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José Roberto Mendonça de Barros
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Cenário adverso

Neste início de 2014, dois eventos inesperados estão a afetar a economia brasileira: uma crise em vários países emergentes (que nos afeta via expectativas, conta comercial, conta capital e taxa de câmbio) e um verão excepcionalmente quente e seco.

José Roberto Mendonça de Barros , O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h09

Do primeiro item tratamos no nosso último artigo. Acrescento que, desde então, houve reação de vários bancos centrais através da elevação da taxa de juros, o que defende o valor da moeda e tende a reduzir a saída de divisas. Em nenhum lugar, pode-se dizer, a situação melhorou muito. As crises políticas em vários locais continuam e o receio com relação ao futuro ainda está presente. Entretanto, parece correto afirmar que os mercados estão um pouco mais calmos nesta semana (como atesta a queda no seguro de crédito contra "default" em muitos países), com pelo menos duas exceções notáveis: Venezuela e Argentina, onde crises cambiais avançam de forma inexorável.

A Venezuela é, de longe, o caso mais grave. A escassez de divisas é gigantesca, o que é retratado pelo movimento do câmbio: a taxa oficial é de 6,3 bolívares por dólar, mas praticamente não é oferecida moeda para o setor privado nessa taxa. Ao contrário, o banco central vende volumes modestos de dólares para compradores autorizados a uma taxa de 11,36 bolívares por dólar, ou seja, a taxa oficial "plus" é quase o dobro da oficial. Ao mesmo tempo, no mercado paralelo o dólar vale 84 bolívares. Essa situação produz quatro resultados lamentáveis. Em primeiro lugar, um enorme ganho especulativo pode ocorrer se alguém conseguir comprar moeda americana ao dólar oficial para em seguida vendê-lo no mercado paralelo. Em segundo lugar, como o volume de moeda negociado no câmbio "plus" é muito pequeno frente à demanda de importações, o abastecimento fica prejudicado e as prateleiras dos mercados estão cada vez mais vazias. Logicamente a inflação tende a subir e já está a ultrapassar os 50% anuais, caminhando para ser a maior do mundo.

O terceiro efeito ocorre sobre a produção industrial, na medida em que partes, peças, componentes e equipamentos não são importados por falta de moeda. A melhor ilustração ocorreu esta semana com o fechamento da fábrica da Toyota por falta de peças. Este é a última etapa do processo de forte redução na produção: as empresas do setor fabricaram 172 mil veículos em 2007, volume que se reduziu, em 2013, para apenas 72 mil unidades. Com as férias coletivas em curso, a produção de 2014 será ainda menor, contribuindo para uma provável queda do PIB neste ano.

Em quarto lugar, os serviços também são afetados. Como colocou Leonardo V. Vera, em artigo recente para o site Infolatam. "Uma crise de dimensão descomunal se avizinha no setor da saúde. Em janeiro a escassez de medicamentos estava em 46% do total. Os distribuidores do setor devem pelo menos US$ 425 milhões de importações por compras realizadas desde 2012 em diante. O mesmo ocorre em muitos outros segmentos.

A escassez absoluta de divisas torna inócuo qualquer arranjo de distribuição da moeda disponível, eleva a inflação, reduz o bem estar da população e paralisa a produção. Não é, pois, para se surpreender com o agravamento da crise política.

O caso da Argentina é menos radical, mas também grave. A desvalorização cambial permitida pelo governo está pressionando a inflação. De fato, um índice de preços que a oposição no Congresso divulga (calculado por uma instituição acadêmica) mostrou um acréscimo de 4,6% apenas em janeiro. Até o novo índice calculado pelo governo, para substituir o desmoralizado índice oficial do Indec, mostrou uma inflação de 3,7% no último mês. Com isso, a inflação em 12 meses ultrapassa, com folga, os 30%. Como a partir de março iniciam-se as negociações trabalhistas, e os sindicatos começam por pedir reajustes de 40% está claro que a inflação seguirá sua trajetória de alta.

Como seria de se esperar, a escassez de divisas já afeta a balança comercial e as nossas exportações para aquele país, como mostram os dados da balança comercial até a primeira semana de fevereiro.

Além do estresse que este verão está colocando nas pessoas e na infraestrutura, o que já ocorreu até aqui vai afetar a safra agrícola e a oferta de energia. Em ambos os casos, o tamanho das dificuldades depende, evidentemente, do que vai ocorrer com as precipitações até o fim de abril.

Na agricultura o impacto imediato se dá nas verduras (especialmente folhas), feijão e café. Os preços desses produtos já subiram tendo em vista a redução de produção que ocorrerá nos próximos dois meses (hortícolas), no final do primeiro semestre (feijão) e nas safras deste ano e do próximo, no caso do café. Há um efeito, também, na elevação dos preços da carne vermelha, uma vez que a falta de pastos reforça a redução da oferta e a pressão altista dos preços internacionais. No caso de cana de açúcar e laranja, alguma perda de produtividade vai ocorrer, mas ela só pode ser dimensionada nas próximas semanas. No caso de grãos, a colheita da safra de verão será afetada, mas não alterará a característica de uma safra boa. É possível que em vez das 195 milhões de toneladas de grãos esperados, talvez colhamos algo na faixa de 187/188 milhões. Bom número, mas o que resulta é alguma perda de produção e certa pressão na inflação de alimentos.

Energia. Com relação à produção de energia, a situação de hoje é bastante preocupante. A baixa precipitação reduziu a níveis recordes a afluência dos rios e o nível dos reservatórios. Essa situação expõe uma série de deficiências no nosso sistema elétrico e que ficaram claras no importante relatório da Consultoria PSR. Por conta disso, a oferta de energia neste ano passa a depender crucialmente do volume de chuvas até o final de abril. Entramos numa fase de risco, onde a eventual necessidade de algum racionamento não pode ser descartada. No mínimo, o que teremos é uma forte elevação do custo do MW, pressionando as empresas do setor, o Tesouro Nacional (e, portanto, a meta fiscal) e mais adiante, as tarifas pagas pelos consumidores.

Essa situação, associada aos fracos resultados da indústria e do comércio e do índice IBC-Br consolida a percepção de que o crescimento deste ano será bem mais fraco do que de 2013, bem inferior a 2%.

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