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José Roberto Mendonça de Barros
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Cenário difícil exige agilidade das empresas

Estamos encerrando um primeiro trimestre nervoso como poucas vezes se viu. Tanto a situação política como a situação econômica evoluíram muito rapidamente, com pelo menos quatro características importantes.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h07

Houve uma rápida piora da situação, uma descontinuidade, um verdadeiro "degrau", ao contrário do que seria mais comum, numa evolução gradual. Tanto no campo político como no campo econômico assistimos ao abrupto final de uma era, que sinaliza a evolução para algo novo, mas não totalmente conhecido.

No plano político, duas coisas surpreenderam. O Executivo, neste momento, perdeu o poder de agenda, com a força estando nas mãos do Legislativo. Ao mesmo tempo, a última pesquisa DataFolha mostrou uma derrocada no suporte do governo em todas as regiões e por níveis de renda dos declarantes.

No plano econômico, o mercado formal de trabalho, tal como mostrado pelo Caged, mostrou em fevereiro a terceira perda líquida mensal e consecutiva de postos de trabalho. Como se sabe, até recentemente, este era o último indicador econômico a mostrar resultados positivos, enquanto que crescimento, inflação, finanças públicas e setor externo já mostravam uma piora há muito tempo.

Também foi totalmente inusitado o que acabou ocorrendo em janeiro na área hídrica e na questão da crise da Petrobrás. As chuvas do mês foram muito inferiores à média histórica (o que, felizmente, se reverteu em fevereiro), o que acabou por sinalizar que viveremos uma situação difícil no abastecimento de água e de energia elétrica neste ano. Daí decorre um impacto negativo nas famílias, que se traduziu numa drástica queda na expectativa dos consumidores e na perda do poder de compra decorrente do forte reajuste da conta de energia elétrica.

Simultaneamente, o avanço da crise na Petrobrás teve consequências bastante fortes. Como se sabe, desde o ano passado, a companhia reduziu drasticamente os seus pagamentos a fornecedores, o que, naturalmente, começou a pressionar o caixa dessas companhias. Em janeiro e fevereiro assistimos ao fechamento de inúmeros canteiros de obras espalhados pelo Brasil, com a dispensa de milhares de trabalhadores. Este resultado está produzindo consequências relevantes: espalha a informação inequívoca de que o mercado de trabalho virou; além disso, é seguro que assistiremos a uma queda importante no investimento público, pela simples razão que a desativação de um canteiro de obras com, por exemplo, dois mil trabalhadores, paralisa a mesma por muito tempo, simplesmente porque a reativação do mesmo canteiro é trabalho para alguns meses.

Finalmente, o resultado mais importante é que a expectativa de grandes dificuldades para muitos fornecedores está colocando uma importante ameaça para o sistema bancário, e elevando, com isso, o risco de crédito de muitas companhias. Lembremos que o mercado de bônus no exterior para companhias brasileiras está fechado já há algum tempo. Com isso, caminhamos rapidamente para um aperto de crédito que vai se espalhar, uma vez que o dinheiro é fungível, para outros segmentos da companhia.

Do ponto de vista dos bancos, hoje, o risco de crédito das pessoas jurídicas preocupa muito mais do que o risco de crédito das pessoas físicas.

Resumindo, 2015 começou com uma forte queda (um verdadeiro "degrau") na atividade em muitos setores. As vendas de automóveis, por exemplo, caíram mais de 20%, resultando em expressiva elevação dos estoques; a renda familiar será afetada e o consumidor vai se retrair; finalmente, a evolução da situação da Petrobrás está resultando numa elevação do risco de crédito e ao comportamento defensivo dos bancos. Ao mesmo tempo, é certo que o real vai se desvalorizar de forma importante e definitiva.

Nessas condições, as empresas têm de reagir rápido para defender sua liquidez. A simultânea queda na atividade no curto prazo e uma mudança, ainda não totalmente definida, no arranjo do crescimento do País sugerem que a força do balanço das companhias é a única garantia de travessia mais suave da situação.

Entretanto, o verdadeiro desafio para as empresas é o de se ajustar a um ano difícil sem matar o futuro da companhia.

Nunca foi tão claro que o futuro das empresas, bem como o do País, tem na maior ligação com o resto do mundo e na elevação da produtividade o seu pilar mais importante. Esta só irá melhorar com mais capital, sistemas integrados e inteligência de informações.

É fundamental que se comece a elaborar uma visão estratégica que permita se posicionar frente a um novo modelo, que não poderá depender mais de benefícios fiscais e de grandes doses de crédito oficial subsidiado. Da mesma forma, as empresas precisam de menos funcionários, melhores práticas, mais técnicas e conhecimentos. É também fundamental reforçar a inteligência de mercado.

Este não é um caminho excessivamente complicado para muitas companhias. Praticamente todos os casos que conheço têm já razoavelmente desenvolvidos os caminhos para maior elevação da eficiência e da produtividade. Esta é a hora de colocá-los em prática.

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