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Celso Ming: Mais um Dia do Fico

Crepitando na frigideira, aparece a cabeça do ministro da Fazenda, Joaquim Levy

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2015 | 21h00

Fritura larga cheiro e faz barulho. Há pouco mais de uma semana é o que se tem todos os dias. Crepitando na frigideira, aparece a cabeça do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A chamada esquerda do PT está empenhada nesse frigideiraço, desde novembro, quando da divulgação do seu nome para pilotar a economia. A ela se juntaram algumas camadas que a velha esquerda ainda chama de “burguesia nacional”, entre os quais se notabiliza o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o mesmo que apoiou a desastrada redução das tarifas da energia elétrica e, um a um, os pacotes de bondades distribuídos em geral para os que gritam mais alto.

Questionada insistentemente em suas intenções, a presidente Dilma se comporta como cartola de clube de futebol. Dá entrevistas e manda recado de que o treinador segue prestigiado. Mas, por trás, vai agindo e deixando de agir de um jeito tão ambíguo que contribui para despejar mais óleo na fritura. Esta quinta-feira, foi o mais novo Dia do Fico. O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, foi encarregado de desmentir, mais uma vez, a saída de Levy. 

Trabalham para defenestrar o ministro os que não gostam da política econômica empenhada na recuperação dos fundamentos, especialmente do equilíbrio das contas públicas. Preferem alguma coisa parecida com a tal Nova Matriz Macroeconômica, que deu fragorosamente errado, a mistura de aumento das despesas públicas, mesmo sem receita para isso, derrubada sem escrúpulos dos juros básicos, estímulos creditícios à indústria e aumentos de impostos (especialmente sobre “os ricos”). Nesse item vai a lista de sempre: CPMF, Cide sobre combustíveis, imposto sobre herança e sobre o patrimônio. Essa gente não se importa em saber para onde vão a inflação, o dólar e o desemprego - embora digam que agem para revertê-lo.

A presidente Dilma vacila. Não se preocupa nem com coerência nem com as consequências. Um dia diz que pretende a CPMF; outro, que desistiu; logo em seguida, que seria provisória (como a CPMF anterior também era e acabou se perpetuando...); e, nesta quarta-feira admitiu que segue estudando o assunto. Continua “prestigiando seu ministro”, mas passa-lhe uma rasteira atrás da outra, ou deixa que outros lhe passem, sem defendê-lo, sem se importar nem com o aumento da incerteza que essa vacilação provoca na economia nem com a disparada do dólar no câmbio interno que, em boa parte, tem a ver com isso.

Os que pretendem segurar Levy argumentam que sua saída implicará substancial aumento de riscos de perda imediata do grau de investimento e, portanto, de disparada dos juros. Os que se empenham em derrubá-lo alegam que a eventual perda de grau de investimento não vai provocar nenhum efeito prático, porque essa hipótese já “está no preço”.

Em novembro, quando nomeou seu ministério, a presidente Dilma entendia que Levy passaria a ser necessário para criar confiança, como criara em 2002 a Carta ao Povo Brasileiro, documento de compromisso com a ortodoxia com que o presidente Lula conseguiu virar o jogo do mercado a seu favor. Agora, Dilma parece demonstrar que já não precisa de uma carta assim.

Mas, para convencer os brasileiros, precisa mais do que puramente desmentidos sobre a saída do ministro.

CONFIRA:

Esta quinta-feira foi dia de trégua, a cotação do dólar fechou estável em relação ao fechamento do dia anterior. Mas apenas nos três primeiros dias de setembro, a alta acumulada foi de 3,3%.

Barbeiragem dos outros

O ‘New York Times’ dessa quinta-feira publicou matéria sobre a mais nova surpresa da Google no desempenho dos seus carros sem motorista que estão sendo testados. São veículos programados para obedecer a todos os sinais de trânsito. Mas não conseguem se livrar dos maus motoristas que aprontam pelo caminho. Ou seja, faltam-lhes condução defensiva.

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