Cenário é promissor e há espaço para expansão, diz presidente da Viavarejo

Na 1ª entrevista após assumir a empresa, Valim diz que sócios têm relação amistosa e que não teme interferência na gestão

Entrevista com

RICARDO GRINBAUM , DAVID FRIEDLANDER , NAIANA OSCAR, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h12

O executivo Francisco Valim, de 49 anos, assumiu nesta segunda-feira a presidência da Viavarejo – uma das maiores empresas de varejo do mundo, dona das redes Casas Bahia e Ponto Frio e hoje controlada pelo Grupo Pão de Açúcar. Uma de suas primeiras missões será preparar a companhia para ampliar sua presença na bolsa de valores, por meio de uma grande oferta pública de ações (uma OPA, no jargão financeiro).

 

A chegada de Valim é a segunda tentativa dos controladores de tocar o dia a dia do negócio sem a presença da família Klein, que fundou a Casas Bahia nos anos 50 e esteve no comando até o final do ano passado. Na primeira, deu tudo errado.

 

 

Antonio Ramatis foi pinçado dentro do próprio Pão de Açúcar para assumir a Viavarejo no lugar de Raphael Klein, ficou seis meses no cargo e saiu acusando os chefes de se intrometer além do tolerável na gestão da empresa. Valim diz que o problema envolvendo seu antecessor não é da sua conta e nem o preocupa. "Acredito que terei espaço e autonomia para executar meu trabalho da melhor forma possível", afirma, em sua primeira entrevista como presidente da Viavarejo.

 

Membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o gaúcho Valim já foi missionário, é pai de quatro filhos (três são gêmeos) e é formado em formado em administração de empresas.

 

Começou a carreira o grupo de mídia RBS, passou pela Serasa Experian, pela NET e até janeiro era presidente da operadora de telefonia Oi – de onde saiu em janeiro depois de bater de frente com os controladores da companhia.

 

A seguir, os principais trechos da entrevista realizada na segunda-feira, primeiro dia de Valim na Viavarejo:

 

Como foram esses dez dias entre o anúncio de que você seria o novo presidente e seu primeiro dia na empresa?

 

Pesquisei na internet, avaliei resultados financeiros do passado disponíveis na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), encontrei algumas pessoas. Tudo isso facilita a chegada. Mas a situação é tranquila porque não estamos falando de uma companhia que tem problemas. Minha tarefa é continuar o bom trabalho que já vem sendo realizados e cuidar para que ele evolua. Os sócios estão alinhados em torno disso.

 

Os sócios podem estar alinhados agora, mas de vez em quando eles se desalinham e começam a brigar...

 

Num processo de recrutamento como esse que passei você é avaliado, mas também avalia. E minha percepção é de que há, sim, um alinhamento muito grande entre os sócios. Não vi nenhum tipo de divergência nas conversas que tive. O Grupo Pão de Açúcar e a família Klein querem que a empresa continue crescendo. Até vi uma ou outra especulação sobre isso que você está falando nos jornais, mas não é o que verifiquei de fato com eles.

 

A empresa anunciou a intenção de fazer uma grande oferta pública de ações para que a família Klein se desfaça de uma participação. A operação está mantida?

 

Esse é mais um ponto de alinhamento entre os sócios. Agora, se vai ou não acontecer neste ano, essa é uma informação restrita. As condições para fazer uma oferta são determinadas pelo mercado e pelos nossos assessores, Credit Suisse e Bradesco. Eles são os responsáveis por acertar o ‘timing’ dessa transação. Nosso papel é estar pronto quando a hora chegar.

 

Mas, na sua opinião, o mercado está propício?

 

Estamos fazendo o que é necessário dentro da organização para deixar tudo pronto.

 

Qual foi a missão que o senhor recebeu quando aceitou o convite?

 

Meus objetivos são de longo prazo. O principal deles é fazer a receita crescer, ampliar a abrangência da companhia e melhorar resultado, otimizando investimento. Esse hoje é o principal desafio.

 

Seu antecessor, Antonio Ramatis, deixou a empresa em conflito com os controladores, queixando-se publicamente da interferência deles na gestão. O senhor levou isso em conta ao avaliar a proposta?

 

Não é minha responsabilidade me envolver nesse processo. Acredito que terei espaço e autonomia para executar meu trabalho da melhor forma possível. Essa não é uma preocupação.

 

Como foi seu processo de seleção?

 

Foi feito por meio de um head hunter e conduzido pelo Eneas Pestana (presidente do Grupo Pão de Açúcar). Conversei com Jean-Charles Naouri (dono do Casino, que controla o Pão de Açúcar), em Paris. E também com Michel e Rafael Klein.

 

Falou com Abilio Diniz?

 

Não. Abilio não fez parte do processo de seleção.

 

O senhor chegou a conversar com Samuel Klein (fundador da Casas Bahia)?

