plano de fechar 12 lojas este ano. Deste total, duas já encerraram as atividades no primeiro bimestre, uma no município de Teixeira de Freitas, na Bahia, e outra em Vitória, no Espírito Santo.

Nas últimas semanas, o Estado apurou que  a companhia demitiu cerca de 100 funcionários, alocados  na administração da companhia em Alphaville (SP), no centro de distribuição e em lojas. Paulo Correa, presidente da rede varejista no Brasil, não confirma os números, mas admite que houve cortes. Ele pondera que houve ajuste nas estruturas e que também fez contratações. Tanto é que, nas suas contas, o executivo diz que hoje tem um quadro de funcionários 4% maior do que no início do ano. Mas Correa não revela quantos trabalhadores emprega atualmente na rede varejista que reúne 280 lojas no País.

Segundo o presidente da C&A no Brasil, com o anúncio da nova equipe econômica, há “muita esperança de que as medidas corretas vão ser tomadas e isso, ao longo do tempo, vai dinamizar a economia”. Enquanto esse sinais não aparecem, a rede varejistas trabalha nos ajustes e na operação para fortalecer a empresa, especialmente na área da sustentabilidade da moda.

Hoje a companhia apresentou ao público um documentário, produzido pela National Geographic, sobre a cadeia produtiva do algodão orgânico. Atualmente, a fibra produzida de forma sustentável está em 15% das confecções de algodão vendidas nas lojas da rede no País. Até 2020, a meta da companhia é que 100% dos artigos de vestuário comercializados na rede no mundo e no Brasil sejam feitos com  algodão orgânico. A seguir os principais trechos da entrevista.

A C&A sentiu a crise?

Quem não sentiu a crise? Acho que todo mundo, o Brasil está na crise. Aconteceu uma redução do tamanho do mercado, isso é um fato. As pessoas estão com o poder de compra diminuído e consomem de maneira mais seletiva e mais consciente. Isso significa oportunidades. Isso significa também desafios. No final do dia, tem sempre um balanço entre oportunidades e desafios que a gente tem de estar sempre buscando.

Em termos objetivos, onde a empresa sentiu a crise: redução de vendas, menor fluxo de pessoas nas lojas?

Tem menos pessoas circulando nos shoppings, tem menos pessoas entrando nas lojas e têm, de fato, vendas diferentes dos patamares que existiam antes.

O senhor teria um número?

Não posso falar em números, infelizmente.

O 'Estado' apurou que a empresa fez na última semana cerca de 100 pessoas no escritório central, no centro de distribuição e em lojas em São Paulo e Rio. Este número está correto?

Eu não tenho aqui exatamente o que aconteceu área por área. Mas, de verdade, tem. Mas do mesmo jeito que acontecem contratações, acontecem saídas. Temos um processo contínuo de, não só, revisão de estruturas, seja de contratações  e às vezes de saídas também. Por exemplo, em março nós internalizamos toda a parte de serviço ao consumidor. Contratamos 62 pessoas para fazer esse trabalho. Em fevereiro, começamos a trazer uma série de terceiros da área contábil, fiscal para dentro da empresa, contratamos mais 40 pessoas. Hoje estamos com 4% a mais de pessoas do que tínhamos no início do ano. As demissões acontecem, fazem parte de uma reestruturação. Mas isso é a vida normal. É uma coisa que vai acontecendo continuamente.

Quantos funcionários a empresa tem no País?

É uma informação sensível que eu não posso falar.

A programação de fechar 12 lojas este ano está mantida?

Está mantida. Fizemos em 2013, 2014 um desenho de projeto com uma expectativa de crescimento da economia que hoje é uma realidade totalmente diferente: o mercado diminuiu de tamanho, o Brasil diminuiu de tamanho. Aquele empreendimento que tinha uma projeção de crescimento e de faturamento não é mais verdadeiro. E tivemos de revisar. Vamos focar onde nós temos de fato oportunidade, onde temos condições de fazer um trabalho melhor.

Das 12 lojas, quantas foram fechadas?

Até agora duas.

Como o senhor está vendo a mudança de governo? Está sinalizando uma nova perspectiva? Quando essa mudança vai se refletir efetivamente nas vendas?

De fato, existe a esperança. A equipe econômica que foi anunciada ontem dá muita esperança de que as medidas corretas vão ser tomadas e isso ao longo do tempo vai dinamizar a economia. Os consultores que prestam serviços para nós falam de uma recuperação do PIB (Produto Interno Bruto) a partir de 2017, muito pequena, mas uma recuperação um pouco melhor em 2018, se tudo der certo. Enquanto tudo não dá certo, temos que continuar o nosso trabalho. O nosso trabalho é melhorar cada parte do nosso negócio: nossa proposta comercial, nossa estrutura interna, motivação, desenvolvimento das pessoas, nossos processos internos. Nós vamos fazer uma C&A cada vez mais forte para quando a crise passar, possamos alavancar a empresa.

Esse cenário mais moderado de crescimento da economia significa uma abertura de lojas mais lenta em 2017?

Não necessariamente, depende dos projetos. A dificuldade hoje é a proposição de projetos de expansão, de novos empreendimentos, de novos shoppings efetivamente atraentes. Acho que esse é um desafio que todos os empreendedores estão tendo neste momento.

As vendas pela internet está indo bem?

A internet está indo superbem. Ela tem um pouco mais de um ano e é a loja número um da C&A. E vem só crescendo de tamanho mês após mês. Temos lojas em cerca de 130 municípios e temos hoje clientes em mais de 4 mil cidades no Brasil. A loja virtual possibilitou uma expansão muito interessante.

Quanto o algodão orgânico representa das mercadorias vendidas na loja?

O algodão mais sustentável comercializado na C&A do Brasil representa 15% do total do algodão vendido nas lojas. Queremos chegar até 2020 com 100% no mundo, inclusive no Brasil.

Nesse cenário de consumo contido, as pessoas estão dispostas a pagar um pouco mais por esse tipo de produto?

Elas não estão dispostas a pagar mais por esse tipo de produto. Por isso que comercialmente nós temos estabelecido o mesmo patamar de preços para o algodão orgânico e não orgânico. A cadeia inteira do algodão tem que trabalhar junto para chegar a essa solução, como foi feito na Europa. Todo mundo tem que estar junto nessa jornada para poder oferecer isso para o cliente com nível de preço similar. Se oferecermos  nas nossas lojas produtos confeccionados com  o algodão orgânico com um preço mais alto, ainda não há  consciência  suficiente para tomar a decisão de comprar esse tipo de produto.

Quanto está sendo investido nesse projeto do algodão orgânico?

Não posso falar.   

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