Cenário difícil exige ajustes na economia

Cenário difícil exige ajustes na economia

Governo tem desafio de acertar contas, retomar crescimento e reduzir inflação

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2014 | 02h08

A presidente Dilma Rousseff terá uma série de desafios na condução da economia no segundo mandato, a partir do próximo ano. A economia brasileira apresenta desequilíbrios, como baixo crescimento, inflação alta, problemas na área fiscal, e terá de passar por um ajuste.

Por ora, o cenário esperado para 2015 parece bastante complicado, o que deve tornar ainda mais difícil qualquer margem de manobra do governo. O relatório Focus aponta que o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) deverá ser 0,8%, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - inflação oficial do País - ficará em 6,4%, resultado muito próximo do teto da meta do governo, que é de 6,5%.

"Num primeiro momento, os ajustes dão alguns efeitos inadequados. É como se fosse um remédio bom para algumas coisas, mas que traz efeitos colaterais", afirma Simão Silber, professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

As contas públicas têm sido um problema recorrente do governo. Em setembro, as contas do governo central, que inclui resultados do Tesouro, do Banco Central e da Previdência, tiveram um déficit de R$ 20,4 bilhões. No ano, o déficit acumulado é de R$ 15,7 bilhões.

Na semana passada, o governo enviou um projeto de lei ao Congresso que permite abandonar as metas de superávit primário. Pela proposta, o governo poderá abater da meta de superávit todos os gastos das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "O que está na praça é a grande desconfiança nas contas do governo", diz Silber.

O grande risco, dizem analistas, é a economia perder o grau de investimento. O Brasil já está na mira das agências de risco. Em setembro, a Moody's passou a perspectiva da nota brasileira de estável para negativa. Em março deste ano, a Standard & Poor's (S&P) reduziu o rating brasileiro para BBB-, o menor possível entre os países com grau de investimento.

O grau de investimento funciona como um selo de qualidade e mostra que o País tem capacidade de honrar suas obrigações. Caso o Brasil perca esse selo, alguns fundos que investem no País vão ter de deixar de investir por restrições legais, o que pode provocar saída de capital e, consequentemente, a desvalorização da moeda brasileira. "Com a perda de grau de investimento, o juro sobe porque o risco aumenta. Isso é recessivo e aumenta o custo do dinheiro para o governo e, obviamente, para todo o setor privado", afirma o professor da USP.

Entre as medidas necessárias para corrigir as finanças públicas, segundo Silber, estão elevação de impostos - como Cide e IPI -, corte de gastos, e a melhora na relação entre Tesouro e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Uma outra grave distorção da economia brasileira está no setor externo. Até setembro, o déficit nas transações correntes foi de 3,72% do PIB nos últimos 12 meses, o que indica uma alta necessidade de financiamento externo da economia brasileira.

"Para acertar o setor externo, o governo tem de acertar o câmbio de alguma forma, nem se for ao longo do tempo. Ou seja, impedir de novo uma valorização do real. Para impedir essa valorização do câmbio, ele não pode aumentar os juros porque senão o câmbio valoriza. E, para os juros não subirem mais, ele vai ter de fazer o ajuste fiscal", afirma Nelson Marconi, coordenador do Fórum de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Sinais. Embora o cenário seja difícil, a sinalização do governo de ajustes pode ajudar a trazer mais otimismo para a economia. Por enquanto, Dilma tem dado poucos sinais do que pretende fazer nos próximos quatro anos. Durante a eleição, a campanha petista optou por não apresentar um plano de governo. Dilma divulgou apenas a diretriz apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nela, prometeu o "fortalecimento de uma política macroeconômica sólida, intransigente no combate à inflação e que proporcione um crescimento econômico e social robusto e sustentável". Segundo o programa, o crescimento seria estimulado pelo aumento da taxa de investimento e pelo crescimento do mercado doméstico.

Com o fim da disputa eleitoral, o governo tem tentando emitir alguns sinais de condução da economia a partir de 2015 na tentativa de acalmar o mercado financeiro.

A grande expectativa é pela nomeação do substituto de Guido Mantega, atual ministro da Fazenda. "Se o governo não fizer nada, a economia brasileira vai continuar patinando", diz Marconi. "Por enquanto, está uma cacofonia. Não dá para saber coisa nenhuma", afirma Simão.

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