 

Não. Cruzei apenas uma vez com ele, no corredor, quando ainda era presidente da Serasa e a empresa prestava serviços para a Casas Bahia. Mas ele não se lembra de mim.

 

O senhor está assumindo o lugar que foi dele...

 

Para mim, é uma honra ocupar este posto. A Casas Bahia começa com um imigrante que fugiu da guerra e que, com pouco mais que uma carroça, criou uma das maiores empresas de varejo do mundo. É um motivo de orgulho para mim participar dessa história. Mas Samuel Klein é insubstituível. Minha responsabilidade é manter os valores que ele criou - tratar com carinho as pessoas que trabalham aqui e cuidar do freguês como se fosse nossa própria família.

 

Como sua experiência na Oi pode ajudá-lo na Viavarejo?

 

Tive uma experiência excelente na Oi. Conseguimos fazer a receita da Oi crescer depois de três anos negativos. É isso que eu sei fazer. E esse é meu papel primário aqui. Tenho uma experiência larga no mercado de varejo. Telecomunicação é mais varejo que qualquer outra coisa: é preciso vender, reter, trabalhar com clientes.

 

A versão do mercado é que o senhor teria tido problemas com os sócios da Oi, por isso deixou a empresa. Foi uma surpresa?

 

O que aconteceu na Oi para mim é um episódio do passado. Serviu de experiência e serviu de aprendizado. Acho que executei bem meu papel lá. O que acontece depois disso é um problema particular meu e da Oi.

 

Problema seu e da Oi ou com algum sócio da Oi?

 

Como responsável fiduciário pelas organizações que represento, não tenho direito de falar sobre elas. Posso falar quando é bom – ninguém vai me criticar por isso. Mas se não é para falar bem, eu não tenho que falar nada. Não falei até agora e não vou falar. Quando não dá certo, não dá certo. A vida continua para os dois lados. Tem que olhar para frente.

 

O senhor teria movido um processo contra a Oi...

 

As pendências que eventualmente existam são problemas que a Oi e eu vamos resolver no seu devido tempo.

 

O senhor assume a Viavarejo em um momento de desaquecimento do consumo. Com que cenário o senhor está trabalhando?

 

Não vejo desaquecimento, no máximo uma desaceleração do crescimento, o que é muito diferente. Ainda há um potencial muito grande de expansão geográfica no Brasil e os produtos que vendemos ainda têm uma penetração baixíssima no mercado brasileiro. Com crescimento de renda, vamos continuar crescendo. O cenário ainda é promissor.

 

O potencial geográfico que o senhor citou está onde?

 

Hoje estamos mais concentrados na região Sudeste. Mas fora existe um potencial grande para ser aproveitado.

 

Hoje vocês não tem um grande competidor no calcanhar ...

 

Temos vários. Esse é um mercado que apesar de ter alguma concentração ainda é bastante pulverização. No plano nacional há competidores bastante competentes. No nível regional, há competidores com táticas bastante eficientes também. É um mercado de margens baixas porque é bastante competitivo.

 

O senhor ainda fica nervoso antes de começar num emprego novo ou isso não existe para alguém com sua experiência?

 

Ontem, por coincidência, estava revendo com meu pai o filme Pelé Eterno e ele conta que quando foi bater o pênalti do milésimo gol, tremeu. Se o Pelé, que tinha feito 999 gols tremeu... Não existe a possibilidade de não ficar ansioso. O que me deixa tranquilo é já ter passado por várias experiências. Já sei o que esperar e o nível de ansiedade diminui.

 

O sr. saiu da Oi em janeiro e só começou a negociar com o Grupo Pão de Açúcar em junho. O que fez nesse meio tempo?

 

A última vez que tirei férias de 30 dias foi em janeiro de 1982. Tirei esse tempo para ficar junto da família. Passamos três semanas em Nova York, todos juntos, morando numa apartamento menor. Meus filhos fizeram um curso, eu fui fazer culinária. Foi importante.

 

Vai levar mais três décadas para tirar 30 dias de férias outras vez?

 

Pela idade, acho que não (vai completar 50 anos no dia 13). Apesar de que meu pai tem 85 anos, é plantador de arroz no Rio Grande do Sul e trabalha todos os dias.

 

O sr. é religioso?

 

Muito. Poderia ficar horas falando disso aqui. Fazia engenharia e, em 1981, servi no CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva)como oficial de engenharia, em Porto Alegre. Quando sai, servi dois anos como voluntário missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, pregando para famílias no Paraná. Quando voltei, depois do Exército e do período como missionário, comecei a assistir aula de resistência dos materiais, geologia avançada.. Faltava gente, percebi que não ia funcionar para mim e mudei da engenharia para administração de empresas, o curso em que me graduei.

 

Qual foi o papel da igreja na sua formação?

 

A gente lida com o ser humano. E a igreja te ensina a nunca achar que você é mais importante que os outros. Porque eu exerço uma função de destaque, mas não sou uma pessoa necessariamente diferente das outras.

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