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Recessão ou depressão

É difícil de tachar esta crise de depressão, porque ela não vem acompanhada de falência de empresas, nem de quebras em cadeia no sistema financeiro

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2015 | 02h04

Esta encalacrada mistura proporções não sabidas de crise econômica e política. Os comentaristas vão esgotando os termos que melhor a possam qualificar de maneira a designar a gravidade da situação: é paradeira, recessão, estagflação e depressão.

Paradeira é um termo vago demais; é uma ligeireza para designar queda preocupante da atividade econômica. Recessão é expressão algo mais precisa, embora sujeita a divergências. Os economistas a definem como um período de pelo menos dois trimestres consecutivos de queda do PIB. Mas é uma designação com boa dose de rigidez, como uma roupa justa que não serve para qualquer um. Estagflação, por sua vez, é um período marcado por recessão (ou estagnação econômica) mais inflação. Quem usa essas expressões para o caso brasileiro acaba dizendo menos do que a crise realmente é.

Depressão é um termo que parece exagerado. Não procure uma definição precisa. O que se pode dizer é que deve ser um período relativamente longo de coisa ruim. O exemplo mais contundente é o da Grande Depressão dos anos 30, que na verdade compreende dois períodos (do terceiro trimestre de 1929 ao terceiro trimestre de 1932; e do terceiro trimestre de 1937 ao primeiro de 1938) e não um só. Depressão não está relacionada apenas à queda de produção e da renda, mas também a desemprego profundo (lembrar dos filmes de Chaplin, principalmente Em busca do ouro e O garoto), deflação, quebradeira de empresas, tombo das bolsas de valores e crise bancária.

Em geral, tem a ver com brutal desequilíbrio das contas públicas - coisa que não falta por aqui. Uma economia em depressão vem acompanhada, também, de estancamento do comércio exterior. Por enquanto, temos apenas uma queda relativamente branda das exportações (14,9%), com o tombo ainda maior das importações (23,1%). Mas há outros fatores a considerar.

Apesar da forte escalada do desemprego, é difícil de tachar esta crise de depressão, porque ela não vem acompanhada por movimento amplo de falência de empresas, nem de quebras em cadeia no sistema financeiro, nem de deflação.

Outras crises do Brasil, como a dos anos 80, foram marcadas por fuga de capitais e por falências de bancos, grandes e pequenos, exaustiva renegociação da dívida externa com os credores e intervenção do Fundo Monetário Internacional.

Não é o que acontece hoje por aqui. Ao contrário, o Brasil conta com US$ 370 bilhões em reservas externas e não há corrida ao dólar. O sistema bancário interno é sólido. Não há dívida externa estourando...

Enfim, esta crise é diferente das outras. Embora as coisas possam piorar, isso não significa que caminhem inexoravelmente para uma forma qualquer de depressão. A boa saúde dos bancos e a inexistência de crise cambial sugerem que o potencial de recuperação é grande.

Se houver recuperação da governabilidade e se a política econômica for consistente, a confiança tende a voltar e, com ela, o crescimento econômico, o investimento e o emprego.

Aí está a evolução do saldo das cadernetas nos últimos sete meses. Saldo equivale ao saldo anterior mais depósitos, menos saques, mais crédito do rendimento.

CONFIRA

As cadernetas continuam sangrando. Nos 11 primeiros meses deste ano, os saques somaram R$ 58,3 bilhões, 9% do saldo total. Essas retiradas têm duas causas: a redução da renda da população em consequência da inflação, do desemprego e da redução de salários; e a melhor remuneração das outras opções de aplicação em renda fixa.

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