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Cenário delicado nos próximos meses

É impossível não ver que estamos nos encaminhando para um grande problema

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

“O Brasil pode ir para a hiperinflação muito rápido se não rolar a dívida satisfatoriamente.” 

Esta fala de Paulo Guedes provocou um certo tumulto no mercado financeiro recentemente. É, evidentemente, um exagero, dado que a inflação está pressionada, mas na faixa dos 3% anuais. Ela ilustra uma dificuldade que é a retórica descuidada do ministro, que continua dando problemas. Esta envolve, pelo menos, três questões recorrentes. Em primeiro lugar, exageros e brincadeiras fora de hora, como aquela em que dizia que “estava uma festa danada, com empregadas domésticas viajando para a Disney”. Além disso, há um exagero nas suas metas e números: a privatização geraria R$ 2 trilhões de receita e a venda de imóveis da União traria outro trilhão, números totalmente fantasiosos. Basta ver que nenhum projeto relevante de privatização foi adiante até hoje, em quase dois anos de governo. 

Finalmente, já motivo de galhofa, os inúmeros projetos que serão enviados ao Congresso numa “semana que vem” que nunca chega. Como já anotei antes, é evidente que o ministro está meio sem rumo, incapaz de montar uma visão e consequente programa, que permitam enfrentar uma situação que se afigura cada vez mais difícil, mesmo sem contar com eventual segunda onda do vírus. 

Vivemos um momento paradoxal, pois o PIB do terceiro trimestre deste ano mostrará um número muito robusto, que estimamos ser de 9,3% de crescimento ante o segundo trimestre. Entretanto, a partir daí, nossas projeções mostram que, ao invés de uma retomada mais firme do crescimento, a economia começará a andar de lado. 

Isso porque, como todos sabem, haverá uma drástica redução do volume de recursos transferidos às famílias. Até agosto, algo como 67 milhões de pessoas receberam R$ 600, que se reduzem a R$ 300 por mês até o final do ano. Para 2021, temos apenas na proposta do Orçamento o Bolsa Família, que atinge 14 milhões de pessoas. 

Ao mesmo tempo, a forte elevação dos preços de alimentos, que projetamos ser de 12% até o final do ano, já reduzem o poder de compra do coronavoucher. Também começam a aparecer pressões em outros itens, como higiene e limpeza. Isso decorre de um movimento mais geral de alta de preços, pois todas as matérias-primas básicas (metálicas e químicas) têm conseguido reajustar suas cotações e já há produtos em falta. 

Finalmente, o mercado de trabalho está muito fraco: no trimestre terminado em agosto, mais de 25 milhões de pessoas estavam desempregadas, desalentadas ou trabalhavam menos horas do que gostariam. Projetamos uma taxa de desemprego que ultrapassará os 16% em dezembro, caindo muito lentamente a partir daí. Somando tudo, o crescimento do consumo vai perder o dinamismo atual ( já há certas indicações).

Das outras fontes de demanda, o comércio exterior não parece adicionar algo mais do que já vem ocorrendo, com um bom desempenho das commodities. Da mesma forma, ainda não existe qualquer sinal de crescimento mais significativo nos investimentos, como poderia ter sido o caso, se reformas, privatizações, concessões e segurança jurídica tivessem andado de forma mais significativa.

Compõem o quadro grandes dificuldades no avanço das reformas. A experiência mostra que, sem o envolvimento mais direto do Executivo, os projetos não andam. Ora, o presidente não se interessa por essas pautas, quando não é totalmente contra as mudanças. O ministro da Economia também tem uma relação difícil com o Congresso, inclusive no que tange ao Orçamento do ano que vem e ao equacionamento da difícil situação fiscal. 

Como se não bastasse tudo isso, por decisão presidencial, só a partir das eleições as coisas começarão a ser discutidas no Congresso, onde vemos uma concentração sem precedentes de grandes questões, de difícil resposta. É impossível não ver que estamos nos encaminhando para um grande problema. 

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