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Celso Ming: A indústria afunda

O problema não está na indústria em si mesma; O problema está na condução da política econômica dos últimos quatro anos, que não cuidou dos fundamentos

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2015 | 20h58

Os números sobre o desempenho da indústria são de amargar, mas neles não há do que se espantar. É apenas o quadro geral um pouco pior do que já era ruim e tende a piorar.

Espanta-se apenas quem acreditava no keynesianismo tosco colocado em prática ao longo de todo o primeiro governo Dilma, que despejou na indústria R$ 400 bilhões do BNDES, pavimentou seu caminho com desonerações, reduções de impostos, créditos subsidiados, incentivos para veículos, materiais de construção, aparelhos domésticos, reservas de mercado e protecionismo alfandegário. 

Apesar da profusão de bondades e dos constantes apelos do governo aos empresários para que liberassem de uma vez seu espírito animal, as coisas na indústria desandaram para essa situação aí: queda da produção de 6,6% no acumulado dos primeiros sete meses de 2015 e de 5,3% nos últimos 12 meses (veja o gráfico ao acima). As aproximadamente cem instituições auscultadas semanalmente pelo Banco Central, por meio da Pesquisa Focus, preveem, em média, queda da produção industrial brasileira em todo o ano de 2015 de 5,6%. 

É a crise externa, a derrubada dos preços das commodities e a seca - repete a presidente Dilma. "A maré  mudou e a ficha tem de cair", passou a dizer o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. E, no entanto, apesar da crise externa, da desaceleração da China, do câmbio adverso, apesar da derrubada dos preços das commodities e apesar da seca, a agricultura, o setor que mais tenderia a ser prejudicado com esses fatores, deita e rola e continua deitando e rolando. Neste ano ruim, apresentará um aumento de produção física em torno de 8%, como apontam os levantamentos do IBGE e da Conab. Nem o custo Brasil, nem a precariedade da infraestrutura, nem o ativismo do governo prostraram a agricultura.

A indústria, no entanto, está baqueada pela baixa produtividade e decepcionante competitividade. Não se preparou para a virada da maré, porque foi asfixiada pela política industrial descabida, casuística e protecionista.

O problema não está na indústria em si mesma. O problema está na condução da política econômica dos últimos quatro anos, que não cuidou dos fundamentos, não levou em conta a virada da maré nem deixou cair a ficha, como pede o ministro Joaquim Levy. Não cuidou do equilíbrio das contas públicas, não tratou de destravar as negociações comerciais, deixou que a inflação disparasse e criou enormes inseguranças.

Ninguém sabe quanto tempo essa tempestade vai durar. O próprio ministro Levy, há uma semana, evocava a perspectiva de queda de inflação e a forte melhora das contas externas (contas correntes) como sinais de reversão próxima desta fase ruim. Mas, na última terça-feira, reconheceu que o País precisa ser preparado "para um choque grande e persistente". Se precisa ser preparado é porque ainda não está. E o choque grande será tão mais persistente quanto mais tempo o governo levar para produzir o ajuste.

CONFIRA:

Como esperado, o Copom manteve, nesta quarta-feira, os juros básicos (Selic) nos 14,25% ao ano. Aí está a evolução.

Sem explicações

O comunicado do Copom divulgado após a reunião não adiantou nenhum comentário sobre como fica a política de juros depois que a administração Dilma admitiu a existência de um rombo orçamentário de 0,5% do PIB nas contas de 2016. Mas manteve a política de juros calibrada para atingir a meta da inflação, de 4,5%, ao fim de 2016. Portanto, ignorou a projeção oficial do governo de uma inflação de 5,4% para o próximo ano.

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