Stringer/ EFE
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Cenário econômico nacional tem tido um bom desempenho, ao menos até esta semana

Mais provável é persistir a tendência à valorização do real, mesmo na crise gerada pela invasão da Ucrânia

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2022 | 04h00

O ano de 2022 tem sido particularmente desafiador. Porém, ao contrário do esperado, as surpresas negativas estão vindo do cenário internacional. O cenário interno tem tido um desempenho particularmente positivo, ao menos até esta semana.

No cenário internacional, dois fatos deverão permanecer no horizonte por algum tempo. A aceleração da taxa de inflação nos Estados Unidos, que em janeiro atingiu 7,5% ao ano, e a invasão da Ucrânia pela Rússia.

A aceleração da inflação nos Estados Unidos gerou reação do banco central do país (Fed). As compras de ativos financeiros serão encerradas em março, quando a instituição iniciará o processo de aumento das taxas de juros, que, para alguns diretores, deveria ser de 0,5 ponto de porcentagem, e o Fed deveria iniciar a redução de seu balanço no segundo trimestre de 2022.

A decisão de invadir a Ucrânia gerou forte reação, promessas de retaliação e de isolamento do sistema financeiro russo. Sendo a Rússia um grande exportador de petróleo e gás natural para a Europa ocidental, além de grande exportador de trigo, e a Ucrânia grande exportadora de trigo e milho, o conflito deverá gerar choque nos preços dessas commodities e aumento da pressão inflacionária, forçando a adoção de políticas monetárias ainda mais duras do que as já programadas. O efeito é claramente recessivo.

A reação da economia e dos preços dos ativos financeiros no Brasil à aceleração da inflação nos Estados Unidos foi surpreendentemente positiva, com forte entrada de investidores estrangeiros, valorização das ações e do real ante o dólar. A trajetória de valorização do real afeta diretamente a inflação, amenizando os efeitos dos choques de preços de commodities.

A primeira reação à invasão da Ucrânia foi de queda das bolsas de valores e desvalorização do real. Entretanto, além do possível aumento dos preços das commodities – o que favorece o Brasil, por ser um grande exportador destes produtos –, o diferencial de juros entre o Brasil e o resto do mundo hoje é bastante elevado. Isso torna o País atraente para os investimentos em portfólio, induz as empresas brasileiras a se endividarem em dólar, e não em reais, e os exportadores a internalizar os recursos com rapidez. Mantendo esse diferencial, nossa avaliação é de que o mais provável é persistir a tendência à valorização do real, mesmo durante a crise gerada pela invasão russa da Ucrânia.

* PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC/RIO (APOSENTADO). É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS 

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